6.30.2009

Mais do que Grandes Expectativas - X

Vencedor do prémio da crítica internacional no ano passado no festival de Toronto, este é a adaptação cinematográfica do livro Disgrace - Booker Prize de 1999 - escrito pelo prémio Nobel (2003) J. M. Coetzee, escritor Sul Africano que neste romance trata a dramática história de um professor Universitário e da sua filha, sofrendo as repercussões de anos e anos de escravatura e Apartheid, numa África moderna mas envolta de racismo e violência.
Recentemente li o livro e devo aconselhar a todos os que me lêem, portanto, é com alguma nostalgia que vejo o trailer e identifico cenas marcantes do romance.
Pena é ter quase a certeza que este filme (que de momento tem 100% no rotten tomatoes) certamente não verá a luz do dia (ou do projector) em Portugal, no entanto o IMDb indica com data de estreia no nosso país dia 1 de Outubro, mas os sites cinema-Ptgate e Sapo-cinema não fazem qualquer referência à película em causa.

6.29.2009

Semelhanças - XXVIII

Malcom McDowell de olhos bem abertos em A Clockwork Orange de Stanley Kubrick


Cruise de Olhos bem abertos em Minority Report de Steven Spielberg

6.28.2009

Des-emocionalização ou como matar a arte pela exposição


Em relação ao mais equilibrado filme de Assayas, L'heure d'été, podemos considerar o domínio, inteligente e sólido, das dramaturgias clássicas do cinema (também) francês, sendo que este [domínio] se afasta deliberadamente (e felizmente) das vulgaridades da tele-ficção. Acabada a minha sentença, que mais parece uma transcrição de um qualquer texto do crítico João Lopes, posso adiantar, que existem dois pontos fundamentais neste filme que merecem alguma atenção:

1. Sendo que a trama se centra em três irmãos (dois irmãos e uma irmã) que decidem as partilhas da casa de campo, anteriormente habitada pela sua mãe e por eles mesmos na sua infância; e que este filme foi proposto pelo Museu d'Orsay para uma curta conjunta com as de outros realizadores, temos um filme singular. Desta vertente museológica do filme surge portanto o aspecto mais interessante do dito: quando um objecto (neste caso uma secretária) é vivido e usado, cresce - da mesma forma que um filme cresce com o seu público - pois desmultiplica-se em perspectivas e memórias, torna-se vivo/orgânico, imortal; no entanto, todo o filme trabalha sobre a ideia da libertação da dita secretária para o dito museu, ou seja, à sua 'des-humanização'. Há um plano oposto ao acima, em que se mostra a secretária exposta como mais uma peça, no meio de tantas outras; morta de significado, simplesmente como objecto exemplificativo da obra de um certo designer, nada mais. Daí o título.

2. Outro aspecto curioso é a forma como o filme termina, isto é, antes da casa ser vendida, os netos adolescentes aproveitam os últimos dias de posse da mesma e dão uma festa dos diabos. Que quererá isto simbolizar? A forma como as novas gerações encaram o passado é numa vertente (unicamente) utilitária, ou será o desprezo pela memória passada, pela marca das coisas, ou seja, o usa-e-deita-fora dos dias de hoje?

Então: a arte ganha pela sua exposição, mas perde pela sua sobre-exposição, ou melhor, perde pela descaracterização das suas origens e ambientes formativos (da mesma forma que um ser humano se perde sem as suas referências) e por outro lado verifica-se a relação que diferentes gerações têm para com os objectos e indutivamente para com a memória. Conseguir um filme tão naturalista como este, uma abordagem tão verdadeira sobre as relações entre gerações é obra.

6.27.2009

Ce petit coup au coeur quand la lumière s'éteint et que le film commence

De 35 realizadores, fizeram-se 33 curtas de 3 minutos que tivessem obrigatoriamente alguma referência a salas de cinema (lugar comum a praticamente todas), sendo que o mote era a comemoração dos 60 anos do festival de Cannes. Na cópia portuguesa, eu não me lembro de ter encontrado a curta dos irmão Coen nem a de Michael Cimino (se alguém souber o contrário, agradeço o reparo). As seguintes curtas são as 5 que eu considero melhores, por ordem decrescente, sendo que a última é simplesmente uma menção honrosa.

At the Suicide of the Last Jew in the World in the Last Cinema in the World - David Cronenberg

Dans l'Obscurité - Irmão Dardenne

Where is my Romeo? - Kiarostami

Occupations - Von Trier

Artaud Double Bill - Egoyan

'Menção Honrosa'
The Electric Princess House - Hsiou-Hsien Hou

P.S.: Ficam ainda os merecidos parabéns para o filme de Oliveira, Van Sant, Moreti, Tsai Ming Liang, Walter Salles e Chen Kaige. No entanto nem tudo são rosas, o filme de Jane Campion e o de Wim Wenders são muito (mesmo muito) a baixo do seu nível.

Imagem Escrita, Palavra Filmada

"(...) Decidiu-se e, impelido por um instinto, bateu à porta. Bateu outra vez. Sentiu abrir a vidraça, e a voz do tio perguntar:
- Quem é?
- Sou eu, tio Francisco, sou eu. Venho dizer-lhe adeus.
A vidraça fechou-se, e daí a pouco a porta abriu-se com um grande ruído de ferrolhos. O tio Francisco tinha um grande candeeiro de azeite na mão. Macário achou-o magro, mais velho. Beijou-lhe a mão.
- Suba - disse o tio.
Macário ia calado, cosido com o corrimão.
Quando chegou ao quarto, o tio Francisco pousou o candeeiro sobre uma larga mesa de pau-santo, e de pé, com as mãos nos bolsos, esperou.
- Que quer? - gritou-lhe o tio
- Vinha dizer-lhe adeus; volto para Cabo Verde.
- Boa viagem.
E o tio Francisco, voltando-lhe as costas foi rufar na vidraça.
Macário ficou imóvel, deu dois passos no quarto, todo revoltado, e ia sair.
- Onde vai, seu estúpido? - gritou-lhe o tio.
- Vou-me
- Sente-se ali! - E o tio Francisco falava, com grandes passadas pelo quarto:
- O seu amigo é um canalha! Loja de ferragens! Não está má! O senhor é um homem de bem. Estúpido, mas homem de bem. Sente-se ali! Sente-se! O seu amigo é um canalha! O senhor é um homem de bem! Foi a Cabo Verde! Bem sei! Pagou tudo. Está claro! Também sei! Amanhã faz o favor de ir para a sua carteira, lá para baixo. Mandei por palhinha nova na cadeira. Faz favor de por na factura Macário & Sobrinho. E case. Case, e que lhe preste! Levante dinheiro. O senhor precisa de roupa branca e de mobília. E meta na minha conta. A sua conta lá está feita.
Macário queria abraça-lo, estonteado com as lágrimas nos olhos, radioso.
- Bem, bem. Adeus!
Macário ia sair.
- Oh! burro, pois quer-se ir desta sua casa?
E indo ao pequeno armário trouxe geleia, um covilhete de doce, uma garrafa antiga de Porto e biscoitos.
- Coma.
E sentando-se ao pé dele, e tornando a chamar-lhe estúpido, tinha uma lágrima a correr-lhe pelo engelhado da pele."

QUEIRÒS, Eça de; in "Contos Escolhido - Singularidades de uma Rapariga Loura", 2ª Edição; Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses; página 58-59

6.26.2009

O mestre é que a sabia toda

Nos dias de hoje, poucos são os filmes comerciais americanos, com resultados visíveis nas bilheteiras, que consigam ser um objecto de arte e, simultâneamente, vendável a uma vasta plateia de indivíduos; podem referir-se Wall.E ou Dark Knight ou mesmo Benjamin Button, mas verdadeiramente há qualquer coisa que sou a estranho quando O cavaleiro das trevas é posto na mesma frase com a palavra obra-prima (sendo que o caso da Pixar se calhar não é o melhor argumento na minha narrativa argumentativa).
Noutros tempos, mais coisa menos coisa, faz já 50 anos, o mestre do suspense estava no auge do seu labor criativo (Stranger on the Train/1951, Rear Window/1954, The man who Knew Too Much/1956, Vertigo/1958, North by Northwest/1959, Psycho/1960, The Birds/1963) fazendo filmes que são marcos incontornáveis na história do cinema e momentos irrepetiveis de perfeição e genialidade, sendo que eram avassaladores sucessos de bilheteira.
A actualidade pauta-se por filmes como o 2º Transformers, o 4º Spider Man, remakes de sequelas de spin-offs, ou então adaptações de monopólio - ou agora do Facebook. Mas mais do que tudo, os filmes de terror são um tiro certeiro nas bilheteiras (Motel, Hostel 1 e 2, Saw 1 ao 5, Sexta Feira 13 incontáveis, Pesadelo em Elm Street, e tantos mais) sendo que estes filmes ignoram o prazer do entretenimento, ou melhor, pervertem-no para o gore oferecido e desmiolado - o plano da perna cortado do Death Proof é uma das mais irónicas e severas críticas à actualidade decadente; diria eu, mas por outro lado é o senhor Tarantino que produz os Hostel - acima de tudo, confunde-se surpresa(leia-se susto) com suspense.
Retomando Hitchcock, este muito bem definiu a diferença entre surpresa e suspense: com a surpresa, os espectadores descobrem algo que não sabiam, com o suspense, os espectadores sabem algo que a personagem não sabe e anseiam por ver como é que a personagem vai reagir à descoberta. O filme que serve de tapete de entrada desta semana (The Man Who Knew Too Much) é disto um exemplo perfeito, Hitchcock lança todos os ingredientes para dentro da forma e ao longo de mais de uma hora prepara o espectador para a (famosíssima) cena da Ópera - a cereja em cima do bolo - sendo que, aí, deixa-se levar e faz com que o seu público espere mais de dez minutos pelo momento fatal, sem usar diálogo algum.

6.18.2009

Posters do Ano - VI

Photobucket
Cold Souls


Pela mão do senhor Miguel Ferreira do Créditos finais, fica aqui o poster (maravilhsos) de um dos filmes sensação de Sundance.

6.06.2009

A Percepção


Várias leis foram produzidas ao longo da evolução da psicologia moderno no século XX, sendo que os Gestaltistas vincaram o seu interesse nessa área; a lei da percepção que nos permite aperceber da continuidade de imagens próximas física e temporalmente (cinema) corresponde à percepção de movimento, capacidade inata e interpretada por tentativa-erro nos primeiros anos de vida.
Assim sendo, a nossa capacidade de compreender uma narrativa filmada (numa televisão, ecrã de computador ou tela) é a mesma que usamos na compreensão do meio envolvente, reagindo-lhe na proporção do estímulo prestado. Assim o cinema apoia-se nas nossas características de espécie e desenvolve-se de modo a que nós tenhamos medo de cenas em filmes de terror, compaixão em dramas ou felicidade em comédias românticas; mesmo que, na prática, o que é percepcionado não passe de um aglomerado organizado de sons e luzes - assim sendo percepcionamos como realidade a experiência cinematográfica pela proximidade sensorial com a realidade (o uso do 3D tornará a experiência ainda mais realista) também ela um aglomerado organizado de luzes e som.
No entanto a normalização da experiência cinematográfica permitiu a utilização de processos anti-natura, nomeadamente a montagem paralela (que implica que o espectador esteja ao mesmo tempo em dois (ou mais) locais diferentes), na utilização do split screen ou na filmagem em panorâmico, especialmente com o Vista Vision e o CinemaScope e mais recentemente com a montagem de video clip em que não se pretende que o espectador compreenda cada frame, mas sim a junção de estímulos como um todo sensorial (o desafio de dar a entender ao espectador um cheiro é coisa megalómana, daí que até Kubrick dissesse que o livro Perfume era infilmável, no entanto Tom Tyker (o realizador do filme homónimo, não julgando a qualidade da dita obra) criou a noção de cheiro pela montagem frenética de imagens - ver a sequência entre os 4:30 e os 6:00 minutos) .
Deste modo podemos compreender que o cinema tem vindo a estimular o próprio indivíduo do ponto de vista ontológico, promovendo a sua adaptação a novos estímulos e à naturalização de certos princípios artificiais (por exemplo a compreensão do campo/contra-campo como forma natural de perceber a montagem), sustentando as novas capacidades nas já adquiridas, assim é natural que um jovem habituado à má qualidade dos filmes caseiros de youtube consiga compreender melhor filmes como Cloverfield e Blair Witch Project, do que um indivíduo habituado a ver Oliveira que se presa pelos planos fixos.
Por muito interessante que se possa achar os processos da mente e a sua relação com o cinema, os estudos científicos reduzem-se a casos particulares e de simplicidade vulgar, quando a coisa fica preta, a porca torce o rabo. Happy-go-lucky foi um caso desses: a linearidade de pensamento levou-me a reduzir o filme à sua mediania, mas outro elemento infectou a equação e a percepção mutou-se, acabei por o admirar profundamente.
Do ponto de vista da percepção visual da narrativa: no filme, nem há grande inovação, nem qualquer dificuldade em compreender e acompanhar a sequência de eventos. Em oposição, a noção crítica (minha) é um caso específico de vulnerabilidade argumentativa, isto é, cada uma das concepções sobre o filme não são sustentadas, como deveriam, em argumentos sólido e casos estruturais, mas sim numa noção geral, volátil e puramente emotiva.
Em relação ao filme em causa, criticou-se a parvalhice da personagem, a vulgaridade com que se abordaram temas de complexidade extrema e ainda para mais a componente verborreica da personagem, Polly, e afins amigas, mas mais que isso, muita gente se irritou pela felicidade da personagem (ainda para mais, estando habituados ao soturnismo de Leigh).
[Há uns tempos James Gray, numa master class que o blog Claquete teve o prazer de divulgar, referia a sua experiência com o (maior) filme de Hitchcock - Vertigo - dizendo que aquando da visualização do mesmo, o filme lhe pareceu descabido, estranho e desconectado de tudo, mas nos dias seguintes e nos tempos que se passaram, ele não conseguia deixar de pensar no filme, e isso teria que querer dizer qualquer coisa em relação ao dito. Hoje em dia (e segundo a sua palavra) é um dos seus filmes preferido].
Longe de mim comparar Happy-go-lucky a Vertigo, mas o que se compara é a influência que um filme pode ter no indivíduo exposto. Happy-go-Lucky aparece-me constantemente no dia-a-dia e veste-se de lição de vida, de guia espiritual - quem me dera ser tão aparvalhado como Polly e ao mesmo tempo tão lúcido e jovial.

Há filmes assim, que quebram as leis científicas.

P.S.:Há um episódio de Dr. House em que uma educadora de infância que nunca se irrita (faz lembrar alguma coisa) aparece, claro que o senhor doutor vai dizer que a felicidade dela é sintoma de uma raríssima doença congénita que afecta o coração e um dos lobos do cérebro, induzindo-a a relaxar em situações de stress. Maldito House e maldito cientificismo!
P.S.:Falar deste filme e não fazer referência ao instrutor de condução ou à professora de dança é um crime, por isso fica feita a referência.

6.03.2009

David Mamet

Se não escrever melhor do que eles improvisam, mais vale ir-me embora