3.31.2008

DiViDi filmes

É absolutamente extraordinário o que se vem passado nestes últimos dias na publicação de DVD, ou seja, nestes últimos dias temos podido assistir a uma serie de lançamentos de filmes maravilhosos no formato caseiro e digital que é a oitava maravilha do mundo chamada DVD (e ainda não vi nenhum blue-ray, mas quando tiver uma televisão de alta definição, aquilo é que vai ser, até parece que estou a olhar pela janela), mas continuando, um conjunto de maravilhosos tem, vai ter ou já teve lançamento em DVD, então vejam a colecção:

Control (o muito falado biopic do vocalista dos Joy Division- Ian Curtis), realizado pelo fotografo Anton Corbjin, também ele realizador de pelo menos um dos videoclips dos joy Division.

Zidane, um retracto do século XXI (maravilha da técnica, a filmagem de uma partida de futebol -90 minutos- em que a câmara só se interessa em Zidane e este é o alvo de todas as filmagens). segundo alguns este filme é uma obra de museu, o uso preciso da técnica da criação de cinema, que deixa quase de o ser apenas pela técnica como é obtido. Filmado em digital por um batalhão de câmaras (acho que eram doze, mas já não me lembro)

As Canções de Amor (filme do maravilhoso Honoré que fez o perfeito (Em, Paris) e que nos trás este filme que segue até certo ponto o estilo de Demy (jacques), que fazia o filme músical, mas nos quais a música era o processo de se avançar na história e não apenas um momento de entertenimento, como acontecia e acontece nos filmes musicais americanos- salvo raras excepções.)

The Savages (sai directamente para DVD em portugal, mas ainda não sei a data), este filme foi um dos mais tristemente abandonados pelas destribuidoras portuguesas e termos o prazer de o ver em DVD já é uma grande sorte, se um filme que é nomeado para melhor actriz principal e melhor argumento original nos oscars não fosse editado era um crime, até faz lembrar o também renegado para DVD, Longe Dela (também com dias nomeações para os oscars, incluindo o de melhor actriz e melhor argumento adaptado).

O Palácio de Verão (Yihe yuan, filme que fez grande sucesso no festival de Cannes, sai também directamente para DVD, este é mais um daqueles filmes chineses que começãm a aparecer agora que versam sobre a liberdade sexual, o amor romantico e neste caso um pouco sobre politica, uma vez que a paixão se inicia aquando da revolta dos estudantes na praça de Tian a men)

E agora agora vai mais um, este filme cá por nós estreou-se, ao inicio por três salas em todos os pais mas depois devem ter percebido que aquilo estava a ter sucesso e fizeram render o peixe, alargando para mais duas salas, nomeado para melhor documentário, o novo filme de Moore é Sicko, um ataque forte ao sistema de saúde norte americano, uma obra deveras fascinante e como é costume do senhor Moore (até parece que o conheço) hilariante, mas sempre muito esclarecedora (nem sempre esclarece tudo, nem o mais importante, mas o que se pretende esclarecer é muito bem esclarecido- gosto muito desta palavra, esclarecer).

3.30.2008

Reposicionando

Em Portugal as reposições não são comuns como eu gostaria que fossem, pois é de longe mais interessante e marcante ver um filme no cinema que ver o mesmo numa televisão, por muito grande que seja nunca chega a um ecrãn e o mesmo se passa com os novos sistemas de home cinema que apesar de virem melhorar a experiência do cinema em casa, deixam sempre a desejar em relação á sala escura.
Mas não nos limitemos ás componentes técnicas da projecção, ir ao cinema é um experiência única, revigorante, em que o expectador se dirige de propósito a um local para admirar a arte que é o cinema, ou seja cria-se um atmosfera em redor da pessoa que confere um experiência diferente, única e indescritível, que é ir ao cinema, este tipo de actividade tem ao longo dos anos vindo a ser banalizada tendo com isso óbvias vantagens, que são a possibilidade de qualquer pessoa de qualquer extracto social em qualquer local do país (esta ultima parte já não é tão verdadeira), poder experienciar uma das actividades culturais que mais alegria me dá e a qual pratico com mais regularidade. por outro lado vemos que hoje em dia as salas de cinema estão cheias de miúdos que não respeitas o que vêm, que não admiram e que pior que isso, preferem estragar a actividade cultural de um outro ser humano apenas pelo gozo que lhes dá passarem um sessão inteira a conversarem, desrespeitando o filme que vêm, as outras pessoas que assistem e desrespeitando-se a sim mesmos, pois preferem continuar ignorantes a admirarem grandes obras da cinematografia actual.
Por outro lado temos a cinematografia mais antiga que passa em Portugal (salvo raras excepções) no circuito comercial única e quase exclusivamente no cinema Nimas, lá podemos, de tempos a tempos ver grandes obras do cinema de outrora, o ano passado foi especialmente rico neste género de projecção, podemos deleitar-mo-nos com filmes tais, como o Meu Tio, que tive a possibilidade de ver, No Céu tudo é perfeito, filme que também pude ver, obra de estreia do génio Lynch, Mala Noche, filme de estreia do grande e sempre agradável e maravilhoso (que fez um perfeito Paranoid Park) Gus Van Sant, a acresecentar tivemos ainda Imitação de Vida, o único dos quais não consegui ver, mas o pelo qual lamento imensamente, porque sempre gostei de filmes de fazer chorar baba e ranho.
Mas o que me leva a escrever este post não é simplesmente a alegria de poder rever ou ver pela primeira vez filmes que fazem parte dos livros da história do cinema, ou a felicidade que apreendo por saber que novas gerações vão poder as grandes maravilhas, o verdadeiro motivo que me leva a escrever é a reposição do BLADE RUNNER no cinema a propósito do seus 25 anos de estreia, lá estarei para recordar um dos filmes mais mal tratados da história do cinema a quando do seu lançamento, mas que se tornou uma obra de culto com o sucesso do VHS, felizmente que cá em Portugal alguém ainda tem olhos na cara para perceber que vale a pena fazer esta reposição.

3.29.2008

Double Feature

Primeiro o grande vencedor no festival fantasporto e no Festival SITGES, chama-se [REC] e deve ser absolutamente maravilhoso, é filme espanhol que em certa medidade se assemelha em muito ao Cloverfield (filme interessante já agora, que vale o dinheiro que custa o bilhete, mas que deixa um pouco a desejar no que toca a interpretações e aquela parte inicial e um logo um mau princípio, mas depois o filme acelera e nunca mais para e esse ritmo é que é muito louvável, as ligações ao 11 de Setembro não completamente desnecessárias e erradas, o filme tem como objectivo ser super-realista e vender o máximo, ter o maior lucro, não quer fazer um tratado sobre o medo pós-11 de Setembro, devo ainda acrescentar que as cenas no prédio torto são uma das coisas mais empolgantes e de maior suspense que vi desde há muito tempo), mas como não é deste que estamos a falar, voltemos a REC (tirei os parênteses porque dá muito trabalho), este filme tem tudo para dar certo, e como já vão poder ver no trailer e nas reacções do público no festival, é sem dúvida alguma um dos melhores filme de terror deste ano que nos está a achegar, desfrutem. Estreia já no tão próximo 10 de Abril, até é difícil esperar duas semanas.


em segundo e estando em primeiro na lista dos filmes mais desejados, está o filme que já tinha sido tirado na agenda de estreias mas que agora para meu agrado foi colocado para estrear no dia 1 de Maio, é de um dos mais maravilhosos realizadores vivos e um dos meus preferidos sem dúvida, o grandioso Wong Kar-wai, realizador de filmes tão bons como Chunking Express, In the Mood To Love, Happy Together e o mais recente 2046, estes dois últimos os únicos que tive a oportunidade de ver e pelos quais me apaixonei incondicionalmente, que me deram energia para muitos meses, que me fizeram acordar com um sorriso nos lábios e um brilhozinho nos olhos. agora chega-nos o seu primeiro filme filmado nos EUA como a senhor Norah Jones, é intitulado de My Blueberry Nights e em português tem o nome de o Sabor do Amor (título adequado á grande maioria dos filmes do senhor Kar Way, apreciem a beleza, o amor, o desejo e a felicidade suprema.

O Regresso

Quando comecei este blog tinha ideias muito grandiosas para o seu conteúdo, depois percebi que isto ia dar trabalho como sei lá o quê e que demorava quase uma hora para fazer um post sobre um filme, por isso vou remodelar a minha ideia, quero que este post seja quase como aquele tratado que o maravilhoso Orson Welles faz no seu perfeito Citizen Kane aos leitores do seu jornal prometendo uma serie de coisas que acaba por quebrar (esta ultima parte espero que não aconteça) e espero também não vir a ser atormentado pela grandiosidade da minha vida a proferir a marca do meu trenó quando morrer (há que dizer que não tenho nem nunca tive um trenó, mas isso é secundário!!).
Por isso quero afirmar aqui e para quem venha ler isto que este blog é produto de mim mesmo, é sangue do meu sangue, é um irmão e é dessa modo quer pretendo trata-lo, por isso vou deixar de me limitar á escrita de critica de filmes, pretendendo abranger outros temas, dentro do cinema e não só, mas que me ocupem menos tempo de modo a que possa escrever neste espaço mais frequentemente do que tem vindo a acontecer, por outro lado quero que este espaço, como propus nas sua criação seja um libertador, um destruidor de grilhões e das amarras e que me dê felicidade, que me satisfaça tanto a mim como aqueles que o venham ler e sem duvida que a minha felicidade e satisfação será proporcional ao número de pessoas que cá venham e acrescida pela participação dessa mesmas pessoas que passo desde já a agradecer pela visita.

2.21.2008

Maria Antonieta (Marie Antoinette)

Muito se falou deste filme no ano da sua estreia em 2006, muitos dos críticos, cá e não só, dividiam-se entre o fantástico/genial e o péssimo/exercício de estilo sem bases nem objectivos, um desperdício do palácio de Versalhes e uma perda de tempo.

Como já fiz ver, este tipo de filmes que provoca disputas e críticas acesas são os meus preferidos, uma vez que eu normalmente gosto sempre de meter a colher e opinar um pouquinho, e como normalmente acontece, eu fico do lado dos aduladores, que homenageiam e amam o título em causa, desta vez não escapou á regra.


Mais tarde, o filme acabou por ter um sucesso comedido, nos oscars ganhando a sua única nomeação, a qual era para melhor guarda roupa.

Mas verdade seja dita, este é um dos melhores filmes de já algum tempo. Não via um filme com um formalismo técnico, um coerência tão grande e um preciosismo, com um estilo perfeito, interessante e mais que isso absolutamente delicioso.

Sofia Coppola é sem dúvida uma das grandes da sua geração, dessa geração de cineastas que vai agora no terceiro filme que começaram nos anos 90 e que trazem atrelados a si uma genialidade criativa que supera em grande parte a geração que a antecedeu, e que também deu e dá muitos frutos. Quem duvida-se do seu bom tecnicismo, direcção de artistas e sentido estético, acompanhado de uma necessidade intrínseca e que agora se vê profícua de criar algo diferente do que se estava habituado, apercebe-se que o motivo da sua dúvida era desnecessário.

Vinha nos extras do DVD que aluguei um comentário de um dos actores muito secundários que dizia algo como: "Sofia queria fazer um bombom, mas acabou por ficar um bombom sexy" e pensar nisto que é tão simples, nós ficamos deslumbrados com um resumo de um filme tão bom em duas palavras, BOMBOM SEXY, é que se alguém duvida, veja ou reveja, aquilo é um bombom delicioso, que satisfaz todas os nossos desejos, que preenche todos os nossos queres e que simultaneamente é adolescentemente sexy, um produto directo da MTV e que se coaduna com uma história de filmes biográficos de personagens históricas, tão habitual do cinema americano. Esta mistura quase explosiva entre a coquete francesa do barroquismo e os All Star MTV são uma das mais belas e quase subversivas ideias que o cinema alguma vez provocou e produziu.

Pois agora vejam esta pequena demonstração, aqui por baixo está o poster do filme que tem a mesma imagem que a capa do DVD, e olhem para aquela cara de menina reguila, adolescente mimada, de rapariga que passa o dia inteiro nas cuscuvelhices e a mandar mensagens de telemovel, mas que vive em França, na altura das revoluções francesas, que é casada com o rei sol com 14 anos e que tem nas suas costas a função de manter uma relação amistosa entre França e o seu país de origem, a Áustria, sendo por isso alvo de toda a socialite francesa e sendo um filho seu e do rei, uma das coisas mais esperadas e para a qual é empurrada/obrigada. Digam-me lá que isto não é genial., esta interligação entre duas épocas diferentes, afastados por espaços de tempo tão longos, mas que no filme parecem quase simultâneos, como se houvessem teenagers a passear por ai vestidas à século XVIII, cheias de folhos e com um cabelo do tamanho de uma antena parabólica.

Mas depois de ver o filme é isso que ficamos a pensar. A agrupar a esta série de elogios, acrescento ainda uma fotografia linda que tira proveito de um dos locais mais bonitos do mundo, que é o palácio de Versalhes, que aqui nos é apresentado como quase um reino de fantasia em que tudo é de uma estranheza, de um formalismo, cheio de maneirismos, normas absurdas e simplesmente estúpidas. Veja-se o rital do acordar em que uma menina de 14 anos se vê observado por mais de 20 pessoas que consoante a sua importância social, têm o privilégio de lhe dar a roupa, mas sempre sem lhe tocar, nem no mais ínfimo milímetro quadrado de pele, assim como as refeições como o pequeno almoço, e quando ela pergunta porque razão tem que se sujeitar a tão abstrusos rituais, a resposta é simples: "ISTO É VERSALHES". continuando os elogios, venha a tão famigerada banda sonora, que a todos parecia incomodar ou maravilhar, Coppola escolheu new order, the cure, the stockes, entre outras bandas pop/rock da geração MTV, e o ambiente criado por esta banda sonora neste filme de época faz toda a diferença.

Tudo começa quando a pequena menina tem que ir para França casar-se com os seu noivo arranjado e que só conhece por retratos, e no momento em que passa a fronteira tudo o que tinha deixa de ser seu, tudo o que lhe era íntimo desaparece, até a roupa que tinha no corpo, como se a partir daquele momento passa-se a ser outra pessoa, coisa que acaba por acontecer. a ingenuidade que Kristen Dunst transpira para o filme é extraordinária, bruta, viva, sincera, é um papelão, que provavelmente lhe marcará a vida. a acompanha-la está o seu marido interpretado de uma forma muito contida o senhor Jason Shawrtzman.

A par disto e da pressão social para ter um filho e da estranha relação que tem com o seu marido, que simplesmente é estranha, mas a partir da qual eles aprendem a amar-se profundamente, a par disto está o seu relacionamento extraconjugal, com um militar de alta patente que combatera nos estados unidos pela na guerra da independência. Este é o período do filme mais maravilhoso, porque nos enche de emoções que não conseguimos explicar, entender, mas que sentimos, que nos tocam, nos perturbam, nos afectam e em suma nos fazem amar este filme.

1.30.2008

Um Peixe Fora de Água (The Life Aquatic with Steve Zissou)


Estou a escrever este post pela segunda vez, porque, por algum acto desconhecido ao colocar o embed de uma música, tudo o que havia escrito tinha desaparecido e não consegui recuperar, por isso será normal que este texto não preze tanto pela inspiração. Começando pelo que me lembro de ter escrito:

O melhor deste filme
: Mais ao menos tudo é melhor neste filme, não há nada que se destaque pela negativa, no entanto o ambiente tão característico de Wes Anderson, caracterizado pela fotografia quase arte pop são o melhor.

O pior
: A tradução do título para português, única e exclusivamente culpa nossa, será uma das piores traduções alguma vez feita, passar de The life aquatica with Steve Zissou, para um peixe fora de água, é quase ignóbil.

Esta comédia é de um dos grandes mestre do cinema americano, Wes Anderson é um dos mais interessantes realizadores, que faz filmes um tanto ao quanto independentes, mas que desenvolveram o seu estilo ao longo de toda a sua carreira, que marca profundamente o panorama cinematográfico actual.

Não foi a primeira vez que vi um filme de Anderson, já tinha tido a felicidade de poder ver The Royal Tenenbaums - Uma comédia genial, filme que caracteriza Anderson de uma maneira esplendorosa, filme o qual foi galardoado com o Óscar de melhor argumento original, prémio perfeitamente merecido. Vi à alguns dias este filme como que se de uma preparação se tratasse para a visualização do novo título de Anderson que se encontra de momento nas salas portuguesas faz três semanas, chamado Darjeeling Limited, filme que decorre no ambiente indiano e que conta com as participações de Owen Wilson, Adrien Brody e Jason Schwartzman.
Mas voltando a este filme, comecemos pelo argumento, é assinado pelo realizador do filme (como todos os que já realizou anteriormente), mas assinado em parceria com Noah Baumbach, argumentista e também realizador, que é habitual na escrita dos argumentos de Wes, possivelmente conhecem-no pela sua primeira longa metragem que chegou a Portugal em 2005, suponho eu, chamada a lula e a baleia, quem se lembra, recrodar-se-há que este é um drama familiar que nada tem de cómico, sobre um divorcio e sobre o progressivo desmoronar da relação que os filhos tinham com o seu pai, que antes era considerado quase como um deus, mas que com o divorcio mostra a sua face mais negra e quase mórbida pela infelicidade e miséria, um filme marcadamente misantropo. Não foi propriamente um dos filmes que mais apreciasse no ano, por ser demasiado cru e realista que chocava pela enormidade dos sentimentos das personagens. No entanto Noah comporta-se as mil maravilhas numa comédia com esta.

A comicidade de um filme como este advém da família ser tão disfuncional e de todas as personagens serem na sua maioria esvaziadas de profundidade e este estado cool de alma dá origem a um humor muito particular (a cena que aparece no trailer dos capacetes com antena de rádio, ou cena dos murros na cara), por outro lado do mesmo local que provem o riso, vem também um pouco do drama familiar que envolve toda a peça como se se tratasse de uma alma enevoada que protege o filme de um exterior, e que mais facilmente convida o espectador a entrar no ambiente tão fantástico, irrealista e quase infantil que são os filmes de Anderson.
Para acompanhar um argumento destes temos um dos mais curiosos actores da actualidade, Bill Murray, este actor que fez filmes tão bons como os Lost in Translation (Sofia Coppola), ou o Broken flowers (Jim Jarmusch), é sem dúvida um dos melhores da sua geração que consegue arrancar um sorriso a qualquer um. Pura e simplesmente adoro-o, não digo que sou um fan, mas sou um profundo apreciador. Murray é muito piquinhas a escolher os seus filmes, só aceitando fazer um filme quando o rei faz anos (e este rei não faz anos todos os anos!!), mas apesar disso, já apareceu em 5 dos filmes de Anderson, ou seja, todos, com excepção do primeiro, quer em papeis principais, como é o caso deste, quer como papeis secundários, há vezes em que só aparece numa cena, para avisar que ainda se lembram dele e depois não faz mais nada (caso do novo Darjeeling, pelo menos segundo o que li). Este preciosismo por parte de Murray, e a insistência (felizmente para nós) nos filmes de Anderson, só mostra que Anderson é de facto um dos grandes realizadores da actualidade.

Para acompanhar Murray durante o filme, temos o actor fetiche de Anderson (que co-assinou o filme The Royal Tenembaums), Owen Wilson, este actor participou em todos os filmes de Anderson, ambos conheceram-se quando, na escola, tiravam o curso de argumentista, foi Anderson que estimulou Wilson a iniciar-se na representação.
A acompanhar este par de óptimos actores, temos a belíssima e talentosa actriz, Cate Blanchett, que aqui desempenha o papel de jornalista que tem como missão escrever um texto sobre o ultimo documentário de Steve Zissou (Murray), mas no percurso, apaixona-se por Ben (Owen), pressuposto filho ilegítimo de Steve, que recentemente se junta à equipa de Steve para gravar o seu ultimo documentário sobre o tubarão que matou o seu melhor amigo, durante a gravação do filme anterior.
Em acrescento, referir só a presença do actor e cantor Seu Jorge como secundário, mas principalmente é memoravele pelas cenas que canta no filme, em especial no final durante os créditos. Ficam aqui 30 segundos mais outros 30 para abrir o apetite.


Há um aspecto curioso sobre o filme, é um filme que como se percebe pelo trailer é uma homenagem a Cousteau, e como homenagem que é torna-se um pouco biográfico, e não querendo entrar em spoils - coisa que não vou fazer - aconselho a procurar depois da visualização uma biografia do senhor que se refira ao filho, tenho certeza que acharam deveras interessante.
Posso referir uma série de pontos que são merecedores de atenção pelo prazer que dão aos espectadores:
  • Primeiro, todas as sequencias em que se passa de divisão para outra no barco, em que as cenas são feitas num único plano, e em que se mostra o barco sujeito a um corte transversal, estas sequencias mostram a mestria de Anderson e a sua criatividade, ajudando acentuar a sua atmosfera característica.
  • Segundo, as cenas de “acção” (leia-se cenas de muita diversão), em que assim de um momento para o outro, a história que está muito paradinha e a desenvolver-se lenta e calmamente, recebe um choque eléctrico vindo de um espaço conhecido e explode numa cena de acção quase semelhante a um filme como Die hard ou 007, em que Murray começa a correr com uma pistola na mão e a matar tudo o que é mau-da-fita. Hilariante é a palavra que melhor expressa o sentimento sentido.
  • Terceiro, todas as criaturas/animais que aparecem no filme são produto de animação por stop motion, este tipo de animação que devem conhecer de a fuga das galinhas, a noiva cadáver, ou o estranho mundo de jack, criam neste filme mais um motivo forte para sustentar que a atmosfera quase infantil e fantasiosa de Anderson é parte integrante do seu género e que por sua vez demonstra a sua genialidade.
Em conclusão, um filme extraordinário que demosntra a inventividade de Anderson, da coerência do seu trabalho, na criação de histórias e ambientes, assim como o seu grande e requintado bom gosto na selecção da música e na apuradíssima fotografía (cinematografía para alguns).

9/10 - Muito Bom



1.24.2008

Festim Nu (Naked Lunch)

Ainda em Dezembro do ano que agora acabou, fui ver o último filme do grande Cronenberg, o Eastern Promisses (Promessas Perigosas), que está agora nomeado para melhor actor pelo trabalho irrepreensível do Viggo Mortensen que já havia trabalhado no perfeito uma história de violência (filme genial já agora).

Por apreciar em grande medida o trabalho deste extraordinário realizador, aluguei o filme Festim nu no meu clube de vídeo, coisa que já tinha querido fazer antes de ver o Eastern Promisses, mas que acabou por não ser possível.

O filme começa da melhor maneira (o genérico inicial é perfeito, como se pode ver na fotografia), a musica muito jazzy, muito cool, e o ambiente derivado de uma fotografia em tons pastel dão um look ao filme memorável, quase se assemelha aos filmes de suspense policial que se passam nos anos 30 e 40 (L. A. Confidencial ou mesmo o recente Dália Negra), e com os quais acaba por criar uma ligação, devido ao desenvolver da trama que no seu aspecto mais formal trata de uma investigação sobre tráfico de drogas.

E depois chega a genialidade de Cronenberg como argumentista (adaptação do romance de William S. Burroughs), a imaginação de um homem, um realizador canadiano que infelizmente tem vindo a ser descriminado pela academia durante toda a sua vida. O filme ganha uma dimensão exterior a si mesmo, insufla-se na sua grandeza criativa, rebenta de inspiração, e deixa-nos perturbados pela complexidade dos assuntos tratados e pela crueza fantástica (leia-se fantasia) dos temas e das cenas.

O filme trata-nos de um exterminador de insectos (intrepretado por Peter Weller) chamado Bill Lee, que tem como emprego exterminar os ditos seres, tudo começa, quando a meio de uma exterminação o produto (um pó amarelo) acaba e o serviço fica por terminar, coisa que chega mesmo a levar ao gozo por parte dos seus colegas de emprego, tudo parece normal, mas as coisas começam a intrincar, percebemos que a mulher do nosso personagem anda a injectar o pó das baratas e afirma que a dita droga lhe dá uma "moca literária", entendemos também que as companhias do exterminador não são os seus colegas da profissão actual, mas sim um par de escritores mal enjorcados mas espirituosos que aspiram a um sucesso quer pouco provável, quer pouco merecido, é de notar que o nosso exterminador é uma pessoa letrada, que havia sido escritor, mas que tivera que largar a escrita, pois considerava-a demasiado perigosa.

Para uma mais fácil compreensão dos temas do filme, penso que seja agradável ler esta descrição do IMDB sobre o filme.
"After developing an addiction to the substance he uses to kill bugs, an exterminator accidentally murders his wife and becomes involved in a secret government plot being orchestrated by giant bugs in an Islamic port town in Africa"

A droga e as composições poéticas apocalípticas são frequentes na sua casa, assim como o sexo. A dependência destas actividades, mas em especial da droga exterminadora, faz com que o nosso personagem se dirija a uma consulta de desabituação, onde o médico lhe fornece uma papa substituta do pó feita á base de centopeia aquática gigante, de Marrocos, e aqui começa a real estranheza e criatividade, parte da acção passa-se para Marrocos, devido ao efeito da droga, começa a visualizar seres muito estranhos, tais como maquinas de escrever em forma de insectos (ou o contrario), assim como outros seres mais invulgares que deitam um ranhoca verde de uma das suas antenas e que provoca assim como dependência um prazer descomedido.

Aqui está a genialidade, pois é difícil destingir o que são as alucinações e os que é real, a obra fecha-se dentro dela mesma, (à semelhança do que David Lynch faz), mas deixando a possibilidade do espectador apreciar a obra em causa e admirar todos os momentos. Dos quais se pode relembrar o momento do tiro no copo, o fim inesperado, as cenas de sexo entre o austríaco e o rapaz da empresa esquisita, o Kiki, ou o dealer de papa de centopeia com sotaque alemão e ainda a mulher do mercado que hipnotiza mulheres e trafica bichos estranhos.

Pois já me ia esquecendo, o nosso personagem durante o desenvolver da história vai escrevendo o livro Naked Lunch (daí o nome), que na verdade é um relatório para uma empresa, na qual trabalha e na qual é um agente secreto sem saber, informação dada pela sua joaninha gigante em forma de máquina de escrever, que para alem de uma fiel companheira, é o seu superior na cadeia hierárquica da dita empresa, assim como é conselheira, os outros membros da história, como é o caso da sua mulher seriam membros de uma empresa oposta e concorrente.

Toda a obra é de uma confusão extrema, pouco se percebe, mas nessa possibilidade de o espectador recordar apenas o que mais prazer lhe deu, o mais memorável, ou o mais chocante, a possibilidade de cada um interpretar a obra á sua maneira, dá á peça artística uma aura de génio, inigualável.

7.5/10 - Muito bom




1.16.2008

Senhora de Água (Lady in the Water)

Oh meu Deus (apesar de não acreditar muito), este filme é genial, extraordinário, é incrível, uma peça de uma beleza uma alegria, uma ingenuidade tão transbordante que inunda a alma e o corpo que nos preenche completamente, que nos faz querer mais e mais e viver e morrer tudo num só momento, que me fez ver lágrimas que me fez sonhar renascer, voltar a ser criança, voltar a ser humano, voltar a ser feliz.

A primeira vez que ouvi falar desta fabulosa peça do imaginário colectivo recente de um dos mais imaginativos realizadores da actualidade (Night Shyamalan) foi quando a revista Premiere ainda existia e um dos leitores questionou porque razão certos críticos classificaram negativamente um filme que quer o dito leitor, quer um conjunto de outros críticos, considerava excepcional (como eu agora faço), e claro, eu gosto muito de filmes que dão que falar nestas questões de debates, só que até agora não tinha tido tempo para ver o filme. O dia finalmente chegou, dia 7 deste mês, aluguei-o no meu clube de vídeo, enquanto andava á procura de um filme para ver durante a tarde, mas na verdade eu nem era para ver filme nenhum, porque tinha um teste muito importante dois dias depois, só o tinha alugado porque queria trazer um poster que tinha pedido lá no clube de vídeo, e sentia-me mal em lá ir pedi-lo sem trazer filme nenhum, claro que depois a tentação foi grande de mais e acabei por nada estudar e simplesmente deleitar-me e regozijar-me com um encanto que um filme que por uma nesga não se tornou numa das obras incontornáveis da cinematografia, que infelizmente foi injustamente recebido quer pela crítica, quer pelo público (no tomatómetro tem 26%). Para mim um dos filmes incontornáveis e para mim uma obra prima genial.
O realizador Night Shyamalan que dentro de pouco tempo tem o seu novo filme nas salas (The Happening) sobre alienígenas suponho eu, tema já recorrente no Sinais (filme que já demonstrava bastante qualidade na criação de atmosferas densas e vibrantes), mas a obra que lhe deu visibilidade foi sem dúvida O Sexto Sentido, posteriormente fez um filme também causador de alguma polémica a nível dos gostos, chamado A Vila (o filme está lá no meu clube para eu um dia ver, e agora com a visualização deste mais vontade tenho de o fazer).

O filme trata de um senhor (Paul Giamatti) que basicamente é um faz tudo num condomínio fechado que tem todo o tipo de pessoa, ele é guarda nocturno, é canalizador, é marceneiro, é tudo, e conhece todas as personagens do seu prédio. Toda a acção se passa lá, nenhum plano fora do espaço fechado das habitações e respectivo jardim/piscina, até faz lembrar um pouquinho (e é mesmo pouco) a janela indiscreta do mestre do suspense.

O prologo do filme conta-nos uma história ancestral em que o homem nas suas origens viviam com os povos da água, junto aos mares e lagos, mas devido á sua ganancia abandona estas zonas e por suas vez abandona os povos da água, esta separação levou a que o homem descobrisse o fogo e por sua vez a violência, dizimando-se durante épocas longuíssimas, o povo da água decide então salvar os homens, enviando-lhes os seus mais habilidosos jovens, para que eles se encontrem com pre-determinadas pessoas, e que só o encontro entre os enviados e o dito humano, fará toda a diferença e acabará por alterar o mundo em que vivemos. Mas existe uma entidade maligna que impede este conhecimento e que ataca os enviados quando estes estão fora de água.

A história apesar de parecer complicada e demasiado fantasiosa, é nos contada como se crianças fossemos, e em cada noite nos acrescentassem mais um pormenor.

O filme é genial e digo-o quantas vezes forem precisas, todas as cenas são memoráveis, mas mais que todas as outras, os momentos em que os cargos de cada pessoa são atribuídos são de uma força inigualável, e a cena final de um lirismo divino.

O realizador do filme é também actor, mas nesta história com excepção do nosso faz-tudo, todas as personagens são simultaneamente importantes e imprescindíveis, como são secundárias, mas todas elas são geniais.

Uma obra prima infelizmente denegrida por criticas injustas e por mentes fechadas e empedernidas, pois tenho dificuldade em acreditar que alguém possa não ser tocado por esta maravilha.
Este é sem dúvida um filme de tirar a respiração um filme Breath Away.
10/10 - Genial

1.09.2008

Jogos de Poder (Charlie Wilson's War)

O primeiro filme do ano para a minha pessoa é este, viu no dia 5 de Janeiro na sessão das nove e qualquer coisa e a sala apesar de não estar a abarrotar, já estava consideravelmente cheia.O enredo centra numa personagem principal, Charlie Wilson (Tom Hanks) que é senador nos Estados Unidos, representando o estado do Texas, é um homem peculiar, que aprecia bastante o sexo oposto e que apesar de muito desconhecido, tem muita influência, devido ás poucas necessidades do seu estado (os votos dele nas assembleias são por conveniências políticas). Temos depois a sexta mulher mais rica do estado (Julia Roberts), numa elegante senhora de extrema-direita e extraordinariamente católica. Por fim temos a mais extraordinária personagem principal do argumento, desempenhada por um dos melhores actores do momento (Philip Seymor Hoffman), num papel tão deslumbrante, quanto a sua personagem é amarga.Por obras o destino os senhores unem-se e da sua união dá-se o fim da guerra-fria e a queda do muro de Berlim.O filme é delicioso, um bombom cinematográfico divinal, daqueles filmes que se pudéssemos éramos capazes de comer a película. Neste filme tudo são rosas, não há nada que seja mau, a direcção (de Mike Nichols) é elegante, suave e muito agradável, mas que é precisa nos momentos certos, tornando-se quase acutilante, os actores são incomensuráveis, nenhum dos senhores tem maus papeis, os argumento é sólido, inteligente e muito divertido. Não sei bem porquê uma senhora que faz parte de critica cinematográfica no jornal SOL disse, e tento reproduzir como me recordo, que bons actores, boa realização e bom argumento não faziam um bom filme. Eu pergunto-me será que é mesmo assim? Essas são as coisas mais importantes num filme, e neste filme não há nada a apontar.
O objectivo do nosso curioso trio é sem dúvida mandar o comunismo a baixo, para isso terão que fornecer armas aos países vizinhos á Rússia, que na altura estavam invadidos, para que estes possam acabar por derrubar o regime totalitário. Claro que tudo muito lentamente, um helicóptero de cada vez e lá vão caindo os russos, no momento em que pela primeira vez os resistentes conseguem mandar um helicóptero a baixo somos cheios de júbilo, mesmo que isso se traduza na morte de uma pessoa, e lembro-me de enquanto estava sentado na cadeira do cinema pensar: "nunca me deu tanto prazer ver pessoas a serem mortas", porque nessas situações a mestria da direcção é tanta que a situação acaba por ter piada, uma vez que os pilotos russos estavam a discutir a sua vida privada (entenda-se casos extra matrimoniais).
Mas no fundo os filme fala de temas muito sérios de uma maneira muito descontraídas, há quem diga que esse é o maior defeito do filme, mas na realidade e pela minha perspectiva esse é um dos seus melhores atributos. No entanto não é só para rir que o filme foi feito, o filme é mais uma explicação da situação actual da América, uma vez que apesar de ganhar a guerra, os estados unidos montaram o estaleiro para que mais tarde outra guerra se iniciasse. O filme mostra-nos numa das mais chocantes partes que durante a guerra e a luta o orçamento sobe de 5milhoes para mais de 1000 milhões, mas no fim da guerra estar ganha não quiseram gastar dinheiro na construção de uma escola, para as crianças desalojadas, ou para os estropiados, para os órfãos.
"We fucked up the endgame".
Tentei arranjar uma imagem duma cena que eu acho extraordinária, que é simplesmente um plano da diva desta história a arranjar as pestanas com um alfinete de dama, junto a um pequeno espelho, vendo-se a sua cara nele, e no espelho maior (de casa de banho) á sua frente, o reflexo do senhor Charlie, este simples plano é extraordinário, depois ainda nessa cena há um grande plano da cara dela a arranjar as pestanas uma a uma; com um objecto perfurante tão perto dos olhos a cena é quase arrepiante, e a seguir dá-se uma das melhores piadas do filme, quando se faz uma referência ao número de orgasmos que cada um tinha podido usufruir nessa noite. Ainda embebidos nessa piada, dá-se um corte para imagens de artigo da União Soviética. É genial, simplesmente genial.

8/10 - Muito Bom