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5.10.2012

Variaveis independentes (VI)

O que me havia sido vendido não era este filme. Tudo indicava que íamos ter uma descida aos infernos. Uma coisa de um pavor incompreensível, despero, sofrimento, mortos, feridos, sangue, tripas, olhares reprovadores para a câmara e tudo o que os romenos nos têm dado. Afinal este é uma comédia. Comédia insuportável; é do constrangimento que é imposto ao espectador que nasce o riso, única saída possível daquele ambiente mal-são.

Mas talvez o que seja mais curioso abordar no filme é uma certa prespectiva religiosa que se vai apresentado no filme muito subtilmente e que impregna os personagens de uma realidade beata que nos é tão familiar.

A certa altura a avozinha grita, já em desespero ao aperceber-se do deteriorar da situação, é o Apocalipse. Claro que não! Mas logo depois, quando já bem amarrados, a ex-mulher e o novo companheiro, o nosso 'herói' explica-se: não fui eu que causei isto (o apocalipse) foram vocês que causaram isto a vós mesmos, foste tu (à mulher) que me trais-te, aliás, não me trais-te só a mim, trais-te jesus cristo. Aqui está! frase magistral (quase tumular). De certa forma é esta a natureza escondida do filme; tudo se organiza no sentido da culpa (coisa mais cristã não há) e da forma como todos nós somos os supremos pecadores.

Neste sentido temos uma sequência muito emblemática deste princípio (a qual é como que introdução temática ao que que vai acontecer): pai e filha, ternorentamente olham da sua varanda um funeral. A menina, inocentemente pergunta, achas que aquele senhor vai para o céu ou para o inferno (a resposta do pai é a costumeira), mas depois as coisas divagam e começamos a adivinhar o destino dos elementos do agregado, mas a resposta é politicamente correcta, a mãe e a avó (e até o novo senhor) vão para o céu, ele inclusive terá direito de passagem não tanto pelo bem que fez, mas pelo que já teve que penar (ai que cristão).

Tudo gira sobre isso, sobre o sofrimento como coisa renovadora, sobre a culpa como motivadora de sofrimento.

Depois de cair de uma boa altura, de estar estourado e ensanguentado (ou seja, depois de muito sofrer) o homem pede auxílio numa farmácia, o polícia que o ajuda diz-lhe, depois de devidamente desinfectado e ligado, levanta-te e caminha. (é preciso dizer mais alguma coisa)

5.09.2012

Variaveis indendentes (V)

Só deus sabe. Uma barraca nas traseiras do jardim. Um homem lá dentro. Uma música tocando. Voyage Voyage. O que se passa lá dentro? Só deus sabe. E nós não precisamos de saber.

É assim que começa Stilleben, um dos filmes na competição internacional do indie'12, filme que por infortúnio foi sempre comparado a Michael (sobre o qual escrevi recentemente) por tratarem de temas próximos. E invariavelmente este tem sido posto em segundo plano, assombrado (literalmente à sombra) pela irrisão do primeiro. Mas naquilo em que Michael era consumado este é apenas recalcado. Aliás, este é um filme sobre essa coisa horrível (mas inegavelmente benéfica) que é a inacção.

Benéfica no sentido em que é a consciência do repúdio que o acto da molestação concretiza previne o molestado de o ser (que frase medonha). Horrível uma vez que todas as personagens desta família partilham esta forma de estar na vida: essa de nunca concretizar nada, todos os empreendimentos que iniciam são, sistematicamente, deixados pelo meio, com excepção de um, o primeiro. Um filho segue o pai que se dirige ao serviços de uma prostitua, depois deste se ausentar, ele consegue da prostituta um bilhete que revela o desejo do pai para com a sua filha (hoje já adulta). Depois desta acção, que se concretiza na descoberta, motora de todo o filme, mais nada se desenlaça.
A esse propósito vejamos: a filha quando toma conhecimento do sentimento que o pai lhe tem decide ir-se, faz a mala e dirige-se para a estação de comboios. Compra o bilhete e no interlúdio insulta o irmão que a tenta auxiliar. Este também se decide a partir. Ambos estão nessa senda (ela na estação à espera, ele na estrada conduzindo de volta à cidade) mas ambos decidem-se por não partir. A mãe tenta continuar a rotina, vai para a sua loja, pede o pequeno almoço de todos os dias, mas não o come. O pai foge de casa, caminhando (preparava-se para destruir as 'provas' mas deixa-as para serem descobertas) dirige-se a um bar e pede um shot, não o bebe, volta a casa e pega uma arma para se matar, fecha-se no carro, na noite, de luzes apagadas, mas não se mata. Finalmente dirige-se a um banco para o assaltar, mas nem aí age como um assaltante agiria, fica parado.

Tudo isto para tentar justificar esta ideia de que Stilleben se trata de um filme sobre o passivismo, sobre o medo de agir, tanto do pedófilo que sabe o mal que poderá fazer, quer sobre os seus que depois de descobrirem ficam com medo de descobrir mais, evitando fazer o que quer que seja. O medo como inibidor da vida. 

5.08.2012

Varieveis independentes (semelhanças)

julgo que não seja só o meu modo natural de encontrar ligações entre os filmes, e que estas duas curiosidades que vos apresento de seguida, sejam (talvez) mais do que obra do acaso:

1º caso: Michael -- Sill Life
para lá da proximidade dos temas que já motivou muitas referências entre dois filmes (ainda mais quando são apresentados no mesmo festival), acho particularmente curioso o facto de em ambos se organizar uma perspectiva dramática (pela perversão?) em torno de músicas populares: o primeiro atraca-se a Sunny, pela boca do próprio Michael e depois na versão de Boney M; o segundo prefere um cassete (arquivada com as fotografias) do Voyage Voyage da Desirless. ambos os temas acompanham os respectivos créditos finais, como ambos desempenham um papel fundamental na estruturação de um certa psique perturbada.

2º caso: Rua Aperana 52 -- O Som ao redor
depois da nacionalidade comum, o que por si só não levanta grande interesse, são filmes partido em três; em ambos temos direito a legendas divisórias. o mais interessante é a escolha dessas mesmas legendas: Bressane faz um ensaio sobre o seu próprio cinema e daí tudo gira em torno da imagem, os episódios são Fotograma, Fotodrama e Fototrama; quanto a Kleber Mendonça as partições são de natureza diferente, constituem uma progressão de securitarismo bairrista: Cães de Guarda, Guardas Nocturnos e Guarda-costas.  jogos de palavras (muito próprios do português).

5.07.2012

Variaveis independentes (tops)

O festival já acabou, mas a minha as minhas escritas ainda continuarão por mais uns tempos; mas, por inevitabilidade temporal, vejo-me obrigado a falar do top que o Luís Mendonça organizou com participação dele, do Miguel do In a Lonley Place, do Carlos do Ordet e do João Lameiro do Uma paragem do 28, e minha está claro.

O top 5 das opiniões combinadas é o seguinte:

1. "Everybody in Our Family" de Radu Jude
2. "4:44 Last Day on Earth" de Abel Ferrara
3. "Vivan Las Antipodas!" de Victor Kossakovsky
4. "Michael" de Markus Schleinzer
5. "De jueves a domingo" de Dominga Sotomayor Castillo ex aequo com "L'estate di Giacomo" de Alessandro Comodin
 
o meu,

1. "L'estate di Giacomo" de Alessandro Comodin
2. "4:44 Last Day on Earth" de Abel Ferrara
3. "Michael" de Markus Schleinzer
4. "Vivan Las Antipodas!" de Victor Kossakovsky
5. "Everybody in Our Family" de Radu Jude

os dos respectivos encontram-se nos sítios respectivos...

5.03.2012

Variáveis independentes (IV)


Um homem chega a casa. Tira as compras do carro. Entra e achamos estranho que a porta que dá acesso à moradia seja insonorizada. Deixa-lo. Prepara o jantar. Talvez seja comida demais para uma só pessoa. Põe a mesa. Afinal não está sozinho. São dois os pratos. Desce à cave. Abre uma porta. Do escuro sai uma criança lentamente. Timidamente. Jantam. Vêem televisão até às nove. A criança deita-se. Ele fica mais tempo, vendo o que vai dando numa televisão sempre fora de campo. Veste o pijama, lava os dentes. Serão um pai um filho. Não parecem, mas também não parecem outra coisa. Só a sinopse já havia informado que na verdade se trata de um enclaustramento de uma criança por um pedófilo. Ele cospe a pasta branca no lavatório, agarra um recipiente de de lubrificante. Desce à cave, entra e fecha à porta. 

Michael.

Quem é Michael? não sabemos. Será ele, o homem, ou ele a criança? Não lhes sabemos os nomes. Não os conhecemos de facto. Mais tarde percebemos, por um colega de trabalho, que é o homem. Continuamos a não conhece-los.

O que sabemos (quem me dá a autoridade de falar no plural? até pareço alguns críticos de jornal) é que este é sem dúvida um dos grandes filmes do ano. Tão frio que temos dificuldade em criar uma relação até com o miúdo, vitima de abusos. Nada de sentimentalismos, até parece que estamos a ver um plano fixo de duas horas de uma pedra mármore.

Mas essa questão inicial prevalece e é explorada por Markus Schleinzer, a perversão da imagem de família. Eles passeiam por um parque como pai e filho (aliás, passa por eles um homem com uma criança à beira; como eles, espero que não). Mas esta relação é estripada de qualquer emoção. É talvez isso que mais choca. Não só o homem não sente qualquer carinho pela criança que possui com rigor cronométrico (aponta com uma cruz na agenda os estupros) como esta não desenvolve nenhum estranho complexo de Estocolmo. Nada. Quando a criança adoece ele profere: merda. Não porque ela esteja mal, mas sim pelo trabalho que isso lhe vai provocar (chega mesmo a cavar uma sepultura no bosque para enterrar a criança em caso desta morrer). 
Este é outro aspecto que Schleinzer desenvolve: a rotina. Tudo parece do mesmo naquele homem. Sai. Trabalha. Volta. Janta. Viola. Dorme. Sai. Trabalha... Só interrompe essa rotina quando vai de férias para a neve e veja-se o desespero deste por não estar sobre controlo (cai dos esquis). Mais tarde, já em casa, surge-lhe uma colega em casa sem aviso; de novo o desespero, ele não tem a rédeas da situação. Talvez por isto (e não quero pensar em desculpabilizações, porque o filme nunca o faz - o padre diz que deus é misericordioso com os seus, mas isso é deus) ele abusa da criança, porque com elas ele está controlando, de novo recorda a estadia na neve, mas desta vez a cena de impotência com a empregada do bar. 

Inversamente, o realizador mantém sempre a mão em punho fechado, não há cedências. A câmara só mostra o que deve, quase sempre em plano estático, sempre uma iluminação minimal. Não há demostrações de destreza, não há enquadramentos invulgares, não há nada desses truques. O que interessa é o que se está contando, uma história que não admite elucubrações. Veleidades de esteta.

5.01.2012

Variáveis independentes (III)

Talvez seja bom começar por dizer que o novo filme de Catarina Ruivo é muito desequilibrado, mas não por isso pior, aliás, é uma obra de singular graça e desenvoltura. Para sustentar esta visão (que sei não ser partilhada) aponto dois aspectos que são, sem dúvida, sinais de um trabalho minucioso; de sucessivas escolhas acertadas.

A senhora Ruivo tem todo um trabalho sobre o desapego, coisa que alcança por opções de enquadramento e montagem.

exmplo1 - enquadramento. As personagens são sucessivamente filmadas ao longe. Lá ao fundo na praia. Lá ao fundo em Lisboa. Lá ao fundo através dos vidros de casa. Um plano longo das janelas de um prédio, onde as pessoas vivem as suas vidas. Várias cenas em que embora se converse, não ouvimos o que é dito pela distância que separa o acontecimento da lente.

exemplo 2 - montagem. O ritmo atípico com que passamos de uma cena de planos longuíssimos para sequência de montagem rápida e diálogo acelerado. Uma calma. Uma prostituta ausenta-se. Um homem descansa. Lento. De repente um estrondo. Corte para o hall da pensão, conversa-rápida-plano-contra-plano-de-180º. Mais à frente o mesmo, estamos no silêncio da casa e de repente uma mudança de ambiente; físico (passamos para a rua) e sonoro (de repente os carros, os pessoas, as ambulâncias).

Estes dois processos são esses do desapego; Ruivo não quer filmar de perto a tristeza (nem a alegria), quer dar espaço às suas personagens, respeita-as demais para se aproveitar dos seu sentimentos, filma-los em grande plano seria como na pornografia. Quanto à montagem a sensação que temos é a de um permanente reboot (peço desculpa, mas a versão portuguesa de reinício não tem a mesma graça), como que a dizer, vamos lá a ter calma que isto é só um filme. O evidenciar daquilo que normalmente é invisível (a montagem) mantêm-nos agarrados à lembrança: isto é só um filme.

Finalmente a senhora Ruivo procede de forma semelhante (essa de manter viva a consciência do objecto fílmico), reinterpretando o género thrillesco do duplo. O filme surge como coisa de género, vão-nos sendo deixadas pontas soltas que desembocarão numa revelação (mais ou menos) escabrosa. O que é relevante, é perceber que embora esse seja o argumento (talvez plot fosse a palavra mais indicada) o filme que nos é apresentado é outro. Dá-me a sensação (porque há certos buracos tão evidentes na história) que ela (a senhora Ruivo) decidiu que iria filmar um género recusando todas as convenções do mesmo (mantendo só a espinha dorsal do texto), em vês do thriller temos um drama familiar, talvez um psico-drama (que coisa horrível de se chamar a um filme). O que interessa é aquela família, a forma como se constrói e destrói um pinceladas largas. Como parece que antes de se tornar no outro, ele já o era aos poucos. Que o outro, antes de se tornar nele já havia mudado. Como se o plano fosse apenas consequência de algo externo, imperscrutável. Talvez o destino. Por isso não vale a pena correr. A ele não se foge.

4.29.2012

Variáveis independentes (II)

A sala escurece. As pessoas terminam as suas conversas e faz-se silêncio. Bang. O ecrã fica de repente num branco agressivamente brilhante. Vão aparecendo os créditos de abertura. O branco vai perdendo a energia. Vai passando ao cinzento, no final, quando aparece o nome do Ferrara já é tudo negro, só as letras sobrevivem a branco. Percebemos logo ali o sentido (ferrariano?) de decadência, de descida ao negro que o filme vai tomar. Mas nada disso nos prepara para o que está prestes a começar.

Agora, depois de ver o filme a pergunta impõe-se-me: como encenar o fim do mundo de outra forma que não a partir de um apartamento em Nova York? Não contam as pessegadas explosivas de Emmerich e assemelhados, nem o nojo arrítmico do último Von Trier. Ainda para mais quando o fim do mundo é simplesmente um pretexto de Ferrara para chegar a algo tão concreto no nosso mundo de bits e bites que é a fisicalidade do outro. 


O filme começa: temos duas televisão a noticiar o fim do mundo, um tablet a dar concelhos budistas, um telemóvel a dar resposta à conversa de Dafoe lhe lança, um computador servir de comunicador com os que vivem longe, e um casal que partilha um T0 com vista para a cidade. Tudo funciona em simultâneo, os sons (ruídos?) dos electrodomésticos tipo gadjet são qualquer coisa de infernal (quase pior que o que se sabe estar a caminho). Uns por cima dos outros, sempre a tagarelarem. Al Gore, Dalai Lama, Mandela, jornalista anónimo, vendedor da banha da cobra religiosa, enfim, tudo pau pau pau. Um chinfrim. No meio disto os casal abraça-se e beija-se. Que belo beijo. Ferrara faz fade sobre a própria cena do beijo três vezes, conferindo àqueles que ali estão uma natureza incorpórea, eles existem num limbo (vide cena final: "somos anjos"). E começa ali uma sequência demorada de marmelanço. aliás, lindo umbigo. Quando o mundo está prestes a terminar esta gente, para além de estar serena, anda a pinar como se não houvesse amanhã (pois, se calhar é por isso mesmo). 

Mas isto não é acessório, percebemos que este gosto pelo corpo do outro, pelo sentir a pele do outro contra a nossa é aquilo que Ferrara quer focar. Daí toda a parafernália tecnológica que só serve para nos manter afastados uns dos outros. A esse propósito Ferrara tem um brilhante movimento de câmara: Dafoe conversa com a sua filha através do portátil, vemo-los frente a frente, quase parece que estão os dois ali, só que a câmara escorrega, lentamente para trás e toma-mo-nos conta da finura do ecrã, Ferrara a dizer, não há nenhum corpo por de trás do ecrã, a presença dos outros é só ilusória.


A certa altura uma senhora velhinha (a mãe da moça) vem dizer (através do skype) que hoje em dia já nem a deixam fumar [no final um homem diz-nos: vou fumar um cigarro e depois posso morrer], é só censuras, mas pior que isso é a trampa dos computadores (tradução livre). Ferrara é essa velhinha, renega a descorporalização (que palavra tonta) das relações provocada pelo digital, oferecendo-nos uma belíssima fotografia digital e efeitos (rudimentares) do mesmo género. Ferrara vive nesse dilema, por um lado as vantagens óbvias da tecnologia (vide a cena do moço de recados vietnamita), por outro a sensação que nos estamos afastando um dos outros.

No fim, o que os dois protagonistas querem fazer é simplesmente estar abraçados, porque quando a televisão já não recebe sinal e a eletricidade não existe, o que nos resta é sentir-mo-nos amados. [e voltamos ao branco]

4.27.2012

Variáveis independentes (I)

O mocinho entra sorridente na sala envidraçada e antes que diga qualquer coisa Werzog diz-lhe, não fales, que temos que colocar o microfone. corte. o moço limpa o vidro para que os reflexos não afrontem a lente da câmara. Werzog fala-lhe: eu não tenho que gostar de ti, para te respeitar e acreditar que um estado não devia matar. Ele acena-lhe em sinal de entendimento. Assim, sem mais nem menos, Werzog pôs os pratos a limpo, vamos então ao filme.

Werzog apesar da frieza de rocha não é indiferente ao espectador, sabe que nós, deste lado estamos à beira da explosão, sabe que toda aquela situação de morte em latência é irrespirável, portanto ele motiva um certo humor, estranhíssimo escape. Quando um dos criminosos presos lhe explica o sucedido durante uma perseguição, ele pergunta-lhe sobre o facto de as balas alojadas no corpo não interferirem com os detectores de metais, assim, sem mais nem menos, uma gargalhada. Isto repete-se várias vezes, porque será sempre por ali (pelo humor) que nós nos vamos mantendo capazes, inteiros.

Mas aquilo que mais me alegra são as tangentes que Werzog constrói, quando, a meio de uma entrevista ele encontra um filão e explora-o: neste filme há um rapaz que tivera problemas com um dos condenados, depois de nos dizer aquilo que é suposto, eles eram isto e fizeram aquilo, começa a falar de si, de como não sabia ler mas foi a prisão que lho ensinou (quase a tentar emprestar uma luz ao enclausuramento de 40 anos) e que agora é casado e ama a sua recém nascida filha; noutros filmes estes desvios ocorrem de forma igualmente surpreendente, no anterior Cave of forgotten Dreams ele encontrava um arqueólogo que lhe contava a sua anterior vida de malabarista de circo, ou por exemplo Encouters at the end of the World que é (como se percebe pelo nome) um filme todo dedicado a descobrir quem são as pessoas que vivem na Antártida.
Este desejo por descobrir um certo encanto em todos os seus entrevistados é o que me seduz nos documentários de Werzog, quer seja o condenado à morte que lhe conta a história da suas férias de verão aos 13 anos, ou um reverendo que lhe explica o maravilhamento de encontrar um casal de esquilos passeando pela relva verde do campo de golf.

2.18.2012

Um filme que abra novas perspectivas para o cinema

Son bruit n'est pas celui du monde mais un enchantement tenu par une voix off qui, sans verser dans une poésie béate, pratique avec la bonne distance la mélancolie sans illusion, mais sans acrimonie aussi.

La structure du film (présent glauque, passé mythifié), la forme singulière (du cinéma muet avec bruitage et récitant) exacerbent le romantisme inattendu, font d’une œuvre très théorique une réflexion poignante sur le temps qui passe, les destins qu’on n’a pas eus, le plaisir pervers de la nostalgie – on doit appeler ça saudade, par là-bas.  

Ultimately, it's one of those rare films that makes you pause in the middle and remember exactly why you love cinema. 


“Tabu,” which manages to be dryly absurd and deeply romantic, begins with a surreal vignette about a widowed hunter who throws himself to the crocodiles, and perhaps comes back as one. 

Playfully switching from the gloom of the present day to the warmth and perceived simplicity of life in the past, Tabu is an enthralling, lighthearted stab at a society unable to escape from imprisoning itself in a cloud of nostalgia.

Gian Luca, whose poetic voiceover dominates the movie, bemoans "the despairing impasse of my situation," a verbose complaint that Gomes complements in visual terms.

That it’s the most audacious and intricate film to be seen so far in Berlin’s competition is without question, and to some extent it’s fulfilled the same role here as did Malick’s The Tree of Life in Cannes last year.

Gomes hace exactamente eso: cine que se sabe cine; cine que, sin renunciar a la emoción, no puede por menos que narrarse a sí mismo.

6.15.2011

Doc_Europa III - 27 países | 27 filmes


O Doc_Europa é um evento que enquadra a produção documental europeia em apenas 3 dias, decorrerá em Lisboa e no Porto entre 17 e 19, respetivamente na Casa das Histórias Paula Rego (em Cascais) e no Cinema Passos Manuel. A entrada é livre para todas as sessões, cinco delas terão a presença dos realizadores (e correspondente debate no final):

Susana de Sousa Dias48 - sexta-feira 17, às 19h30 (no Porto)
Sarah Moon HoweIn Case of Loss of Pressuresábado 18, às 22h (em Cascais)
Fateme GoshehOne Thousand and One Nights - domingo 19, às 15h (em Cascais)
Vasia MarkidesHidden in The Sand - domingo 19, às 19h (em Cascais)
Panagiotis KaragiorgasDecember Seeds domingo 19, às 22h (no Porto)

programa completo aqui

4.01.2011

Panorama - 5ª Mostra do Documentário Português


Fantasia Lusitana (2010) de João Canijo 
[um dos muitos filmes (revolucionário) que o Panorama acolhe a partir de dia 1]


Tenho que começar por pedir desculpa à Mafalda Melo. Esta menina (ou senhora, não a conheço) visitou este sítio e perguntou-me se estaria disponível para apoiar a divulgação do Panorama - 5ª Mostra do Documentário Português. Eu aceitei. O cinema documental sempre tem sido uma das bandeiras que envergo com orgulho e no que diz respeito ao nacional sou um assíduo espectador em sala. Daí que o Panorama seja um evento que tanto aprecio. A Mafalda enviou-me a informação para eu divulgar há (que) tempos, mas as coisas têm andado apertadas por estes lados e só agora me digno a dar a conhecer essa informação.


Ponto primeiro (e mais uma vez peço desculpa): houve um debate com uma série de bloggers [Tiago Mota Saraiva (blog 5dias), Daniel Oliveira (blog Arrastão), João Villalobos (blog Albergue Espanhol) e Rodrigo Moita de Deus (blog 31 da Armada)] moderado pelo Pedro Mexia no dia 25, só que isso agora já não adianta muito.

Ponto segundo: hoje começam as actividades que se inauguram com Cenas da luta de Classes em Portugal de Philip Spinelli e Robert Kramer; seguido de um concerto/festa de abertura.


Ponto terceiro: amanhã (sábado) começa uma maratona de filmes das 5 da tarde às 5 da manhã com tais filmes como Deus, Pátria, Autoridade de Rui Simões, Encoberto de Fernando Lopes, Que farei com esta espada? de César Monteiro, Fantasia Lusitana de João Canijo, Terra de Pão, Terra de Luta de José Nascimento e mais uns quantos.


Ponto quarto: ao longo da semana podem ver dezenas de filmes, entre curtas e longas, sendo que alguns dos títulos apresentados já estrearam no indie ou no Doc do ano passado, sendo por isso uma boa forma de ver os filmes que deixamos escapar, entre eles, Pelas Sombras de Catarina Mourão, Traces of a Diary de Marco Martins e André Príncipe, Parto de António Borges Correia, Quem mora na minha cabeça de Miguel Seabra Lopes e Liké Terra de Nuno Baptista, João Miller Guerra e Filipa Reis.


Ponto último: Várias curtas serão exibidas em estreia e outros títulos maiores do nosso cinema documental serão exibidos, entre eles: Bom Povo Português de Rui Simões, Terra de Abril de Philippe Costantini, Anna Glogowski e Movimento das Coisas de Manuela Serra (filme de encerramento). Não esquecendo dos inúmeros debates com realizadores e temáticos: “Percursos no Documentário Português: Cinema no Pós-Abril” e “Como se relaciona o documentário português com o mundo de hoje?”

1.24.2011

Bruxaria

Amanhã saem os nomeados para os oscars e não há ninguém que fique indiferente, por muito que se queira disfarçar; enfim, eu envergonho-me me lhe dar tanta atenção, mas na verdade faço-o com grande prazer. Como tenho a mania que sou bruxo, vou adivinhar os 5 nomeados para a categoria de melhor longa documental e estou em crer que não vou errar um que seja, mas por segurança, vou atrelar um candidato suplente. Aqui vamos nós:

The Tillman Story
Waiting for 'Superman'
Inside Job
Restrepo
Exit through the gift shop
[Client 9: The Rise and Fall of Eliot Spitzer]

Não me aventuro quanto ao vencedor mas apostaria num dos dois primeiros. Amanhã fazemos contas.

P.S.: em letras muito pequeninas digo que GasLand, Waste Land e Precious Life têm também algumas hipótese, podem consultar a lista dos 15 filmes elegíveis aqui.

11.14.2010

Hipótese Ad hoc (III)

Continuando a senda de passar pelos pontos altos do Doc Lisboa, quase um mês depois do seu encerramento, lanço-me hoje a um título maior da programação deste ano do festival: Boxing Gym de Frederick Wiseman.

No ano em que pela primeira vez estreia uma das obras de Wiseman em sala e dois anos depois do doc lhe ter dedicado uma retrospectiva integral, aparece-nos um filme singular do ancião realizador. Primeiro, por ser uma obra de apenas 90 minutos (coisa raríssima), segundo, por ser de uma actualidade avassaladora sobre o que é ser americano hoje. Se mais não houvesse, este seria um estudo de caso, a aproximação à lupa de uma comunidade restrita mas não fechada (como quase sempre são as que Wiseman filma), que reproduz de forma quase gráfica o melting pot (esta expressão irrita-me um pouco, mas não há melhor e tão sucinta) americano. Um ginásio onde convivem profissionais e amadores, mulheres e homens, bebés, crianças, jovens, adultos e velhos, 'americanos de gema' e emigrantes latinos, conservadores e liberais. Enfim: uma manta de retalhos (olha, afinal existe um expressão equivalente) que constroi um tecido orgânico e harmonioso. Raros são os filmes que nos apresentam uma versão tão idílica da América sem parecerem propagandisticos. Este é seco, sem rodriguinhos, (será que me arrisco a dizer isto) verdadeiro.

Os Wiseman que conheço costuram-se sempre da mesma forma. Exploram as rotinas, os actos repetidos, as mecânicas das organizações. Mas esta atenção não é inocente, há um propósito, uma ideia de narrativa convencional, uma construção em pirâmide em direcção ao aperfeiçoamento. Vemos os treinos, os sucessivos murros em sacos e em luvas, ouvimos as palavras de ordem do treinador e todos os dias as mesmas rotinas de treino, para depois, no fim, termos direito a um combate. O auge da criação, o fruto do trabalho e suor. O objectivo alcançado. A criação artística.

Mas como eu gosto mais do resto, das sociologias baratas, leiam o texto do José Oliveira no Touro Enraivecido, que pega no filme pelo Ford e pelo Hawks, certamente é uma abordagem mais interessante que a minha.

11.03.2010

Hipóteses Ah hoc (II)

 
O DocLisboa já acabou, mas o tempo não dilata e os textos vão saindo às pinguinhas.
Hitlers HitParade. Filme curioso. De 2008. Feito integralmente com material de arquivo. Propaganda Nazi. Publicidade. Filmes de entretenimento ligeiro da Alemanha Hitleriana. Imagens documentais dos campos e das atrocidades. Desenhos animados. Tudo embalado por alegres canções sobre o amor e a felicidade. Tropas encaixadas com tangos. Jovens de mini-saia dançando, encaixadas com os cadáveres. Hitler como figura pop. Hitler como figura popular. Propaganda. Crítica severa. Controvérsia.
[Na sessão a que fui, o realizador ficou para responder a questões e, como seria de esperar, várias pessoas ficaram escandalizadas com a forma como se tratava a memória dos mortos. O realizador explicou que havia três razões para montar as imagens dos mortos com música alegre: primeira, o facto de o contraste aumentar o choque, segunda, o facto de o holocausto ser sempre tratado como um período tenebroso com músicas igualmente tenebrosas, terceiro, os próprios militares que dirigiam os campos colocavam músicas alegres para os presos ouvirem enquanto trabalhavam até à morte por exaustão]

O caldo que fica é uma duríssima crítica à maldade pela passividade. Neste filme dá-se a entender que os alemães viviam num mundo imaginado, desligado da realidade, fundado em enganos e mais que isso na crença de que eram de facto superiores. A maldade pela negligência, pelo nada fazer. O filme é mesmo uma reflexão sobre a ética do acto de fazer cinema: cinema escapista num período de  horror é eticamente condenável, por promover a inacção, por promover a não-reacção. [daí que nestes anos em que se atravessa uma das mais destrutivas crises da história moderna da civilização ocidental, seja condenável a feitura de filmes ocos de conteúdo - não só nestes momentos, mas especialmente].

Outra coisa interessante neste filme é a construção de uma narrativa a partir do material de arquivo; isto é: fazer com que as diferentes fontes falem entre si, criando uma estrutura clássica de progressão narrativa. Há dois exemplos curiosos. Um cena em que marido e mulher conversam pelo telefone é montada com outra de alguém que escuta a uma porta, sendo o conjunto montado com imagens da sede da Gestapo e de uma rusga, criando o texto de que o homem confidenciava à mulher algo que é denunciado pelo vizinho e que resulta na apreensão do primeiro. Outro exemplo é a compilação de cenas em que Hitler puxa a franja para o lado, fazendo dele uma caricatura, explorando-lhe os maneirismos.

O filme nunca passou na televisão publica alemã (só no arte), podem ficar com dois pequenos excertos.(1 e 2)

10.22.2010

Hipóteses Ad hoc (I)


Primeira sessão deste ano no Doc, três curtas de Manoel de Oliveira: Douro Faina Fluvial; O Pintor e a Cidade e O Pão. Três filmes de genial perfeição.

Se o primeiro é uma bomba de modernidade, uma exaltação do teoria da montagem russa, que cria algumas das mais criativas aproximações visuais de sempre [mais uma vez me vejo nestas afirmações de crítico pedante]: montar um mastro com a excitação de um jovem, o trabalhador com a empilhadora. Por outro lado o filme cria sobre si mesmo, e dentro da sua veia documental, um desejo pela ficção, pela realidade encenada: o jovem que compra um peixe à peixeira, o atropelamento de um moço pelo carro de bois. Mas o frenético da montagem é algo que se prolonga, o abanar da câmara é constante. Mais não fosse, esta seria uma obra fundamental, por ser um dos títulos fundadores do nosso cinema, por ser absolutamente fascinante e por ser tão reveladora da variedade do trabalho de Oliveira. [quem lhe chama chato, apenas demonstra a sua ignorância].

O segundo é uma obra de uma elegância inaudita: o romance que se estabelece entre o pintor e a cidade é mais do que o título pode transparecer, pois na verdade, cria-se uma história de amor e fascinação: pelos pequenos pormenores e pelos grandes - os miúdos a jogar à bola, as multidões, o trânsito, mas depois as igrejas, os monumentos, as estátuas. Tudo isto é leve, como algumas coisas de Rhomer ou Varda, mas muito antes destes, e voltando a ceder à ficção, que é essa a genuína motivação do decano realizador.

O Pão é, juntamente com os outros, um filme de ciclo: quando os outros funcionam num dia, do amanhecer ao entardecer [o final de o Pintor e a cidade é algo de avassalador], este funciona num ano, acompanhando o pão desde a ceifa até à seguinte plantação. O Pão assume aqui todo o simbolismo: elemento aglutinador da sociedade, comum a ricos e pobres, saciador de fome e fruto do trabalho [mais uma vez o homem e a máquina, o moleiro e a fábrica de moagem]. Mas as coisas são infinitas: o pão como símbolo religioso, o cinema como pintura [sequência mínima a da Guernica], o pão como símbolo do amor, ligação eterna [o filme começa com um casamento].

Enfim, assombrosos filmes e assombrado realizador.

6.28.2010

Videoclip! - II

Desde 2004 que o festival de curtas de vila do conde tem uma secção competitiva de videoclips, o ano passado fiz uma publicação sobre esta secção competitiva apresentando todos os concorrentes (o viedoclip é uma forma de arte vídeo que abunda na internet, sendo por isso mais fácil de aceder que as curtas), este ano faço o mesmo e da mesma forma que organizei a secção por interesse (meu), a negrito e em maiores dimensões estão aqueles que creio serem melhores, sendo que os outros decrescem proporcionalmente.

A salientar a presença contínua de Romain Gravas, que o ano passado esteve com o muito polémico clip dos Justice e agora se apresenta com o não menos chocante clip de Mia (um dos melhores). OK GO que tinham um muito divertido clip com passadeiras de corrida entram em competição com um divertido jogo de dominó; os Papercutz têm um dos mais cativantes videos (em parte português) que combina habilmente a música com a imagem num sentido quase hipnótico. O clip dos Massive Attack (banda que não falta um ano em Portugal) tem também um video musical em forma de documentário sobre o cinema pornográfico e uma das suas caras mais conhecidas. David Fonseca é uma das poucas participações portuguesas, ele que antes de se dedicar à musica se licenciou em cinema, realiza o seu próprio clip. Os Coldplay têm um vídeo divertidíssimo que provavelmente já conheciam da televisão. Synesthesia é um dos mais curiosos, assim como o Bop e Look, respectivamente de Brand Brauer Frick e Sebastien Tellier.

5.05.2010

Fila Indie-ana - IV

O indie já acabou no Domingo, mas eu ainda tenho que falar dos filmes que vi, por isso, vêm com atraso.

The Robber e Significado/B Fachada são os dois que vos trago.

O primeiro passou em Berlim, esteve na competição internacional e é um filme muito curioso, mostra que se podem fazer filmes de 'acção' (há que elevar bem as aspas) com cuidado, inteligência e um bom estudo dos personagens. Temos um presidiário que é posto em liberdade condicional. É maratonista profissional, recordista alemão. É ladrão de bancos.
O filme vive do personagem, é este homem que vive pelo prazer da adrenalina, que interessa conhecer nas sequências de fuga, é aquele ser reservado, tímido, estranho, que vê nos assaltos uma forma de se sentir vivo. O filme é sobre essa mesma obsessão, sobre a incapacidade de controlar os impulsos, e até que ponto essa dependência pode levar o homem, a espiral de decadência, a animalidade que se esconde a surgir nos momentos de sobrevivência.

O segundo é um documentário de Tiago Pereira sobre a música portuguesa 'tradicional'. Sabe bem ver um filme em que se sente o prazer do realizador em falar com as pessoas, ele desmultiplica-se em mais de 35 entrevistas num filme de uma hora, mas não se limita a apresentar vozes, há ali uma coerência, tudo se liga por uma montagem excessiva [e opinativa?], que espelha outra coisa, o prazer de juntar coisas, sons, vozes, musicas, imagens: o filme chega quase a ser um espectáculo audiovisual.

B Fachada (também de Tiago Pereira), por contradição, viva apenas do personagem infinito que é o músico homónimo, mas perde-se, entre as maravilhosas canções do cantautor e a sua educada e palavrosa persona. Há no entanto que frisar que a busca das origens [a dona Filomena] são uma delícia.

4.27.2010

Fila Indie-ana - III

Hoje foi Videocracy, documentário de um italiano (Erik Gandini) que foi viver para outras bandas (Dinamarca), mas que de lá, faz a sua crítica à pátria mãe, que aos seus olhos está a cair como as peças de fruta que não são apanhadas da árvore, isto é: de podre.
Gandini já tinha trabalhado sobre Che e sobre Guantanamo, agora o seu alvo é Berlusconi e o seu império dos media, se o filme sofre dos mesmos males de Michael Moore é apenas no facto de não aprofundar o personagem, fica-se pela ramagem das redes de interesses e das influências mediáticas, mas quanto ao homem, temos um retracto idílico (no que mais há de mau na palavra).
Há que de facto tomar noção de que o filme tem a extraordinária capacidade de ser simultâneamente particular e por outro lado dar um instantâneo das interpenetrações dos media com o poder político. Sente-se de facto nojo por percebermos que o primeiro ministro daquele país é controlador de 90% dos media, que a maioria da população gosta disso e pior, vê naquele estilo de lixo hertziano um modelo de vida, em que as meninas querem ser velinas, mostrar o rabinho e dançar 30 segundos sem nunca abrirem a boquinha para darem de sua graça.
Se algo fica do filme, é perceber que Portugal não está assim tão longe desta situação e que o caminho para lá chegar é rápido e silencioso.

4.26.2010

Fila Indie-ana - II

Neste indie só vou ver 6 filmes, até agora foram dois (Lourdes e City of Life and Death), os que faltam são o Videocracy, The Robber, Guerra Civil e Significado (B Fachada).

Ao que já passou posso dizer que Lourdes é um mimo, um filme de uma delicadeza de porcelana, que percorre (e morde sem nunca julgar cegamente) as questões religiosas e a comercialização da fé, com uma educação cristalina e de uma sentido de humor tão refinado que se entranha nos ossos; um primor.

No que diz respeito a City of Life and Death, é um filme que tem uma primeira meia hora de cinema em estado puro, uma força inaudita, adrenalina sólida a escorrer pela filigrana da película [apesar do uso do CGI ser inteligente] e uma noção de pátria, de povo unido, em que a câmara passa dos chineses para os japoneses com leveza, mostrando-os como pessoas e não como facções, sem personagens principais, mas sim com toda uma nação entrincheirada; mas depois o filme cai num moralismo peganhento, com pretensões de ser a Lista de Schindler asiática, e tudo começa a fazer comichão (claro que tem ainda duas ou três cenas de uma dureza asfixiante - o estupro das mulheres ou o resgate de um elemento por família) e o fim é de uma idiota crença na resiliência humana que é Spielberg chapadinho.

4.18.2010

Fila indie-ana

O Indie chegou, e sem desprezar os outros festivais do país, este é sem dúvida o mais importante (O Fantas também), no entanto este ano, ao que se vê pelo programa, temos aqui A grande compilação dos filmes dos grandes festivais do mundo (Cannes com Mother, Visage, Accident, Vengeance, os dois de Herzog, Napoli; de Veneza, Lenanon, Life during Wartime; de Berlin com The Robber, de Sundance com When you're a strange, Humpday, Panique au village, Greenberg [que também esteve em Berlin]). Para além disto, há uma grande fatia de filmes que vão passar no Indie unicamente como uma antestreia mais simpática, uma vez que alguns deles só estão no festival devido a parcerias com a Lusomundo (e outras distribuidoras) que esperam conseguir vir buscar ao Indie o protagonismo suficiente para lançarem os filmes em sala.
A salientar a presença portuguesa, com Fantasia Lusitana e Guerra Civil na competição nacional, e em sessão extra o novo de Green, Religiosa Portuguesa e o novo de Marco Martins - How to draw a Perfect Circle e também dele Traces of a Diary.
A secção de competição internacional é sempre um primor (apesar de a maioria dos filmes não ser do conhecimento geral, mas é mesmo esse o objectivo de uma secção para primeiras e segundas obras), de onde destacaria o único português da secção, assim como The Robber, La mujer sin Piano, La Pivellina e It's Already Summer. O observatório é constituído pelos filmes dos grandes festivais; o cinema emergente tem alguns títulos curiosos, como j'ai tue ma mére (o grande filme canadiano de 2009), ou Io sono l'amore [que também terá estreia em sala poucas semanas depois do indie] ou ainda Lourdes [passado em Veneza se não me engano]. O heroi independente é em parte a secção de filmes que passaram em Berlin sobre os seus últimos 20 anos e a outra parte é para Heddy Honigmann. No pulsar do mundo temos Videocracy, documentário polémico sobre a força da televisão em Itália. 9 e Panique ou Village são os dois filmes a tomar em atenção no Indie Junior, apesar de o primeiro vir a ter estreia em sala. Na música temos o já citado filme sobre os Doors (versão anti-stone) e os de Paulo Prazeres sobre os X-wife, Terrakota, Dealema e J.P. Somiões, ou de Tiago Pereira sobre B Fachada [já passado no Panorama]. No director's Cut temos o Black Dynamite e Radio On para tomar atenção.
Não esquecer City of Life and Death um dos grandes sucessos chineses de 2010, que teve alguns problemas com a censura, pois a sua imagem dos militares japoneses não é nada condenatória.
Como nos indica o artigo da Variety, o indie teve um aumento de orçamento na casa dos 50% e uma subida do valor do primeiro prémio (agora 91$00), assim como é de bom tom dizer que a presença de distribuidoras francesas em busca de títulos portugueses tem vindo a subir. Mostra-se portanto que a integração das Lisbon Screenings para distribuidoras estrangeiras está a dar resultados, e o prestigio internacional de um festival com apenas 7 anos de existência é já de uma magnitude rara na nossa pequenas nação onde o cinema nem sempre é tratado conforme devia

P.S.: É curioso ver que o Estoril Film festival tem 3.5 milhões de euros de orçamento e o Indie se fica pelos 1.15 e o Fantas teve uma redução de 25% na última edição.