2.28.2011

Uma senhora desconhecida veio bater à minha porta, eu abri

Faz já uns meses, uma senhora desconhecida, como são quase todos os que se conhecem pela Internet abordou-me, aqui no blog, convidando-me a participar numa mesa redonda com outros bloggers. O tema era esse que se adivinha, os blogs de cinema; e os convidados eram ilustres bloggers e depois um miúdo - eu. A par desta mesa haveria um pequeno ciclo de filmes propostos pelos senhores cinéfilos, eu propus um série de títulos e deixei nas mãos de Anabela Moutinho (a dita senhora desconhecida que sei, agora, ser a directora do cineclube de Faro) a escolha final - o filme que ficou - foi Wendy & Lucy (para os que seguem este espaço lembrar-se-ão que este foi o filme que ocupou a posição cimeira dos melhores filmes de 2010). Para os Algarvios ou para aqueles de estejam de férias no Algarve, ou para aqueles que quiserem aparecer (vindos de muito, muito longe), sábado, no Teatro Lethes, estarei à vossa disposição; até lá, os filmes passam no mesmo local como se indica a seguir.


1 a 5 de Março de 2010 no Teatro Lethes (iniciativa TMF - Carta Branca a Anabela Moutinho)

Dia 1 21h30 Wendy & Lucy Kelly Reichardt, EUA, 2008, 80' escolha de Ricardo Vieira Lisboa

 Dia 2 21h30 Luz Silenciosa Carlos Reygadas, México, 2007, 136' escolha de Carlos Natálio
 Dia 3 21h30 Tetro Francis Ford Coppola, EUA, 2009, 127' escolha de Chico
 Dia 4 21h30 Vem e Vê Elem Klimov, URSS, 1985, 145' escolha de Victor Afonso
 Dia 5 14h30 História(s) do Cinema Jean-Luc Godard, França, 1998, 268' escolha de Cristina Marti
 Dia 5 21h30 Mesa-Redonda com os 5 bloggers


Há um blog sobre o evento, que podem visitar por aqui

2.26.2011

Semelhanças - LXXXII

The Party (1968) de Blake Edwards com Peter Sellers
[A destruição do quadro pela limpeza imponderada] 

Bean (1997) de Mel Smith com Rowan Atkinson
[A destruição do quadro pela limpeza imponderada] 

2.21.2011

Posters do ano - II

O Estranho caso de Angélica (2010) de Manoel de Oliveira

2.19.2011

A petição foi ao parlamento...

...acabada a sessão o que ficou foi:

A lei da televisão foi mudada e um dos pontos que mais beneficia a nossa causa é a quota para as produções europeias (como nos foi explicado: a entrada na comunidade não nos permite legislar de forma ao proteccionismo, assim, só as produções da comunidade podem ser privilegiadas), ou seja, não só as quotas se alargaram como o sistema de contagem se alterou. Produções criativas já não são entrevistas, nem debates, nem magazines, esta categoria foi restringida a obras de cariz verdadeiramente criativo, como o filme, tele-novela, tele-filme, série, documentário. Em adição, a possibilidade de repetições infinitas das mesma peças deixa de abonar no preenchimento das ditas quotas. [a TVI e a SIC não serão prejudicas, por ser a sua programação massiva em novelas televisivas, mas a RTP2 ver-se-à obrigada a alterar a sua estratégia de talk-show e magazines culturais/religiosos/desportivos/ecológicos/gastronómicos; mas convenhamos: uma melhor programação nunca se fez por quotas e não será certamente assim que se alcançará a excelência]

Foi-nos garantido que na revisão do contracto de concessão, que se prevê que entre em vigor no primeiro dia de 2012, será tida em conta a nossa causa. Em especial a forma dos relatórios que a RTP fornece à ERC (lembro que a petição enviou uma carta, em Outubro, a esta entidade pedindo os relatórios das auditorias que o contracto de concessão prevê e continuamos sem resposta) são elaborados, que ao que parece são tão insuficientes na informação que transportam que os reguladores só se limitam a confirmar que os dados fornecidos (das quotas) correspondem de facto ao que a lei prevê. Ou seja, a importância da entidade regulador aumentará; mas convenhamos: não será que esta atitude da ERC é mais feitio (?) e que, independentemente da completude dos relatórios, a regulação continuará a ser ausente? Se houvesse de facto interesse em garantir uma boa qualidade do serviço público de televisão, bastava que os senhores reguladores vissem televisão e confirmassem a qualidade (ou falta dela) do serviço prestado (neste caso) pela RTP2.

Para que a causa deste petição chegue a plenário serão precisas 4000 assinaturas (estamos já nas 2739).

Apesar de o contracto prever (na clausula 53) que o parlamento convoque a direcção dos canais públicos para prestar esclarecimentos sobre o cumprimento do dito contracto (algo que acontece, flagrantemente, no caso da RTP2), a deputada Inês de Medeiros considerou que tal acto seria uma intromissão na liberdade programatiza do director. Numa altura em que a utilização dos mecanismos legais é vista com matizes de politiquice tacanha e de preservação partidária, nada posso acrescentar.

Mais nada. Portanto, pouco, muito pouco. Mesmo assim, melhor que nada. A coisa ainda não parou, e não será uma palmada, paternalista, nas costas que nos fará tropeçar.

Assinem a petição aqui, sigam a petição no blog e no facebook.

2.18.2011

Cor-de-malva e cheiro a tomilho

Pensar em Another year como um grito é coisa de estranhar. No máximo seria um sussurro mesmo na porta do ouvido. Mas, apesar de abafado pela elegância, este último filme de Mike Leigh clama na forma possível [clama o quê?, já lá vamos]. Happy-go-lucky era por si, e pelo título, um filme que ia puxar o bem-estar a uma cinematografia sisuda e depressiva. Muitos críticos, espantados com aquela alegria de viver (de um cineasta tão cabisbaixo) acharam o filme irritante, a cada riso da Sally Hawkins eles rosnavam na cadeira, a cada episódio (mais ou menos) hilariante, uma gota de suor descia-lhes pelas costas.
A meu ver, Leigh está numa fase da vida (e portanto do seu cinema) em que as coisas não precisam de ser escuras para serem respeitáveis. Leigh acha, neste filme, um equilíbrio entre estas duas posições da vida que invariavelmente se resumem ao claro/escuro. Não sendo um filme bonacheirão é um filme que gosta de dar umas risadinhas, e beber um copo de vinho, não sendo um filme negríssimo tem os seus momentos de incómodo e desespero. [o que se clama é isto mesmo, que a felicidade é, e sempre foi, possível e mais que isso, que o naturalismo britânico - realismo é uma palavra desequilibra - é algo que não precisa de ser eminentemente social ou político ou deprimente para ser digno de nota]
É no entanto interessante pensar este filme fora do rasto do realizador. O filme começa com uma consulta médica, depois temos a nossa Gerri que é uma psicóloga hospitalar; mas o filme, nem por um bocadinho se atreve a cair na esparrela da psicanálise ou dos psicologismos baratos. Cada pessoa é una neste filmes, não devíamos sequer pensar em personagens nem em actores, existem ali pessoas sólidas (nem todas) que vivendo em comunidade se amparam umas às outras. Temos as suas ambições, as suas desolações; entramos naqueles jantares e é-nos oferecido um lugar à mesa (Leigh que é mais um realizador de argumento tem aqui um trabalho fortíssimo no controlo da câmara, fugindo sempre aos exibicionismos), cheiramos as flores daquele jardim, sentimos a leveza do corpo depois de alguns copos e calamo-nos por respeito naquele funeral, e estamos desconfortáveis naquelas querelas entre pai e filho ou na forma como Mary não toma conta de si nem do seu estado.
Enfim, another year é um filme verdade sem nunca ser realista; e isso é algo que a maioria dos realizadores do mumblecore e de um certo (novo) neo-realismo europeu estão a esquecer: a verdade são as pessoas e o realismo é apenas uma estética.
[falar de verdade com estas certezas é um exagero, mas por vezes termos alguma coisa para dizer parece um exagero]

2.15.2011

Curtas mas Boas - Animação

Todos os anos tenho feito isto, uma apresentação das curtas nomeadas para os oscars, este ano, ficou-me pelas animadas, uma vez que são as únicas disponíveis na penumbra que envolve os recantos escuros da internet.
Dos cinco títulos, há um que é certo ter sido visto por os que aqui me lêem, ele é Night and Day [completo] a habitual curta da Pixar que acompanha as longas em sala (nos anos anteriores tivemos Presto e Partly Cloudy), este ano, no enanto, temos um filme que é o mais puro dos cinemas (foi a meu ver o melhor momento da exibição de Toy Story 3).
Madagascar, a jouney dairy [completo] é por outro lado um belíssimo exercício de cinema, temos um livro de viagens, um caderno de aguarelas e desenhos a carvão animados e musicados de tal forma que a viagem que experimentamos é absolutamente deliciosa.
Let's Polute [completo em francês] é um título curioso, por ser aquele, dos 5, que tem animação menos cuidada (a fazer lembrar os anúncios animados dos anos 60) que se constrói como uma propaganda a favor da poluição, avisando-nos que é nosso dever poluir para bem da comunidade.
As curtas animadas da BBC são também presença comum nestas listas (nomeadamente com os filmes da aardman), The Gruffalo [completo] é o caso; adaptação de um livro infantil conta com um elenco de luxo nas vozes, entre eles Helena Bonham Carter, Tom Wilkinson e John Hurt.
Por fim o mais fraco dos cinco, The Lost Thing [completo], que conta a história de um moço que encontra na praia uma estranha criatura e da sua aventura para encontrar um lugar bom para a deixar.

P.S.: As imagens correspondem aos filmes pela ordem em que são apresentados. Os vencedores de anos anteriores foram A casa do pequenos cubos uma curta lindíssima sobre um homem que regressa às profundezas da sua casa subaquática e vai recordando as etapas da sua vida e o ano passado venceu Logorama uma outra curta que contava uma história de acção com perseguições e tiroteios mas toda animada com logótipos de marcas internacionais. Madagascar, a jouney dairy e Night and Day são os meus favoritos

2.12.2011

Posters do Ano - I

Loong Boonmee raleuk chat - Uncle Boonmee who can recall his past lives (2010) de Apichatpong Weerasethakul

2.10.2011

A carnalidade do toque

Hereafter não é excelente, nem muito bom é com certeza, mas deixa no espectador mais que a maioria dos 'muito bons filmes' que por ai se anunciam. Eu sou o primeiro a admitir que, se o filme falha, isso acontece por causa de Eastwood, e se acerta, é em grande parte pelo guião de Peter Morgan.
Eastwood é um realizador singular, construtor de magistrais obra sobre o envelhecimento (usando o seu próprio envelhecimento como motor criativo); é também o realizador que se deixar levar pelos projectos e faz os filmes um-a-um, recusando uma posição demasiado autoral, apesar de não recusar a continuidade da sua obra. Se nuns filmes, essa individualidade dava origem a coisas verdadeiramente únicas e vibrantes (White Hunter, Black Heart) noutros, o resultado era frouxo (Midnight in the garden of good and evil). No entanto, muito do que se tem dito sobre Hereafter é profundamente injusto, o que peca no filme não é, de todo, a forma como Eastwood encara o oculto nem sequer a forma como esse oculto nos é apresentado (o filme não prega nem tenta vender qualquer ideia ou misticismo, não se agarra a nenhuma ideia religiosa consistente, simplesmente apresenta o imaterial como material); o que falha é mesmo a forma como o realizador gere as três história em simultâneo. Ele não consegue fugir a uma noção de geografia fílmica tipo 007, isto é: se estamos em Londres temos que ver o Big Ben, se vamos para Paris apanhamos com a Torre se vamos à Tailândia, lá vem a praia com flores e a leve brisa oceânica. Por outro lado, aqui acontece o mesmo que em The Changeling (um filme a querer ser vários): se esse era filme de tribunal, de investigação policial, de terror e de hospital psiquiátrico; Hereafter quer ser filme catástrofe (com efeitos na proporção), realismo inglês, paranormal e drama romântico. Isto é de louvar, mas acaba por condicionar o filme a um estilhaçar narrativo, que só raras vezes lhe permite elevar o espectador ao limiar do arrebatamento. [outro aspecto a rejeitar é o product placement: computadores de Apple, telemóveis Blackberry, carros BMW e a lista continuaria; um realizador como Eastwood já deveria ter a força para evitar este género de constrição criativa, ou pelo menos fazê-lo de forma discreta]

O filme cresce, por se dedicar a uma consciência do moderno como entre-cruzamento emocional e humano. Se repararmos, é a Internet que denuncia o nosso vidente, é também o telefone que dá a conhecer o seu segredo e é o telemóvel que leva aos acontecimentos trágicos como um dos miúdos. Por outro lado são as cartas que avisam da libertação e da paixão do protagonista, é, acima de tudo, a palavra (leia-se, escrita em papel) que cria a relação com a jornalista francesa, e é a palavra (leia-se, falada) que aproxima os dois alunos na aula de cozinha. [a propósito, é de salientar a pureza dessa cena memorável, que é a degustação na aula de cozinha italiana; a forma como os personagens recusam as imagens, com as vendas, e passam a confiar apenas na fala e na presença um do outro para se seduzirem].
Por outro lado reparemos na importância do toque, a forma como este é evitado ao longo filme; porque é o toque - a consciência do outro pelo corpo - a coisa que hoje em dia menos se preserva, pela forma como as relações se estabelecem através de máquinas. E é isso que verdadeiramente importa no filme, a forma como nos ligamos aos outros (pela fisicalidade das relações pessoais).

P.S.: Este é a 500º publicação deste espaço, obrigado àqueles que me têm lido e apoiado com os seus comentários.

2.08.2011

Lembro-me desse mês de Janeiro em Tóquio, ou antes, lembro-me das imagens que filmei no mês de Janeiro em Tóquio

"(...) Importa atender em termos: O que Chris Marker acba implicitamente por fazer a demonstração é que a objectividade é ainda mais falsa que dois pontos de vista partidários. (...) Geralmente é a imagem o elemento propriamente cinematográfico que constitui a matéria-prima de um filme. A orientação é dada pela escolha e a montagem, o texto acabando de organizar o sentido assim dado ao documento. Chris Marker procede de maneira diferente. Diria que a matéria prima é a inteligência, a sua expressão imediata a palavra, e que a imagem não reenvia à que precede ou à que se lhe segue, mas lateralmente de alguma maneira ao que é dito. (...) O elemento primordial é a beleza sonora e é dela que o espírito deve saltar para a imagem. A montagem faz-se da orelha ao olho". Uma concepção de "montagem vertical", portanto.
(...)
Memorizar o passado para não reviver foi a ilusão do século XX. Marker trabalha o tempo, as suas estratégias, canais e redes que não são a sua parte de desagregação. Há nele uma verdadeira arte da aproximação, entre factos, memórias e tempos, que é uma arte de inteligência e da imaginação.
(...)
'Lembro-me desse mês de Janeiro em Tóquio, ou antes, lembro-me das imagens que filmei no mês de Janeiro em Tóquio. Agora elas substituíram-se à minha memória, são elas a minha memória' (Sans Soleil).
(...)
Apesar de uma nostalgia comum pelo cinema, Godard e Marker apresentam posições radicalmente diferentes - Godard concede à imagem um privilégio ontológico ao contrapor a reprodução da realidade a sua 'ressurreição' em filme - vide as Histoire(s) du Cinéma. Marker, por seu lado, concebe no cinema uma mais ampla cultura de imagens, cuja tragédia reside na morte que encarna, no esforço de memória de que é portadora.
(...)
'Contudo o meu principal desejo é que haja aqui códigos familiares suficientes (a fotografia da viagem, o álbum de família, o animal-fétiche) para que, insensivelmente, as minhas imagens sejam substituídas pelas do leitor-visitante, as minhas recordações pelas suas e para que a minha Immemory lhes sirva de trampolim para assim realizarem a sua própria peregrinação para o Tempo Reencontrado' (Marker). (...)"

Augusto M. Seabra comissário de Chris Marker, Memórias dos Tempos

2.06.2011

O Código Hays da actualidade é o comércio

Dr. Jekyll and Mr. Hyde (1932) de Rouben Mamoulian e Dr. Jekyll and Mr. Hyde (1941) de Victor Fleming


Em 1972 o humorista George Carlin tornou publico as Seven Words You Can Never Say on Television, elas eram: shit, piss, fuck, cunt, cocksucker, motherfucker e tits; para além da polémica, o que se pretendia era dar a conhecer uma certa hipocrisia que reinava, uma vez que através do bom interesse da comunidade e do serviço público, castrava-se as possibilidades artísticas de muito cineastas. Mas em 72 o código Hays ou Motion Picture Production Code já havia ido ao ar (1968) depois de mais de 30 anos de funcionamento. O código proibia qualquer forma de cinema que apresentasse cenas de nudez, podia haver crimes, assassínios, tiroteios, mas um coxinha era impensável. O código vinha prevenir um certo cinema dos anos trinta, filmes de conteúdo sexual fortíssimo; a título de exemplo, repare-se as diferenças entre o Dr. Jekyll and Mr. Hyde de 1932 por Mamoulian e a versão de 1941 de Victor Fleming, uma feita antes da implementação do código e outra depois.
Hoje em dia, as Américas têm a MPAA uma espécie de agência de rating do cinema, em que filmes recebem classificações que podem tanto atrair como repudiar os investidores. Este último ano vários casos de autoritarismos foram notícia, por exemplo, Blue Valentine (com Michelle Williams nomeada para o Oscar de melhor actriz) que por ter uma cena de sexo demasiado gráfica para os censores foi classificado de tal forma que os multiplexs americanos não exibem o filme, restringindo as hipóteses do filme ser visto por um público vasto (o realizador e produtor contestaram esta decisão e acabaram por ganhar o recurso), outro caso foi o filme The Kids are All Right (nomeado para melhor filme nos Oscars) que teve que reduzir de forma significativa as cenas de sexo entre Mark Ruffalo e Julianne Moore (que tinham um intuito puramente cómico).
O que me leva escrever esta longa introdução é a recente notícia que indica que o produtor do filme The King's Speech, Harvey Weinstein, se prepara para censurar com um apito as 42 vezes que se diz fuck no filme de Tom Hooper, para evitar que o filme que agora recebeu 12 nomeações para os Oscars perca público com uma classificação restritiva. De forma idêntica, um dos trailer do último filme David Fincher que usa a música Creep dos Radiohead, vinha em duas versões, uma para a Europa onde a estrofe You're so fuckin' special aparecia integral e outra, para o público americano.[notícia aqui]
O que me incomoda é o facto de, pelas perversão do sistema de classificação americano, os realizadores e produtores se auto-censurem sem necessidade de indicações externas e simplesmente por motivos comerciais castrem os próprios filmes. Aqueles que são os pais e mães das suas obras são aqueles que não hesitam em amputar-lhes a essência. Alguma vez nos passaria pela cabeça que Scorsese ou Tarantino seguissem este caminho comercialista?   

2.04.2011

Cine-ermita: um animal educado


O ermitismo (suponho que seja o acto de ser ermita) é coisa cobiçada e de grande apreciação, basta lembrar o Black Narcissus para perceber que o velho ermita tem oferendas todos os dias, comida regular e apreço da população local. Tem só uma desvantagem: deixar-se ficar, imóvel, durante horas e dias em meditação contínua e sonolenta.
O bom cinéfilo, aquele que com elegância constrói as pontadas mais letais para aplicar na próxima crítica, será um indivíduo que se deixará levar por essa saída fácil que é a vida solitária, desgarrada dos outros e de si mesmo, alimentando-se de refeições leves e película (ao contrário dos comunistas, as dietas à base de natimorti são com certeza indigesta), sendo que esta última terá que ser cozinhada pelo tempo em especiarias exóticas, de preferência soviéticas ou latino-americanas. Claro que o cine-ermita é ser de mau trato e ocasionais boutades afiadas, que lança um esgar ao mendigo e vendedor de produtos financeiros e/ou de telemóveis e afins apetrechos; mas é também um animal educado, fumador, bebedor, leitor ávido de textos de leste com obscuras traduções em francês feitas a partir da versão hebraica, consome café com cheirinho e queques de cenoura e cobertura de queijo mascarpone. Tanto aprecia a mulher como o homem (sexualmente, entenda-se; i.e. depende da profundidade dos óculos) e com os seus maneirismos, voz colocada e frases espirituosas conquista a sua presa de forma custosa. As relações são curtas porque os tratos são secos e embrutecidos pelos filmes de verão ou ocasionais comédias românticas e/ou filmes de horror a que o cine-ermita se vê obrigado a frequentar pelos deveres da relação e necessidade de contacto.
Uma vida só, idas sós ao cinema, ansiando que a sala esteja vazia; coisa que o conforta: saber que mais ninguém na sua cidade (sim, o bicho é de cidade) teve a ideia de ir ver tão rara película em tão infecta sala de exibição. Talvez um encontro, mais ou menos satisfatório, na casa-de-banho do cinema? (Good Bye, Dragon Inn)

P.S.: é tarde quando escrevo isto (já madrugada), era suposto fazer um comentário ao facto de ter ido ver os dois documentários portugueses em corrente exibição nas salas e das duas vezes ter sido o único espectador, só que as palavras foram saindo, resultado de vários meses de aprisionamento por testes e exames impraticáveis. o texto não ofende ninguém por ninguém ter sido usado como inspiração. raramente escrevo  amargamente, este momento é simplesmente um interstício de texto, uma pausa na partitura, enfim, uma bebida para tirar o sabor do caril.