11.22.2011
11.21.2011
11.18.2011
mas - enfim - talvez
para que o seguinte texto não pareça demasiado indulgente e desiludido, deixo aqui os links de tudo o que acabei por escrever a propósito desta causa.
A RTP2 morreu ou pelo menos é o que parece
A falácia da autoridade, ou como encontrar nas palavras dos outros as nossas ideias
O Bom, o mau e a RTP2 (vídeo)
Pensemos com a cabeça
A RTP2 não será nem Lixo nem Luxo (I, II, III, IV, V)
Como falar com a elegante senhora (1,2,3,4,5,6,7)
*****************
é assim que eu me sinto em relação à ida da petição à comissão parlamentar para a ética e comunicação. a sensação de que tudo isto era inevitável, mas mesmo assim, faria tudo de forma semelhante. o meu empenho, a minha dedicação seriam iguais, mas...
há sempre um mas...
mas se tivéssemos feito as coisas de forma diferente? mas se a erc tivesse funcionado? mas se os deputados não fossem instrumentalizados ? mas se a assembleia da república fosse um órgão legislativo verdadeiramente dialogante com a sociedade civil? mas se os jornais se interessassem mais por coisas da cultura do que por coisas do futebol? mas se as pessoas do cinema não vivessem em constantes guerrilhas? mas se aqueles que habitam a casa da rtp2 ouvissem os seus espectadores? mas se o processo de privatização de um canal publico não absorvesse todas as discussões sobre televisão? mas se as pessoas percebessem a verdadeira diferença entre serviço público e televisão publica? mas se nem tudo tivesse que ser transformado numa arma de arremesso partidário? enfim...
no fundo estou desiludido.
eu imaginava que no fim de todo este processo se construísse algo melhor, que houvesse o regresso de uma exibição regular de cinema na rtp2. que os filmes passassem a ser contextualizados. imaginava que os ciclos passariam a ser coisas regulares, que se construiria um hábito de ver televisão. que a televisão seria um aglutinador social, uma verdadeira forma transversal de transmitir cultura por um país. sonhei que o teatro, a dança, a música, o cinema, a ópera, as artes plásticas, a videoarte, a poesia e a literatura, tudo isso passasse na televisão. que todas as pessoas, aqui em portugal, ou em qualquer sítio do mundo, o pudessem ver. acreditei que se daria todas as ferramentas para compreender o mundo de ecrãs em que vivemos. enfim...
nada disto acontecerá.
porquê? sinceramente isso é o que menos interessa. se as coisas tivessem realmente mudado não interessaria porquê (porque era óbvio que tinham que mudar), se não mudaram, só interessa perceber porque não. parece que nada se fez, porque, no fundo, quem tem poder para mudar as coisas não tem interesse em fazer pela mudança, apesar de a compreender e a apoiar. hipócrita? talvez.
A RTP2 morreu ou pelo menos é o que parece
A falácia da autoridade, ou como encontrar nas palavras dos outros as nossas ideias
O Bom, o mau e a RTP2 (vídeo)
Pensemos com a cabeça
A RTP2 não será nem Lixo nem Luxo (I, II, III, IV, V)
Como falar com a elegante senhora (1,2,3,4,5,6,7)
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há uma sensação estranha. um sentimento raro. qualquer coisa que talvez se assemelhe àquilo que um pai sente quando vê o filho sair de casa. mas este pai, percebe que não se trata apenas de uma despedida, um passo em frente. percebe que o filho caminha para a sua desgraça, mas já não pode fazer nada por ele. cresceu, e por muito mal que lhe possa acontecer já é crescido. já se há-de safar. tudo há-de correr pelo melhor. claro que não. vai correr tudo mal, mas podemos sempre desculpabilizar-mo-nos. podemos achar que era inevitável. e talvez até fosse. mas...
é assim que eu me sinto em relação à ida da petição à comissão parlamentar para a ética e comunicação. a sensação de que tudo isto era inevitável, mas mesmo assim, faria tudo de forma semelhante. o meu empenho, a minha dedicação seriam iguais, mas...
há sempre um mas...
mas se tivéssemos feito as coisas de forma diferente? mas se a erc tivesse funcionado? mas se os deputados não fossem instrumentalizados ? mas se a assembleia da república fosse um órgão legislativo verdadeiramente dialogante com a sociedade civil? mas se os jornais se interessassem mais por coisas da cultura do que por coisas do futebol? mas se as pessoas do cinema não vivessem em constantes guerrilhas? mas se aqueles que habitam a casa da rtp2 ouvissem os seus espectadores? mas se o processo de privatização de um canal publico não absorvesse todas as discussões sobre televisão? mas se as pessoas percebessem a verdadeira diferença entre serviço público e televisão publica? mas se nem tudo tivesse que ser transformado numa arma de arremesso partidário? enfim...
no fundo estou desiludido.
eu imaginava que no fim de todo este processo se construísse algo melhor, que houvesse o regresso de uma exibição regular de cinema na rtp2. que os filmes passassem a ser contextualizados. imaginava que os ciclos passariam a ser coisas regulares, que se construiria um hábito de ver televisão. que a televisão seria um aglutinador social, uma verdadeira forma transversal de transmitir cultura por um país. sonhei que o teatro, a dança, a música, o cinema, a ópera, as artes plásticas, a videoarte, a poesia e a literatura, tudo isso passasse na televisão. que todas as pessoas, aqui em portugal, ou em qualquer sítio do mundo, o pudessem ver. acreditei que se daria todas as ferramentas para compreender o mundo de ecrãs em que vivemos. enfim...
nada disto acontecerá.
porquê? sinceramente isso é o que menos interessa. se as coisas tivessem realmente mudado não interessaria porquê (porque era óbvio que tinham que mudar), se não mudaram, só interessa perceber porque não. parece que nada se fez, porque, no fundo, quem tem poder para mudar as coisas não tem interesse em fazer pela mudança, apesar de a compreender e a apoiar. hipócrita? talvez.
11.11.2011
Afecto infecto portanto
"Tão desafectada que acaba por se confundir com uma indiferença". Como se isso fosse novo. Soderbergh é o cineasta do desapego. Tudo nele é sobre o afastamento dos sentimentos. Daí o fetichismo de Sex, Lies and Videotapes, as drogas em Traffic, a coolness dos Oceans, a cinefilia em The Good German e agora a doença; são tudo artifícios narrativos para nos afastar dos personagens. Aliás, nunca, em nenhum outro filme dele, esse afastamento foi tão marcado. A secura é, talvez agora, mais acentuada, mas sempre foi presença assídua e estruturante.
Escrevi que talvez Soderbegh fosse um realizador com medo dos seus personagens. Aqui, com a epidemia, esse medo torna-se mais evidente, e com razão de ser. Cada personagem é um veiculo para a morte de outros tantos, por isso é melhor não nos aproximar-mos.Ou seja, se existe alguma forma verdadeira de filmar a morte é fugindo dela. A certa altura Godard diz em Histoire(s) du Cinema algo do género: nunca filmar o sofrimento de perto. Soderbergh foge da dor, dos personagens, dos seus sentimentos. Filma tudo pela rama por ser demasiado educado para infligir dor no espectador. Soderbergh é um cineasta que tem uma moral. Daí que não haja sustos neste filme catástrofe e a secura seja constante.
Pois veja-se a papel de Gwyneth Paltrow que morre ao fim de dez minutos de filme. Faz lembrar alguma coisa? Janet Leigh em Psico? Hitchcock, esse homem do cirurgicamente construido, primo afastado de Soderbergh. Mas se o senhor Alfred matava Leigh pelo parzer de matar um estrela no início do filme, o senhor Steven mata-a por piedade, porque já lhe conhece o destino e por isso não adianta prolongar-lhe o sofrimento. De forma idêntica mata a modelo russa, o empregado chinês ou o filho do casal, logo no início.
No enanto aquilo que deixa uma marca mais profunda é a descontrução dos afectos; que se concretiza nesta cena brilhante: Kate Winslet sintetiza uma possível vacina, injecta-se, dirige-se para o hospital, puxa uma cortina e encontra um homem idoso e doente. Seu pai. Mas porque vai ela visitar o pai? avisar da descoberta? despedir-se? não. Ela vai ter com o pai para o beijar. Porquê? porque precisa de se certificar que a a vacina funciona e estando o pai infectado, esse será um forma de comprovar a sua imunidade. Portanto o afecto, ou pretenso afecto que se estabelece, é coisa médica, científica, cartesiana. Afecto infecto portanto. [nota-se ainda esta desconstrução na relação da filha de Damon e o namorado, a forma como o beijo é impedido a tiro de caçadeira ou a entrada em casa só é validade com a pulseira da imunidade]
E porque são trágicas as histórias de uma epidemia, Soderbergh não se apega a ninguém em particular. Salta de uns para os outros, não existe protagonista. Porque isso seria contruir uma ligação entre o sofrimento e o espectador. Além disso, sempre que entramos numa cidade dão-nos o número de habitantes. Números, números. Sim, porque os números são a derradeira forma de desapego, das pessoas, mas mais que isso do palpável.
11.07.2011
Esse é o lema
Ao sair da sala do King, papo cheio com o Pater de Cavalier (e a desfrutar desse prazer estavam apenas mais três pessoas na sala), sinto-me ainda banzado com essa sequência final. Ambos os candidatos perdedores jantam como que dando-se tréguas, perdoando-se através de um copo de vinho. E o senhor Cavalier-ex-presidente diz ao senhor Lindon-ex-primeiro-ministro que tem algo para lhe dar. Busca os bolsos e não encontra. Encontra. Não encontra a caixa onde devia envolver o presente. Mesmo assim estende o braço sobre a mesa para o dar. Nisto Lindon pega numa câmara que estava no chão e diz: estamos com tempo, vamos filmar em campo-contra-campo. E recebe o presente através da câmara que segura em frente se si (câmara subjectiva ou objectiva?). Cavalier acha graça. Saca de outra câmara que tem e filma Lindon a receber da sua mão o mesmo presente que anda para cá e para lá (quem dá e volta a tirar ao inferno vai parar...). Há um corte, revemos a cena, agora da prespectiva de Cavalier. Fim.
O que me encanta é esta disponibilidade de Cavalier para pôr as suas câmaras nas mãos de um amigo. Essa treta do realizador prefeccionista e obsessivamente controlador é coisa para Kubrick e para os que se acham Kubrick (David Fincher?). Aqui há um desprendimento arrasador: toma a minha câmara e faz de mim o que quiseres. Esse é o lema.
De forma semelhante (e note-se, se tivesse conseguido encontrar as imagens que descrevo neste texto, esta publicação seria mais uma edição do Semelhanças) Agnés Varda no primeiro episódio (exibido em estreia mundial no Doc) de uma série de seis para o canal Arte, Agnés de ci de la Varda, visita Portugal e como é óbvio visita esse homem que é Portugal com perna (e que ricas pernas): Manoel de Oliveira. Encontra-o em Serralves e este fala-lhe de si e do seu cinema. De repente despe o casaco (e ao que parece era Inverno) e começa a combater, usando a sua bengala, uma figura invisível que se passeava por esses belos jardins. Ela pergunta-lhe o que está ele combatendo. Ele respondo que está combatendo o destino. Depois do recorrente número de Charlot, Oliveira termina a sua demonstração de habilidade. Quando se estão indo embora, Oliveira interessa-se pela pequena câmara que Varda usa. Dessas Handycam's que qualquer retrosaria electrónica tem. Varda entrega a sua câmara nas mãos do mestre e deixa-o filma-la. Fazendo o quê? de Charlot claro está. Mas quando Varda chega a casa e vê as filmagens percebe que o mestre deixou tudo fora de foco. Só as pingas de chuva na lente são distinguíveis. Talvez fosse o destino com mau perder. Toma a minha câmara e faz de mim o que quiseres. Esse é o lema.
O que me encanta é esta disponibilidade de Cavalier para pôr as suas câmaras nas mãos de um amigo. Essa treta do realizador prefeccionista e obsessivamente controlador é coisa para Kubrick e para os que se acham Kubrick (David Fincher?). Aqui há um desprendimento arrasador: toma a minha câmara e faz de mim o que quiseres. Esse é o lema.
De forma semelhante (e note-se, se tivesse conseguido encontrar as imagens que descrevo neste texto, esta publicação seria mais uma edição do Semelhanças) Agnés Varda no primeiro episódio (exibido em estreia mundial no Doc) de uma série de seis para o canal Arte, Agnés de ci de la Varda, visita Portugal e como é óbvio visita esse homem que é Portugal com perna (e que ricas pernas): Manoel de Oliveira. Encontra-o em Serralves e este fala-lhe de si e do seu cinema. De repente despe o casaco (e ao que parece era Inverno) e começa a combater, usando a sua bengala, uma figura invisível que se passeava por esses belos jardins. Ela pergunta-lhe o que está ele combatendo. Ele respondo que está combatendo o destino. Depois do recorrente número de Charlot, Oliveira termina a sua demonstração de habilidade. Quando se estão indo embora, Oliveira interessa-se pela pequena câmara que Varda usa. Dessas Handycam's que qualquer retrosaria electrónica tem. Varda entrega a sua câmara nas mãos do mestre e deixa-o filma-la. Fazendo o quê? de Charlot claro está. Mas quando Varda chega a casa e vê as filmagens percebe que o mestre deixou tudo fora de foco. Só as pingas de chuva na lente são distinguíveis. Talvez fosse o destino com mau perder. Toma a minha câmara e faz de mim o que quiseres. Esse é o lema.
11.06.2011
Semelhanças - XCIII
Die Büchse der Pandora (1929) de Georg Wilhelm Pabst
Vénus Noire (2010) de Abdellatif Kechiche
Reproduzindo as palavras de Bénard da Costa (que acompanhavam a folha de Cinemateca) a propósito do filme de Pabst, este 'intercalou algumas coisas de gosto duvidoso, nomeadamente a sequência do tribunal (com a explicitação da boceta de Pandora) que nada tem a ver com a peça'. Pandora é um filme deliciosamente inocente, mas visto através da lentes distorcidas de Pabst; de facto essa cena do tribunal... a (sobre)explicar aquilo que para todos é evidente... De forma antagonista, o filme de Kechiche é amargamente decadente; no entanto cai no mesmo logro, aquela cena do tribunal vem explicar ao cândido e inocente espectador (mesmo que do século XIX) que afinal existe uma diferença entre a ficção e a realidade. Talvez seja esse o problema maior deste filme, estar perdido entre cá (agora) e lá (a época do filme), ou talvez seja o realizador que não se consegue desprender do presente e por isso filma o passado como se esse não o fosse.
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