2.26.2012

exponencial invertida

1978
1998
2005
2011
2012
2012
2013
2013

20 anos de Days of Heaven para The Thin Red Line, depois 7 para The New World, 6 para Tree of Life, 1 para Voyage of Time, meio para um projecto ainda sem título (a estrear este ano), e depois mais dois para o ano (Lawless e Knight of cups). [em 2014 faz três filmes e uma curta e em 2015 faz duas trilogias], [daqui]

2.21.2012

A Carapaça

Eastwood antes de ser realizador, foi actor em filme profundamente marcantes na cultura popular, como o homem sem nome nos filmes do Leone ou o detective Harry Callahan. Tornado realizador, Eastwood acompanhou estas personagens nos seus próprios filmes; fez o último tomo de Dirty Harry com (o muito hitchcockiano) Sudden Impact ou uma incursão no western spaghetti com o High Plains Drifter (e até certo ponto com o The Outlaw Josey Wales). O curioso é que Eastwood compreendeu de forma singular que esses personagens estavam-lhe colados de tal forma, que mais ninguém os poderia representar. No entanto o senhor Clint foi sofrendo essa coisa que é o passar do tempo, sendo por isso obrigado a envelhecer os seus personagens outrora jovens e vigorosos. Isto foi um processo gradual, mas teve como pontos mais marcantes: Dirty Harry tornou-se no mentor em Rookie e depois no reformado polícia com problemas coronários em Blood Woork e mais recentemente em veterano de guerra, idoso, e resmungão em Gran Torino; O pistoleiro teve uma vida mais curta, tornando-se atracção de circo em Bronco Billy e lenda envelhecida em Unforgiven.
Feita a introdução, podemos encarar J. Edgar como um filme da saga Harry, no sentido em que a personagem principal é uma autoridade da lei, contornando (sempre que necessário) a mesma, profundamente obstinada em fazer justiça, mas sempre dentro do seu código de honra. J. Edgar Hoover é portanto a versão enfarpelada do polícia de gatilho rápido e voz grave. Aliás, o que espanta é que toda a temática do envelhecimento, se prolongue, mesmo quando já não é o Eastwwod actor a assumir o protagonismo. Assim, é-me completamente estranha toda essa exaltação em torno de algo tão essencial como o trabalho de maquilhagem em J, Edgar.
O envelhecimento (nomeadamente das figuras de autoridade) é um ponto temático fundamental nos filmes de Eastwood (veja-se a tirada de Space Cowboys dita pelo próprio Eastwood: The clock's ticking, Bob. And I'm only getting older) e este não é excepção. Aliás, é neste em que a velhice assume as suas consequência mais profundas. Assim, percebe-se que toda a camada de silicone e maquilhante acumulada nas faces dos actores é propositadamente exagerada, existe um propósito, o de construir essa (nesta caso não metafórica) carapaça que é a velhice; que esconde um espírito muito mais jovem do que o corpo aparenta. [de forma semelhante, Bird é um caso de uma biografia que gira sobre essa coisa terrível que é a morte lenta do corpo jovem: no final, o corpo de Parker é levado e o médico descreve o cadáver como o de um indivíduo perto dos sessenta, uma amiga sua levanta-se e informa-nos: He was 34]
Neste sentido há um raccord maravilhoso, o casal Hoover e Tolson, envelhecidos e com as suas gabardinas e malas de cabedal pela mão entram num elevador, quando saem são de novo jovens. Cheios de energia, motivados a iluminar o caso Lindbergh. E assim, num simples corte, Eastwood explicita esta que é a mais pessoal das ideias dos seus filmes, a de que ele mesmo está envelhecido, mas não é velho nenhum.

Deveria referir a genialidade da mão de Eastwood que decide nunca atribuir corpo a Kennedy, a cena das escutas é ilustrada por grandes planos de pormenor em mão e pés, e a visita à sala oval não passa da porta, decorrendo a reunião numa (eastwoodiana?) elipse.

2.20.2012

Semelhanças - CVII

 It's a Wonderful Life (1946) de Frank Capra (cena de abertura)

 The future (2011) de Miranda July (no final do trailer)

Os astros falantes ou como dar corpo ao além

2.19.2012

Quem estava ao corrente não tinha palavras bastantes para explicar. Os salões do Casino tornavam-se Sodoma e Gomorra, acrescentadas do que mesmo em fantasia parecia excessivo. Havia em permanência um show de Paris com bailarinas nuas, trapezistas nuas, cantoras nuas, duas jibóias que ao som de uma música sensual se enrolavam numa rapariga nua. Nua!
(...)
 A nossa excitação tornou-se difícil de conter quando as bailarinas atacaram o cancan inicial. Não vinham nuas, infelizmente. Mas aqueles corpos, o vermelho dos lábios, os sorrisos, as pernas ágeis, longas e desengonçadas, que mau grado a distância pareciam voas sobre as nossas cabeças, eram compensação mais que generosa.
Num relâmpago de entusiasmo decidi nunca mais ir ao cinema. Comparadas àqueles monumentos de carne viva, que me piscavam o olho e se contorciam em promessas, as actrizes do ecrã pareciam singularmente insípidas. Nenhuma delas jamais sopraria beijos na minha direcção como a bailarina da segunda fila, a loira vestida de lantejoulas verdes.

Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia - O Joalheiro, J. Rentes de Carvalho, Quetzal, 2011

2.18.2012

Um filme que abra novas perspectivas para o cinema

Son bruit n'est pas celui du monde mais un enchantement tenu par une voix off qui, sans verser dans une poésie béate, pratique avec la bonne distance la mélancolie sans illusion, mais sans acrimonie aussi.

La structure du film (présent glauque, passé mythifié), la forme singulière (du cinéma muet avec bruitage et récitant) exacerbent le romantisme inattendu, font d’une œuvre très théorique une réflexion poignante sur le temps qui passe, les destins qu’on n’a pas eus, le plaisir pervers de la nostalgie – on doit appeler ça saudade, par là-bas.  

Ultimately, it's one of those rare films that makes you pause in the middle and remember exactly why you love cinema. 


“Tabu,” which manages to be dryly absurd and deeply romantic, begins with a surreal vignette about a widowed hunter who throws himself to the crocodiles, and perhaps comes back as one. 

Playfully switching from the gloom of the present day to the warmth and perceived simplicity of life in the past, Tabu is an enthralling, lighthearted stab at a society unable to escape from imprisoning itself in a cloud of nostalgia.

Gian Luca, whose poetic voiceover dominates the movie, bemoans "the despairing impasse of my situation," a verbose complaint that Gomes complements in visual terms.

That it’s the most audacious and intricate film to be seen so far in Berlin’s competition is without question, and to some extent it’s fulfilled the same role here as did Malick’s The Tree of Life in Cannes last year.

Gomes hace exactamente eso: cine que se sabe cine; cine que, sin renunciar a la emoción, no puede por menos que narrarse a sí mismo.

2.15.2012

Semelhanças - CVI

The Fall (2006) de Tarsem Singh

Pina (2011) de Wim Wenders

O onírico ou a paisagem como manifestação interior

2.10.2012

R de ... Ray

74 foram os votos que se acumularam ao longo dos vários meses que o inquérito esteve activo aqui na barra lateral, e Ray, com 12 votos, vence o que se pode chamar de competição. Carregando na imagem vêm ainda que Rivette o seguiu e atrás deste Rohmer (a minha escolha) e logo depois Renoir. Em quinto lugar está um empate curioso: João Pedro Rodrigues e Rossellini. Pena que o outro Ray da corrida, o Satyajit, não tenha obtido voto nenhum; esse que é também um enorme cineasta.

Está agora a decorrer a nova sondagem, M de... um pouco mais povoada que a anterior (e só depois de já a ter activa me recordei que faltava Mamet e Guy Maddin) e estão todos convidados a votar.

2.08.2012



Darkling I listen; and, for many a time
  I have been half in love with easeful Death,
Call’d him soft names in many a mused rhyme,
  To take into the air my quiet breath;
Now more than ever seems it rich to die,
  To cease upon the midnight with no pain

John Keats (1795–1821). The Poetical Works of John Keats. 1884. 40. Ode to a Nightingale

2.06.2012

não que concorde totalmente com a posição meio derrotista, meio extremista do senhor Fonseca e Costa, mas creio que é uma boa forma de levantar a questão e lembrar que a nova proposta de lei está em discussão pública, pode ler o texto da lei e enviar as proposta por aqui.

2.04.2012

Os melhores de 2011

1 - Jodaeiye Nader az Simin
 
3 - Loong Boonmee raleuk chat ex aequo com Le Quattro Volte
 4 - Hadewijch 


Os outros...
 6 - A Espada e a Rosa
 8 - Meek's Cutoff ex aequo com Contagion e com Restless
  9 - Cisne ex aequo com In film nist e com Le Gamin au vélo
 
  10 - Somewhere ex aequo com Du levande e com Another Year e com Essential Killing


e ainda...
True Grit, Schastye moe, Kyatapirâ, 48, La Vénus Noire, Dangerous Method e Carnage

Note-se que não vi o filme do Iosseliani, nem o red united army do Wakamatsu, o do Ferrara, nem o do Amalric, Fukunaga (que tinha feito o sin nombre o ano passado), Jones (que fez o Moon), Padilha, Banksy, Schnabel, Refn (valhalla), gianni, o beginners, o rubber, o do Larraín, do Esmir Filho, o submarine, o incendies, mas o pior mesmo foi não ter visto o do Zhang Ke Jia.

2.01.2012

 
«Bem, num certo sentido, não posso saber o que não sei. É filosoficamente evidente.» Fez uma daquelas pausas leves, em que voltámos a não saber se troçava subtilmente ou se falava muito a sério, para lá da nossa compreensão. «Na verdade, toda a história de imputar responsabilidades não é uma espécie de cobardia? Queremos culpar um indivíduo, para que todos os outros sejam ilibados. Ou culpamos um processo histórico, como forma de desobrigar os indivíduos. Ou é tudo um caso anárquico, com as mesmas consequências. Parece-me que há - houve - uma cadeia de responsabilidades individuais, todas necessárias, mas não uma cadeia tão longa que todos possam simplesmente culpar todos os outros. Mas é claro que o meu desejo de imputar responsabilidade podia ser mais um reflexo do meu próprio estado de espírito do que uma análise justa do que acontecera. Esse é um dos problemas centrais da história, não é Sir? A questão da interpretação subjectiva ou objectiva, o facto de precisarmos de conhecer a história do historiador para podermos compreender a versão que nos é posta à frente.
Houve um silêncio. E não, ele não estava a gozar, nada que se parecesse.

O SENTIDO DO FIM, Julian Barnes Tradução de Helena Cardoso