11.27.2010

A Naturalidade do Falso - III

Copie Conforme (2010) de Abbas Kiarostami

11.26.2010

A Naturalidade do Falso - II

Copie Conforme (2010) de Abbas Kiarostami

11.25.2010

A Naturalidade do Falso - I


Copie Conforme (2010) de Abbas Kiarostami

11.23.2010

A falácia da autoridade, ou como encontrar nas palavras dos outros as nossas ideias

Numa entrevista ao Ípsilon, Thierry Garrel que este ano presidiu o Júri do DocLisboa, falou sobre a televisão pública e a relação que esta deve estabelecer com o documentário (especificamente) e com a programação alternativa (em geral). A seguir ficam algumas das suas ideias, que são sempre uma achega à causa da petição.

- No documentário, os verdadeiros filmes documentários são aventuras, são obras únicas, filhos únicos. É aliás isso que cria as dificuldades da televisão com o documentário: a televisão gosta da repetição, do controle, do quotidiano, da continuação. Gerir o específico é mais complicado do que gerir o repetitivo, o estereótipo. Mas é por ser singular que o documentário se destaca.

- (...) A situação da televisão portuguesa é consternante. Estive cá há dez anos e recordo-me que a RTP ainda tinha algumas pequenas veleidades... Que uma televisão nacional como a RTP não tenha blocos regulares de documentário e de documentário de autor, com uma verdadeira escrita e um verdadeiro ponto de vista, é um escândalo nacional. Pergunto-me como é que uma sociedade pode estar cega a esse ponto.
 
- Se aprendi alguma coisa na televisão, é que, quando se aposta no público, oferecendo-lhe obras novas, supostamente complexas, mas que falam essa tal língua universal, o público está lá sempre. Sempre. Não está lá instantaneamente; a televisão comercial quer sempre medir instantaneamente a presença dos espectadores em frente ao écrã, e isso não é possível. Mas precisamente através de uma programação podemos construir um público.

- Apesar dos novos meios de comunicação e tecnologias nascidas da revolução digital - um mundo que é uma selva e que ainda não tem economia - acho que a televisão programada ainda vai viver muitos anos. Há 30 anos anunciava-se o fim da televisão com a video-cassette, há 25 anos era o cabo que a ia matar, de cinco em cinco anos aparece uma novidade tecnológico-civilizacional que me parece francamente empolada... 

11.21.2010

Semelhanças - LXXVI

North By Northwest (1959) de Alfred Hitchcock

The Interpreter (2005) de Sydney Pollack

P.S.: Com tanta cimeira, NATO, UE-USA, e com a adesão de Portugal ao conselho de segurança das ONU, e porque A Interprete passou na TVI, lembrei-me que as nações unidas (a política internacional) podem sempre dar bons momentos de cinema.

11.20.2010

Notas molhadas na corda da roupa

Antes de lerem o que vos apresento, passem pelos seguintes textos: O único dia fácil foi ontem de Miguel Domingues, Lola, Brillante, Lola de Carlos Natálio, Um Big Bang chamado Brillante Mendoza de Vasco Câmara e o artigo de Andrew Schenker na revista Slant (este último por ser o mais próximo da minha abordagem).

O dinheiro faz girar o mundo. O dinheiro é o motor da vida dos pobres. Não há moral nas classes mais baixas. Não há vingança. Não há justiça. Porque isso são luxos dos ricos, que tendo dinheiro para comer e se divertir, têm tempo para pensar nessas coisas da bondades, e caridade. Quem nada tem, por nada vai lutar, nem sequer para que o assassino do seu neto seja julgado pelo crime praticado. Quem não tem dinheiro, não acredita na punição, apenas no inexistente jantar de amanhã. [esta é a primeira forma de repressão e não é preciso recuar muito na nossa história para lembrar que a pobreza é, por mais estranho que isso possa parecer, uma forma (e peço desculpa pela ironia) barata de controlar as populações]

É sobre o dinheiro que Lola de Brillante Mendoza gira. Um conto moderno sobre a perversidade da pobreza. Note-se: o filme começa com uma das avós a comprar a vela que colocará no local do assassinato do neto, essa mesma avó não tem dinheiro para o enterro, são os vizinhos que ajudam a pagar o funeral, é uma burocrata camarária que com um telefonema paga as dívidas da família, a outra avó rouba os clientes para poupar algum, viaja quilómetros para pedir dinheiro a familiares e depois de estes apenas de lhe oferecerem verduras e ovos, esta vendo tudo o que pode às pessoas que encontra na estação de comboios, esta mesma senhora penhora a televisão (a qual passa constantemente programas do género Deal or no Deal), pede dinheiro emprestado a agiotas de bairro para pagar a libertação do neto. Há mesmo uma cena que é magistral: uma das senhoras deixa cair umas notas ao chão, num dia de chuva, apanha-as. Cena seguinte. A velhinha em casa, pendura as notas molhadas na corda da roupa. Porque o dinheiro não é luxo, é comida e roupa, é sobrevivência. Por isto, por ser aquela gente tão pobre, o aparecimento de peixes no lago é um milagre, porque milagres são aqueles acontecimentos que salvam vidas, e lá, em Manila, ter que comer é uma batalha ganha na luta pela sobrevivência.

Lola é um filme brilhante por isto mesmo, por retratar uma população paupérrima, sem uma pinga de voyerismo, do o fazer sem cedências, e com um realismo ácido, mas, no entanto, temos um melodrama, cheio de segundas leituras, simbolismos fortíssimos, crítica ao sistema judicial, uma espiral de desencantamento.

P.S.: Lembrar que este filme foi editado em DVD com Kinatay (o filme anterior do realizador e inédito em Portugal) simultâneamente com a estreia em sala. Tudo graças à distribuidora Alambique. History of Mutual respect abria o filme, curta que ganhou o prémio Leopardo di domani em Locarno.
P.S.: Outra coisa curiosa é que, já este ano, apareceu um filme que tratava o simbolismo do dinheiro de forma curiosa, Madeo, assim como um que tratava uma sociedade tão depauperada que a tarefa de enterrar os seus mortos era quase inultrapassável, La teta asustada.

11.18.2010

Semelhanças - LXXV

Roman Holyday (1953) de William Wyler
[A belíssima (Audrey) e o paparazzo (Peck)]

A Bela e o Paparazzo (2010) de António Pedro Vasconcelos

11.16.2010

É só fazer as contas

Desta vez tenho pouco para dizer. No artigo do JN, Wemans vangloria-se de o canal que dirige passar 17/18 filmes (portugueses) por ano. Como aqui mostrei, a TV5 Monde passa 6 filmes (franceses) por semana em horário nobre. Em três semanas, aquele que é o equivalente francês à RTP Internacional, passa tantos filmes como um ano da criteriosa e completíssima programação da RTP2. Como dizia um ex-senhor-primeiro-ministro, é só fazer as contas.

P.S.:Tenho toda a noção de que não há produção nacional suficiente para uma programação como a francesa

11.14.2010

Hipótese Ad hoc (III)

Continuando a senda de passar pelos pontos altos do Doc Lisboa, quase um mês depois do seu encerramento, lanço-me hoje a um título maior da programação deste ano do festival: Boxing Gym de Frederick Wiseman.

No ano em que pela primeira vez estreia uma das obras de Wiseman em sala e dois anos depois do doc lhe ter dedicado uma retrospectiva integral, aparece-nos um filme singular do ancião realizador. Primeiro, por ser uma obra de apenas 90 minutos (coisa raríssima), segundo, por ser de uma actualidade avassaladora sobre o que é ser americano hoje. Se mais não houvesse, este seria um estudo de caso, a aproximação à lupa de uma comunidade restrita mas não fechada (como quase sempre são as que Wiseman filma), que reproduz de forma quase gráfica o melting pot (esta expressão irrita-me um pouco, mas não há melhor e tão sucinta) americano. Um ginásio onde convivem profissionais e amadores, mulheres e homens, bebés, crianças, jovens, adultos e velhos, 'americanos de gema' e emigrantes latinos, conservadores e liberais. Enfim: uma manta de retalhos (olha, afinal existe um expressão equivalente) que constroi um tecido orgânico e harmonioso. Raros são os filmes que nos apresentam uma versão tão idílica da América sem parecerem propagandisticos. Este é seco, sem rodriguinhos, (será que me arrisco a dizer isto) verdadeiro.

Os Wiseman que conheço costuram-se sempre da mesma forma. Exploram as rotinas, os actos repetidos, as mecânicas das organizações. Mas esta atenção não é inocente, há um propósito, uma ideia de narrativa convencional, uma construção em pirâmide em direcção ao aperfeiçoamento. Vemos os treinos, os sucessivos murros em sacos e em luvas, ouvimos as palavras de ordem do treinador e todos os dias as mesmas rotinas de treino, para depois, no fim, termos direito a um combate. O auge da criação, o fruto do trabalho e suor. O objectivo alcançado. A criação artística.

Mas como eu gosto mais do resto, das sociologias baratas, leiam o texto do José Oliveira no Touro Enraivecido, que pega no filme pelo Ford e pelo Hawks, certamente é uma abordagem mais interessante que a minha.

11.11.2010

Semelhanças - LXXIV

 Tian bian yi duo yun (2005) - O sabor da Melancia - de Tsai Ming-liang
[A melancia como reprodução erótica do sexo feminino]

Irène (2009) de Alain Cavalier
[A melancia como reprodução morfológica do sexo feminino]

11.07.2010

O Bom, o mau e a RTP2





A propósito da petição pela exibição regular de cinema na RTP2 (que podem assinar aqui e consultar o blog aqui), o organizador, Luís Mendonça do CINEdrio, pediu ao grupo redactor que fizesse um pequeno vídeo amador (eu fiz um em duas partes porque sou preguiçoso e não quis montar as duas partes num) em que dessem a entender o seu ponto de vista de forma mais dinâmica e pessoal (o vídeo do Luís e o vídeo do Miguel Domingues do In a lonely place). Podem conhecer a minha voz, as minhas mãos e o velho e seboso teclado onde vos escrevo estas palavras.

11.03.2010

Hipóteses Ah hoc (II)

 
O DocLisboa já acabou, mas o tempo não dilata e os textos vão saindo às pinguinhas.
Hitlers HitParade. Filme curioso. De 2008. Feito integralmente com material de arquivo. Propaganda Nazi. Publicidade. Filmes de entretenimento ligeiro da Alemanha Hitleriana. Imagens documentais dos campos e das atrocidades. Desenhos animados. Tudo embalado por alegres canções sobre o amor e a felicidade. Tropas encaixadas com tangos. Jovens de mini-saia dançando, encaixadas com os cadáveres. Hitler como figura pop. Hitler como figura popular. Propaganda. Crítica severa. Controvérsia.
[Na sessão a que fui, o realizador ficou para responder a questões e, como seria de esperar, várias pessoas ficaram escandalizadas com a forma como se tratava a memória dos mortos. O realizador explicou que havia três razões para montar as imagens dos mortos com música alegre: primeira, o facto de o contraste aumentar o choque, segunda, o facto de o holocausto ser sempre tratado como um período tenebroso com músicas igualmente tenebrosas, terceiro, os próprios militares que dirigiam os campos colocavam músicas alegres para os presos ouvirem enquanto trabalhavam até à morte por exaustão]

O caldo que fica é uma duríssima crítica à maldade pela passividade. Neste filme dá-se a entender que os alemães viviam num mundo imaginado, desligado da realidade, fundado em enganos e mais que isso na crença de que eram de facto superiores. A maldade pela negligência, pelo nada fazer. O filme é mesmo uma reflexão sobre a ética do acto de fazer cinema: cinema escapista num período de  horror é eticamente condenável, por promover a inacção, por promover a não-reacção. [daí que nestes anos em que se atravessa uma das mais destrutivas crises da história moderna da civilização ocidental, seja condenável a feitura de filmes ocos de conteúdo - não só nestes momentos, mas especialmente].

Outra coisa interessante neste filme é a construção de uma narrativa a partir do material de arquivo; isto é: fazer com que as diferentes fontes falem entre si, criando uma estrutura clássica de progressão narrativa. Há dois exemplos curiosos. Um cena em que marido e mulher conversam pelo telefone é montada com outra de alguém que escuta a uma porta, sendo o conjunto montado com imagens da sede da Gestapo e de uma rusga, criando o texto de que o homem confidenciava à mulher algo que é denunciado pelo vizinho e que resulta na apreensão do primeiro. Outro exemplo é a compilação de cenas em que Hitler puxa a franja para o lado, fazendo dele uma caricatura, explorando-lhe os maneirismos.

O filme nunca passou na televisão publica alemã (só no arte), podem ficar com dois pequenos excertos.(1 e 2)