3.31.2011

Cinema na RTP2

O que aqui se assina estará presente na mesa e convida desde já todos a comparecerem.

3.27.2011

Será sempre o irmão mais velho

An American in Paris (1951) de Vincente Minnelli

P.S.: No dia em que se comemora o teatro, não posso deixar de confidenciar, que, para mim, o melhor cinema é aquele que vê nas estratégias do palco a sua forma natural; e por isso é que Minnelli é tão grande.

3.24.2011

Tomar-mo-nos conta do peso das coisas


Quando começo a escrever dou-me conta que as ideias e as frases surgem como a outros. Sinto que os dedos correm no teclado como já correram a tantos, e que na verdade aquilo que escrevo já foi escrito, pensado e mais elaborado. Só muito raramente estou em crer que aquilo que penso e escrevo é verdadeiramente novo e de valor. Escrever sobre Winter's Bone é pois um tormento, primeiro por o filme, sendo bom, não ser uma maravilha, segundo porque aquilo que tenho para dizer não é verdadeiramente importante e a minha acutilância nunca foi aquele que se pede.

Portanto, começo por iniciar este texto com uma introdução vitimizadora e viro-me para a análise com uma pergunta: Como filmar a adolescência sem cair nas vulgaridades do coming of age, isto é, tratar os adolescentes como adultos em potência e que todo o processo de crescimento é simplesmente um meio. A esta pergunta, muitas respostas poderiam surgir, todas eles recusariam a estética da adolescência MTV, mas muitas cairiam num certo paternalismo (como tantas vezes acontece, mesmo que com as melhores das intenções). Debra Granik (não será certamente por acaso que é uma mulher que filma desta forma, mas essa história do género por de trás das câmara leva sempre a discussões vacuosas) encara o problema com total desapego. Aquilo ali, aquela moça, não é uma adolescente, apesar dos 17 anos. Não tem telemóvel e amigas para ir ao cinema, apesar dos 17 anos. Tem uma mãe incapaz e dois irmãos mais novos para educar (e note-se que nunca é a estética do miserabilismo que governa, longe estão Iñarritu e Lee Daniels (Precious)), mas apesar de tudo, tem 17 anos. É simultaneamente a idade que ossifica a personagem e lhe dá volume, mas mais que isso é a forma como 17 anos afectam o retrato, não afectando a narrativa.

Claro que se pode pegar pelo novo cinema rural, onde Kelly Reichardt (Old Joy, Wendy & Lucy e agora Meek's Cutoff ), Lance Hammer (Ballast) e Jeff Nichols (Shotgun Stories) vêm deixando marca, mas na verdade não é isso que interessa. Winter's Bone é muito mais sobre como encarar os jovens sem simplismos, exageros ou paternalismos. É muito mais sobre como encarar a realidade a partir de um sítio (naive) e tomar-mo-nos conta do peso das coisas.
[e só mais um apontamento; aquela cena final em que já estamos a antever os créditos e vemos o nosso homem a pegar numa viola, com ar dengoso, mas a coisa sai para o torto, ele não sabe tocar; e por isso é uma criança que dedilha as cordas e nos embala de novo para o lado de cá - na imagem. Isto para dizer que o filme funciona nestes equívocos: o que se espera vs. aquilo que acaba por acontecer]

3.22.2011

Tinha um cravo no meu balcão;
Veio um rapaz e pediu-mo
- Mãe, dou-lho ou não?
Sentada, bordava um lenço de mão;
Veio um rapaz e pediu-mo
- Mãe, dou-lho ou não?
Dei um cravo e dei um lenço,
Só não dei o coração;
Mas se o rapaz mo pedir
- Mãe, dou-lho ou não?

Eugénio de Andrade

3.19.2011

Sumo de limão ou como encarar as distribuidoras

Da esquerda para a direita: Chantrapas de Iosseliani, Film Socialisme de JLG e Potiche do Ozon

Desde o início do ano estrearam 9 filmes franceses (num total de 54), se a coisa fosse assim (tão linear) ninguém poderia apontar o dedo, mas a coisa não é só assim.

Não será completamente errado dizer que um filme europeu (e os franceses não são excepção) têm um público tendencialmente mais reduzido que um filme em língua inglesa (note-se que não é a qualidade que aqui oponho, mas sim o público potencial ). Desta forma qual será a lógica macabra que rege as nossas distribuidoras? Se o público é pouco, porque será que Chantrapas, Hors la loi e Jouese tenham estreado os três na segunda semana de Janeiro e nas últimas duas semanas tenham estreado Film Socialism, Deux de la vague, Copacabana, Micmacs, Potiche e Adèle Blanc-Sec. Em vez de tratarem os filmes como obras singulares, tratam a cultura francófona como fardo (barril, palete ...), em vez de programarem, publicitarem e exibirem os filmes por si, apresentam uma enchente de títulos, em vagas (mais ou menos) sufocantes impedindo que os espectadores vejam todos os títulos (sendo que a estreia em cascata não promove o passa-palavra impedindo que certos títulos ganhem público com o tempo).

Mais escandaloso é que neste mês estejam previstas 39 estreias, o mesmo número de títulos que estreou em Janeiro e Fevereiro (segundo o cinema.sapo.pt). Desta forma, filmes como Adèle Blanc-Sec, Splice e The Tempest estrearam, para na segunda semana de exibição estarem apenas com horário nocturno e desaparecem antes da terceira.

O precipício que as distribuidoras parecem adorar é simultaneamente dramático e risível: por um lado estreiam filmes como se descarregassem pacotes de leite, fazendo com que os espectadores não vejam os filmes exibidos (ou nem sequer tenham sabido da sua exibição) e por outro lado acham que isto é a estratégia que lhe dará mais lucro. São incapazes de compreender que este esquema é prejudicial para si e para a (criação/manutenção) do público. Os profissionais dizem-nos que é a ressaca pós-oscars, mas para isso existe o Guronsan e sumo de limão.

3.07.2011

uma imagem sozinha é como um cantil no deserto

uma imagem é uma atitude, é um acto criativo de responsabilização ética.
nenhum fazedor de imagens pode sair impune se filmar os asco, pelo asco; o nojo, pelo nojo; o feio, pelo feio.
nenhum cineasta deveria atrever-se a filmar o privado como estética.
nenhum plano deveria estar empapado em sangue, lama, merda ou esperma.
as imagens não são manipuláveis por natureza, assim como os homens não são maus por natureza, mas da mesma forma que há quem nos torne maus, há quem nos manipule as imagens.
o plano é maleável e sacro-santo;
o enquadramento é alterável, mas a sequência é um fim e não um meio;
o conteúdo é o bónus da forma e é a forma que dá origem ao informe, ao imaterial, ao novo e inclassificável limbo que fica depois das imagens.
mas a imagem é multiplicativa - uma puxa outra.
todas as imagens têm significado e todas elas comunicam (independentemente).
uma imagem sozinha é como um cantil no deserto, é pouco e só interessa se estiver cheio.
como filmar a morte com tento e com respeito, mas sem veneração conventual ou vulgaridade televisiva. como filmar o amor, não a paixão ou o desejo, mas sim o amor - genuíno. 

3.02.2011

Geração

Quando se fala de geração há que ter tento na língua. Bater o pé antes de falar. Coçar a testa antes de pensar. Geração não é uma sitaução temporal ou geográfica (nem mesmo nacional), geração envolve uma noção de grupo, com ideais comuns, com motivações concorrentes. O jornalismo que se vem fazendo vê a sociedade que retrata como caricatura de si própria; é incapaz de pensar um acontecimento na sua singularidade de envento particular (mal que afecta toda a ciência social). Deste modo fala-se de geração como se daí se criasse de facto uma unidade entre os indivíduos. Mas isso não acontece.

Os Deolinda escreveram uma música. Ui. A música tem tanto sucesso como qualquer batucada (mais ou menos) electrónica da Lady Gaga, mas em vez de a indiferença ao facto ser a opção tomada (o que é costumeiro), decidiu-se (sujeito desconhecido) empolar um vídeo viral - e se fossem gatinhos fofinhos? - numa manifestação consertada de uma faixa populacional com a coerência de uma gerção. Tudo mentira. O facebook não liga. O facebook não torna uno. O facebook nada mais fará que aquilo que os que por lá navegam fazem.

Não existe gerção facebook, não existe geração à rasca (geração gatinhos fofinhos?), não existe geração. Não existem problemas comuns, é tudo tinta. Litros, conspurcando as páginas dos diários. Existem problemas, sim. Mas cada problema é só, particular. Nunca conheci ninguém da geração Povo-que-lavas-no-rio ou geração Grândola-vila-morena. Acontecimentos como a guerra do ultramar unem de facto as pessoas; pensar que a partilha de vídeos nas redes sociais é algo dessa magnitude é estar a dourar a pílula, ou melhor, dourar as aberturas dos tele-jornais. Não me pronuncio sobre a música em causa, não me pronuncio sobre o facto de haver de facto uma larga faixa populacional em situação de emprego precário, pronuncio-me sobre um tique jornalístico que em nada engrandece a profissão, nem a sociedade que retracta.