11.29.2009

Velha Gaiteira em marcha atrás

A imagem de cima é de um dos filmes mais milagrosos da década, Les Glaneurs et la glaneuse, o filme que trouxe de novo à ribalta aquela que é uma das personagens (a única mulher, provavelmente) mais marcantes da nouvelle vague francesa; mas para além disso é também uma imagem do novo filme da "avozinha punk" do cinema francês (Les Plages d'Agnés), filme de memórias, de filmes e de momentos de vida. O que há de brilhante neste fotograma, não é ser um enquadramento daqueles que dá voltas à cabeça, ou ter tantos níveis de linguagem que nos perdemos pelo caminho; o que espanta é a profunda simplicidade; mesmo o acaso do momento artístico: qualquer pessoa com uma câmara de mini-dv consegue ter uma imagem destas, basta deixar a cassete arrumada num canto e ela estraga-se por si mesma, Varda nada fez para além de filmar-se, e enquanto qualquer outro pensaria que daquele incidente se perdiam alguns segundos de filmagem, Varda viu todo um potencial mesmo simbólico e metafórico para a força das handy-cams (é preciso que uma senhora desta idade venha ensinar à malta nova como é que se retiram todas as potencialidades coisas modernas ?).
Mas o que me leva a escrever é Les Plages d'Agnés, filme de longe perfeito, mas cheio de uma alma, maior que qualquer coisa que se tenha visto nas salas de cinema nos últimos anos, sendo que foi um comedido grande sucesso de bilheteiras no nosso país, estreou-se em Julho e só esta semana é que saiu de exibição (quase quatro meses, é coisa que poucos títulos têm direito, ainda mais filmes de autor(a)).
Varda é uma senhora muito especial, ela está no meu Olimpo dos realizadores, logo ao lado de Eric Rohmer, ambos estão cheios de uma candura, uma pureza tão cheia de singularidades, uma paixão pelo cinema (e pelos seus personagens - mesmo nos documentários de Varda, solta-se amor (mas mais do que isso, respeito) sempre que ela entrevista alguém (muito longe da arrogância e demagogia do Moore - comparar alhos com bugalhos), há em cada documentário de Agnés mais ficção do que em muita pessegada que por aí anda). Mas convenhamos o ar pueril de Varda e a sua quase infantilidade são apenas aquilo que aparece num primeiro contacto, ela está cheia de consciência social, pejada de conhecimento humano e transborda compreensão.
Há um outro momento no filme que retirado de Jacquot de Nantes (editado recentemente em DVD e que é a mais bela carta de amor alguma vez filmada) em que Agnés filma Demy (seu marido) como se ele fosse uma paisagem, os cabelos como se fossem uma floresta, a pele do rosto como se fosse uma praia, os olhos como se fossem a lua. Só mesmo uma 'génia' para ver o seu amado como um sítio que se pode visitar e viver (isto sim é que é amor).

P.S.:não creiam que "avozinha punk" e velha gaiteira são depreciativos, muito pelo contrário, foi Varda que assim se auto-denominou, principalmente devido ao seu cabelo que é branco na raiz e laranja nas pontas, quanto à velha gaiteira, essa foi a tradução portuguesa para "une petite vieille bon vivant"

11.21.2009

That's a BINGO


O que me motiva escrever sobre Inglourious Basterds é nada mais nada menos que a exibição de The Dirty Dozen de Robert Aldrich na Cinemateca (no ciclo dos Divos às Matinés a propósito de Lee Marvin); com este filme de 67 inaugurou-se um subgénero dentro do cinema de guerra, ou seja, aquele em que um grupo muito particular é enviado numa missão também ela muito particular (coincidência das coincidências, neste filme temos um bando de malandros que é enviado para matar um montão de nazis de topo, rebentando-os), como é óbvio Tarantino vem beber (e muito) a esta obra, coisa que é mais do que prática comum nos seus filmes, claro que não se fica por aqui, The Searchers aparece com um plano de uma porta (o tal), Bronenosets Potyomkinb como já tinha falado, a cabeça gigante é referência ao Oz, Scarface também aparece mas provavelmente por acaso, Quel maledetto treno blindato é citado pelo título americano, e claro dezenas de referências na banda sonora entre elas Cat People com o tema de David Bowie, e outras tantas com os posters no cinema de Shosanna, para não falar das mais directas, os filmes de Pabst (nomeadamente Die weiße Hölle vom Piz Palü) e o cinema de propaganda nazi (nomeadamente Triumph des Willens).
O que é maravilhoso neste filme, e sinal maior da inteligência cinéfila de Tarantino, é que esta colecção de filmes funciona muito mais do que uma simples indulgência narcisista, mas como a derradeira homenagem ao cinema. Os títulos não se sucedem uns a seguir aos outros, os títulos tomam parte e lidam a acção; só mesmo Tarantino para usar como arma secreta da espionagem britânica um crítico de cinema, ou por outro lado ser num cinema que se assassina Hitler, ou melhor, ser através da queima das películas que se incineram (vingança judia, paga na mesma moeda) os Nazis nos maiores postos militares e políticos. O Cinema derruba o nazismo e vence a guerra! O Cinema traz a paz ao Mundo!
Só mesmo Tarantino!

P.S.: Pouco importa que haja uma brilhante fotografia e guarda roupa, que Tarantino tenha o maior controlo da câmara, que os diálogos sejam a perfeição em si e os actores estejam melhores que nunca e que tudo seja perfeito.
Tudo isso pouco importa, porque o que é preciso é ver o filme e sentir em cada centímetro do corpo que há coisas humanas maiores que o próprio homem.

11.20.2009

Semelhanças - XLIX

Scarface (1983) de De Palma
Inglorious Basterds (2009) de Quentin Tarantino

11.19.2009

Semelhanças - XLVIII

Cabeça gigante projectada no fumo
The Wizard of Oz (1939) de Victor Fleming

Cabeça gigante projectada no fumo
Inglorious Basterds (2009) de Quentin Tarantino

11.13.2009

Esperar

Eu espero e tu chegas.

Tu esperas e eu chego.

11.11.2009

Diálogos Amantes

Ele disse: Amo-te

Ela disse: Ama-me

11.06.2009

Imagem Escrita, Palavra Filamada - II

"Sei, todos nós sabemos, como pesa o tempo vencido sobre quem se aventura a recompô-lo. É um eco a sublinhar as palavras, uma ironia que nos contempla de longe, um aviso. Se alguém (em narrador em visita) rememorava a seu gosto (e já vê no papel, e em provas de página, e talvez um dia em juízos de Crítica) o final duma mulher que é de todos conhecido e que está certificado nos autos; se se apega a um punhado de notas tomadas em tempo por desfastio, e se mete agora a entrelaçá-las e a descobrir-lhes uma linha de profecia, então esse alguém necessita de pudor para encontrar o gosto exacto, a imagem exacta da mulher ausente. Necessita de discutir consigo mesmo, à medida que recorda, e assim fá-lo por respeito, pela condição de homem em face da distância e da ausência, É, considero aqui, um ofício delicado contar o tempo vencido. Pela mesma razão se, navegando na minha cama sobre um vazio de carunchos a sussurrar, eu assisto ao Engenheiro anfitrião descrevendo a mulher-pega, a mulher-codorniz ou outra qualquer e penso na senhora da lagoa- que não cabe em nenhuma dessas classificações, evidentemente- cumpre-me prestar bem o ouvido às palavras e repeti-las como uma testemunha que vai ditando ao escrivão, fiel à sua consciência e ao seu juramento. uma testemunha que procura o rigor para não macular covardemente o retrato que se reflecte nele, Tomás Manuel. E que tudo fique conforme, e que no interesse da verdade seja lido e assinado, Gafeira, tantos de tal, em viagem com o Engenheiro pelas águas da lagoa."

Primeiros dois parágrafos do vigésimo sexto capítulo (b) de "O Delfim" de José Cardoso Pires, adaptado ao cinema em 2002 por Fernando Lopes

P.S:Esta é a essência da escrita de Cardoso Pires, um comprometimento com a realidade, tão ciente de si que lhe permite incorrer na ficção.

11.03.2009

Semelhanças - XLVII

Brüno de Larry Charles (2009) - podem ver a cena no Trailer

Major Movie Star de Steve Miner (2008) - podem ver a cena no Trailer