4.18.2009
Sunset Blvd. vs Mulholland dr. (Semelhanças - XXIV)
Não importa o que me digam: que a comparação é forçada ou simplesmente acidental; mas eu tenho a fé que Lynch, mesmo que inconscientemente, fez Mulholland dr. como uma versão distópica proveniente da sua inclassificável mente do clássico de Billy Wilder- Sunset Blvd.Recapitulando a obra do irónico realizador polaco, o título reporta a uma rua, onde mansões imensas se ordenam em fila nas
suas laterais e num destes palácios vive a anciânica estrela do cinema mudo: Norma Desmond (Gloria Swanson, que curiosamente na altura passava por uma muito má fase da sua vida, sendo este o filme que a projectou de novo para a ribalta, assim como ansiava a sua personagem). A par disto temos um narrador ácido corrosivo que é argumentista numa cidade que corta as esperanças de qualquer um (Los Angels) e num período difícil, fugindo aos homens de fraque do banco esconde-se acidentalmente na casa de dita diva. Daqui cresce um sub-plot de paixoneta com uma doce rapariga e uma relação insana entre a velha gárgula e o moço fútil que se deixa levar pelos facilitismo que a riqueza da dita senhora lhe proporcionam. Tudo começa com um homem morto numa piscina todo o filme pretende explicar como é que se chegou àquela situação.No fundo o filme é uma perspicaz crítica a uma industria que usa-e-deita-fora as suas estrelas e que são os amigos dos amigos, as cunhas dos conhecidos e os interesses que levam ou não ao sucesso.
Quanto a Mulholland dr. pouco se pode dizer, não esqueçamos que se trata de um filme de Lynch o que, por norma, é sinónimo de inclassificável, indescritível, irrepetivel e mais uma série de palavras começadas por 'i'; podem no entanto consultar a sinopse do IMDB que está especialmente completa.
Agora vejamos:
- Os dois filmes tem como título o nome de uma rua de L.A.
- Ambos mostram a porta da Paramount.
- Ambos os filmes começam com um acidente donde resultam mortos: Sunset Blvd começa com a morte do nosso personagem principal, e o Mullholand dr. começa com um estrondoso acidente em que só sobrevive a nossa personagem principal.
- Ambos acidentalmente aparecem em casas que desconhecem e são bem recebidos pelos seus habitantes, em ambos os casos actrizes pelas quais se vão relacionar amorosamente.
- Ambos os filmes criticam o sistema Hollywoodiano das produtoras, Wilder mostrando a hipocrisia e futilidade, Lynch através de uma personagem como que cabecilha que controla tudo como se de um mafioso se tratasse e ainda associando aos directores das produtoras americanas uma dose de insanidade aceitável - cena do café.
- Nos dois temos um personagem secundário que é um realizador famoso (De Mille fazendo de si mesmo e Justin Theroux fazendo de Adam) que são tentados a colocarem actores que não querem em determinados papeis ou a fazer filmes que não querem.
Semelhanças - XXIII
4.17.2009
4.16.2009
Isto é só uma opinião

Antes de dizer o que quer que seja, aconselho lerem este post do blog In a Lonely Place, apesar de não reflectir na totalidade a minha opinião aproxima-se até certo ponto, pelo menos na utilização da palavra 'seca' (leia-se chato, cansativo e não ressequido e desidratado) como descritiva do filme em questão.
Na altura da estreia de Honra de Cavalaria dirigi-me ao cinema com grandes expectativas, derivadas maioritariamente de uma muito boa recepção do filme por parte da crítica. Vi o filme numa tarde de verão. Achei que era das coisas mais insuportáveis que alguma vez me tinham passado pelos olhos. Agora aprecio bastante o filme e sou capaz de o recomendar a algum amigo, mas que se esclareça uma coisa: há que saber ao que se vai! Quando vi o filme esperava algo completamente diferente, nunca me passou pela cabeça, que fosse possível fazer cinema daquela forma, ausente de qualquer noção do story-telling; ausente de história; sem nada para contar. Um filme onde nada se passa era para mim uma novidade, muito chata, mas curiosa.
Desta vez quando fui ver O Canto dos Pássaros já conhecia o realizador e o seu estilo, já sabia ao que ia, mas no entanto a memória prega destas partidas e queria-me parecer que Honra de Cavalaria não tinha sido assim tão monótono, ver este filme recordou-me. Em certos momentos tive que fechar os olhos durante os quinze segundos, para ver se aguentava mais uma meia hora com alguma atenção.
Verdade seja dita: ambos os filmes são uma autentica seca.
Verdade seja dita: ambos os filmes são experiências cinemáticas revolucionarias e inspiradoras.
Os enquadramentos de Albert Serra são de uma minúcia tal, que tudo o resto parece ser simplesmente acessório, a sua noção de beleza visual é transcendente. Se Deus existir e fizesse um filme, acredito que seria uma coisa muito próxima deste Canto dos Pássaros.
Há uma proximidade nunca antes vista para com a Natureza, uma sensibilidade pelo meio envolvente e uma noção de cinema nunca antes conhecida.
Serra tem um gosto especial pela humanização, se é possível associar aos seus filmes qualquer tipo de emoção; sente-se que há um gosto por trabalhar os mitos, primeiro foi Dom Quixote e o seu súbdito, agora são os 3 Reis Magos e Jesus, todas estas figuras estão alicerçadas numa cultura ocidental comum a todos os indivíduos e Serra brinca com isso, parte do pressuposto (correcto) de que todos conhecemos as histórias, como mais ou menos precisão, e então filma o que teria acontecido entre os capítulos, entre os episódios, mostra as partes chatas da vida (como lhes chamava Hitchcock) mostra um bando de homens bem vestidos a passearem-se pelos desertos, meio perdidos, mostra-os como seres humanos, frágeis, e não como as figuras mitológicas em que se transformaram.
É meu crer que estas experiências estilísticas de Serra já não são cinema, são outro coisa, mais metafórica e poética, menos popular - como todo o cinema devia ser.
Mas isto é só uma opinião.
4.15.2009
O Poder das Imagens
Já há alguns meses, aquando da vitória de Obama nas eleições presidenciais americanas, fiz uma 'dissertação' (se assim se lhe podia chamar) sobre a influência, quem sabe tenaz, das imagens como veículo de alteração de mentalidades; através da habituação a uma série como 24, com mais de 6 temporadas na altura, e com a divulgação de uma presidente, tão carismático como era o personagem, para o grande público: teve certamente uma influência decisiva na aceitação do que há alguns anos era o impensável - ou por outro lado, e actualizando a questão, podemos imaginar um presidente, ou 'presidenta' homossexual na casa branca? eu acho que não, pelo menos não na próxima década, lá para 2020 a gente fala.
Iniciando aquilo que me dirigiu a este espaço, há uns bons largos dias, os G20 reuniram-se em Londres: muita pompa, muita circunstância e muitos manifestantes.
Noticia noticiada é coisa passada seria o proverbio que inventaria para argumentar que já estou fora do tempo, mas adiante.
Entre os confrontos entre a policia e os manifestantes, entre presos e feridos houve "somente" um morto, que a polícia na altura alegou não estar relacionado com os casos. Passados uns dias, o Guardian publicou um video de um empresário americano onde se mostrava o individuo -agora morto- a passar frente à coluna policial, sendo empurrado quando se tinha virado de costas para a policia e caindo no chão, batendo com a cabeça no passeio, acidente de que veio a morrer. O homem em questão trabalhava nas redondezas e regressava a casa depois de ter trabalhado na venda de jornais durante todo o dia de protestos, não era portanto um perigo e não houve então qualquer motivo para o derrube.
Curioso é agora que depois da noticia ser descoberta, outra fonte de informação audiovisual surgiu, de onde se vê o acontecimento de um diferente ângulo.
Mais curioso ainda seria, se não fosse tão mórbido, que depois da noticia, iniciou-se um processo de avaliação da situação que já penalizou de alguma forma um dos policias envolvidos e continuando numa onda de curiosidade mórbida que o acontecimento trágico segrega, pois então que comece: o poder das imagens é poderosíssimo (pleonasmos à parte), se não fosse a documentação vídeo de um transeunte, a causa da morte de um homem pacato nunca teria sido esclarecida, a imagem deu dignidade à morte (se isso é possível no caso) do dito senhor; por outro lado é também a imagem que retira a dignidade tantas vezes em casos mais do que óbvios nas revistas cor-de-rosa.
Então a imagem é um malévolo Deus de bondade? Uma figura que tanto tem de bom como de mau?
A imagem não tem qualquer qualidade, a sua utilização é que insere na dita uma quantidade infinita de emoções e características específicas da racionalidade (sé essa palavra não é heresia) humana, o manuseamento da imagem é que a torna dignificante ou não.
Num mundo em que a difusão das novas tecnologias é crescente e quase total (em Portugal existem mais telemóveis que pessoas) a captação de imagens é crescente e no futuro, quem sabe, passaremos a ter zonas smoke free assim como image free, quem sabe? tudo depende de quem e como se manuseiam as imagens.
Iniciando aquilo que me dirigiu a este espaço, há uns bons largos dias, os G20 reuniram-se em Londres: muita pompa, muita circunstância e muitos manifestantes.
Noticia noticiada é coisa passada seria o proverbio que inventaria para argumentar que já estou fora do tempo, mas adiante.
Entre os confrontos entre a policia e os manifestantes, entre presos e feridos houve "somente" um morto, que a polícia na altura alegou não estar relacionado com os casos. Passados uns dias, o Guardian publicou um video de um empresário americano onde se mostrava o individuo -agora morto- a passar frente à coluna policial, sendo empurrado quando se tinha virado de costas para a policia e caindo no chão, batendo com a cabeça no passeio, acidente de que veio a morrer. O homem em questão trabalhava nas redondezas e regressava a casa depois de ter trabalhado na venda de jornais durante todo o dia de protestos, não era portanto um perigo e não houve então qualquer motivo para o derrube.
Curioso é agora que depois da noticia ser descoberta, outra fonte de informação audiovisual surgiu, de onde se vê o acontecimento de um diferente ângulo.
Mais curioso ainda seria, se não fosse tão mórbido, que depois da noticia, iniciou-se um processo de avaliação da situação que já penalizou de alguma forma um dos policias envolvidos e continuando numa onda de curiosidade mórbida que o acontecimento trágico segrega, pois então que comece: o poder das imagens é poderosíssimo (pleonasmos à parte), se não fosse a documentação vídeo de um transeunte, a causa da morte de um homem pacato nunca teria sido esclarecida, a imagem deu dignidade à morte (se isso é possível no caso) do dito senhor; por outro lado é também a imagem que retira a dignidade tantas vezes em casos mais do que óbvios nas revistas cor-de-rosa.
Então a imagem é um malévolo Deus de bondade? Uma figura que tanto tem de bom como de mau?
A imagem não tem qualquer qualidade, a sua utilização é que insere na dita uma quantidade infinita de emoções e características específicas da racionalidade (sé essa palavra não é heresia) humana, o manuseamento da imagem é que a torna dignificante ou não.
Num mundo em que a difusão das novas tecnologias é crescente e quase total (em Portugal existem mais telemóveis que pessoas) a captação de imagens é crescente e no futuro, quem sabe, passaremos a ter zonas smoke free assim como image free, quem sabe? tudo depende de quem e como se manuseiam as imagens.
4.14.2009
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