8.13.2009

Male Bonding

Há qualquer coisa naquilo que me encanta profundamente, não é só o entretenimento de uns bons 45 minutos, como é o House ou o CSI ou grande parte da produção televisiva americana. Há ali, naquela forma constantemente irrequieta e grande parte das vezes burlesca (leia-se brejeira) uma verdadeira noção de serviço público. Primeiro porque Boston Legal é a versão televisiva dos filmes de advogado da onda liberal dos anos setenta do cinema americano, sendo que a cada episódio, se batalha por princípios éticos, por ideais, que deveriam ser basilares numa sociedade moderna crescentemente ‘desprincipiada’ (desculpem o neologismo), princípios os quais têm direito a umas alegações finais que são, sem excepção, de estarrecer. Segundo, porque mantendo o seu liberalismo (embora tenha como personagem principal, um tal de Crane (Shatner é grande) que é o mais conservador dos republicanos com todos os defeitos destes [e diga-se também as virtudes]) é profundamente crente numa noção humana muito mais vasta que a concepção normalizada (que a televisão também e 'tão bem' propaga); ou seja, desenvolve-se ao longo de 5 séries a mais terna, complexa e verdadeira relação entre dois homens (sem ceder directamente à homossexualidade): male bounding é o que lhe chamam, eu simplesmente tenho a acrescentar que o machismo dominante de muitas séries (sendo que nesta é simplesmente um acessório qual comic relief) é redutor da complexidade humana e prejudica profundamente a noção de amizade que se vem institucionalizando na nossa consciência social.

Tudo isto, porque num episódio, Crane propôs a Alan (James Spader é grande) que se casassem como forma de legitimarem a sua amizade. Metáfora perfeita.

8.11.2009

Preparando Veneza


Este ano, como sempre, Veneza tem uma grande colecção de filmes, desde grandes realizadores, passando pelo cinema mais comercial e dando espaço às primeiras obras de jovens artistas ou de criadores de outras áreas que não o cinema.
De 2 a 12 de Setembro muitos filmes passarão por Veneza, sendo que este ano o presidente do júri é Ang Lee (na imagem), vencedor do Leão de Ouro por duas vezes com Brokeback Mountain e Lust, Caution.
Como sempre, este é um espaço, onde algumas obras americanas tentam o salto para os Oscars (o qual engrandece se o filme também passar por Toronto), este ano temos a adaptação cinematográfica de The Road (do senhor Comarc MacCarthy - No country for old men), assim como o filme de Michael Moore (Capitalism: The love Story) ou ainda o novo de Herzog, remake do The Bad Lieutenant de Abel Ferrara, que também está em Veneza com Napoli Napoli Napoli (fora de competição).
Ainda dos Estados Unidos temos fora de competição Up (como é sabido este ano, em vez de se homenagear um realizador, a Pixar é a homenageada, daí que haja uma retrospectiva e se exibam as versões em três dimensões dos dois filmes Toy Story). A ajudar à festa temos ainda Brooklyn's Finest do realizador de Training Day (Antoine Fuqua) com Richard Gere, Don Cheadle, Ethan Hawke e Wesley Snipes. The Hole de Joe Dante (realizador de Gremilns e Piranha) estará também presente concorrendo a um prémio especial para filmes com mais uma dimensão. A minha atenção vira-se no entanto para um filme de Grant Heslov que faz a sua segunda longa, no entanto tem já a experiência de ter produzido vários filmes com George Clooney, nomeadamente aqueles que ele realizou (Good Night and Good Luck e Letherheads). O filme conta com a participação de Clooney como protagonistas assim como de Kevin Spacey, Jeff Bridges e Ewan McGregor; uma comédia sobre um militar com poderes para-normais, chama-se The Men Who Stare at Goats.
Continuando no 'país da Liberdade' temos o novo de Romero Survival of the dead ou o novo de Todd Solondz (Life During Wartime).
Por outro lado Veneza acolhe sempre muito bem os filmes italianos (que mais seria de esperar), este ano está carregadinha com: o novo de Tornatore (Baarìa, filme de abertura), La doppia Ora do estreante Capotondi, Lo spazio Bianco de Francesca Comencini e Il Grand Sogno do actor tornado realizador Michele Placido (o actor que fazia de Berlusconi no Il Caimano do Moretti).
O cinema francês aparece com Persécution de Patrice Chéreau (La reine Margot, Intimacy e Son Frère), o novo de Claire Denis (Chocolat e Beau Travail) Withe Material com a belíssima Isabelle Huppert e com o enigmático Bankolé; ainda Mr. Nobody, filme de Jaco Van Dormael (Totó le herós) com Diane Kruger e Jared Leto.
Temos ainda Rivette com 36 Vues du pic Saint Loup ou fenómeno Faith Akin (o senhor de O outro lado) com o filme Soul Kitchen, ou mesmo o novo Tetsuo, desta vez com o subtítulo The Bullet Man do senhor Tsukamoto.
Alguma atenção para um filme em competição, alien absoluto, chama-se A Sigle Man e é realizado por Tom Ford, o designer de moda da Gucci. O senhor decidiu escrever o argumento (adaptado do romance de 1964 de Christopher Isherwood autor de literatura gay e o romancista dos contos de Cabaret que deram origem o filme de Bob Fosse), realizar e produzir o seu primeiro filme que conta com Colin Firth, Mathew Goode e Julianne Moore como protagonistas.
Depois há uma trupe de filmes que estão fora dos meus conhecimentos (e alguns mesmo fora dos conhecimentos do IMDB), entre eles Accident de Pou-Soi Cheang e também da china Prince of Tears de Yonfan, Between two Worlds do Sri Lanka, The Traveller do Egipto, Lebanon de Israel, da Alemanha vem Women without men e da Áustria Lourdes.

P.S.:Rec 2 a sequela do filme de zombie de Jaume Balaguéro e Paco Plaza estará também presente, assim como Chengdu, I Love you (filme de encerramento), do realizador Fruit Chan, segundo o Twitch este é o primeiro filme de ficção científica que se produz na china desde a revolução comunista.

8.10.2009

Semelhanças - XXXIV

Quando uma galeria de espelhos nos mostra a vida -Obsluhoval jsem anglického krále (I Served the King of England) de Jirí Menzel

Quando uma galeria de espelhos nos mostra a vida - Les plages d'Agnés de Agnés Varda

8.08.2009

O Ano da Morte dos Heróis

Deve ser da minha vista, mas este ano tem sido muito prolífico (mais do que é normal) na criação de filmes sobre a decadência dos ícones (melhor dizendo, não terá sido este ano, mas sim o ano anterior, só que, só este ano se estreiam os filmes em causa na nossa praia lusitana), marcados por umas poucas (mais ou menos) excelentes obras: The Wrestler, Che, Watchmen, Gran Torino.
Quando encaramos a destruição pessoal e familiar em The Wrestler a par de uma força esperançosa profundamente inspiradora, ou por outro lado a forma brilhante como Eastwood constrói a partir da sua persona violenta (Dirty Harry) um homem dorido pela vida com a possibilidade social de resiliência (em Gran Torino), ou por outro lado temos ainda a distópica história de Alan Moore adaptada ao cinema por um Zack Snyder que vê todo o mundo em câmara lenta, e por fim temos ainda a construção do mito e símbolo icónico da cultura popular - Che Guevara - e a perfeita desconstrução do mito na segunda parte do épico de Soderberg (há aquela cena em que Del Toro olha, num barco, para Fidel fumando o seu charuto, como se já nada daquilo fosse dele, como se a glória não lhe ficasse bem).

Ponto comum a todos estes filmes: o envelhecimento

Pessoalmente devo admitir que se de alguma coisa tenho verdadeiramente medo é de envelhecer, neste filmes este é um denominador comum (Walt é um veterano da Coreia, Randy é um lutador fora do seu tempo em desgraça tentando ser 'normal', os guardiões são perseguidos pelos políticos como bode expiatória da sociedade, e Che simplesmente é infrutífero em todas as suas tentativas na Bolívia) isto indica duas noção sobre a sociedade de hoje em dia: por uma lado temos a noção de que as figuras míticas são de carne e osso (afastando o seu 'endeusamento') que vivem como nós; mas por outro lado, mostra a consciência de um estrutura social exponencialmente mais envelhecida, em que temas como a aceitação da condição temporal, a noção de esperança em idade avançada ou a compreensão da necessidade de 'fazer as pazes com o mundo', são cada vez mais frequentes e até certo ponto mais populares no cinema de massas.

P.S.: Curioso é que surja também este ano um filme repleto de novos actores, Star Trek, que encara o cinema na sua vertente mais lúdica, mais desmiolada e , portanto, mais imberbe (ou contrário da corrente).

8.05.2009

Um Ano de Cinema(s) - de 01/08/08 a 31/07/09

No ano passado, pelo mês de Agosto decidi apontar os filmes que havia visto e publicar essa lista aqui no blog. Desde então que o hábito se tornou mais do que esporádico, vindo portanto apontando os filmes que vejo há quase um ano. Não sei até que ponto isto possa ser interessante para os que por aqui passam.
A lista de cerca de 190 títulos que povo(ar)am a minha imaginação durante os últimos doze meses fica de seguida, com a respectiva classificação:

Agosto
Tsotsi (5.5)
The Apartment (10)
The Others (7.5)
Lost in Translation (9)
American History X (6)
Mary (10)
Blackmail (7)
Minority Report (10)
La Messa é Finita (6.5)
Casino Royal (7)
HellBoy II (6.5)
Le Grain et le Mulet (8.5)
House of the flying Daggers (8)
Wall.E (9.5)
Happy Together (10)
Crash (Cronenberg) (10)
Do the right Thing (10)
Beetlejuice (7.5)
Get Smart (6)
In Valley of Elah (8)
Sygis Ball (8)

Setembro
Aquele Querido mês de Agosto (10)
Punch Drunk Love (9.5)
Away from her (9)
La soledad (9.5)
Margot at the Wedding (7.5)
Inside Man (9)
Goldfinger (6)
Capote (7.5)
Gomorra (7)
Before the devil knows you're dead (10)
Die Hard 2 (5.5)
Bring Up Baby (10)
Tootsie (6.5)
Serpico (7.5)
Anatomy of a Murder (8.5)
Treasure of Sierra Madre (10)
Young Mrs Lincon (9.5)

Outubro
Chinatown (8)
Some like it Hot (9.5)
Tropic Thunder (8)
I'm not there (9.5)
Blood Diamond (8)
Eternal sunshine of the spotless mind (8.5)
3:10 to Yuma (7.5)
Walk the line (8)
On the waterfront (10)
Ali (9)
Monster (7.5)

Novembro
Burn after reading (9.5)
Quantum of Solace (6)
W. (7)
Entre les murs (7)
Syriana (7.5)
The death of a president (7)
Alice (9.5)
Breakfast at tifany's (10)
Shawn of the dead (6)
We own the night (8.5)

Dezembro
Contos de Verão (10)
Joana d'arc (Luc Besson) (6)
Lust, caution (9)
Cristovão Colombo - O Enigma (6.5)
Coisa Ruim (7)
Golden eye (5.5)
Blindness (9.5)
Frontiere de l'oube (4.5)
Bolt (5.5)
4 noites com anna (8)
Son of rambow (7)
25th hour (9.5)
Hunger (9.5)
Y tu madre también (7.5)
Abre los ojos (8.5)
Australia (9)

Janeiro
3 macacos (7.5)
Dead Man (10)
West Side Story (8)
Mãe e filho (7.5)
K-19 (8)
The break-up (4.5)
Cashback (5.5)
Seven Pounds (5.5)
La cience des rêves (7)
21 gramas (10)
Waltz with bashir (9.5)
The curious case of Benjamin Button (9)
Taking lives (5)
Taste of cherry (9.5)
Revolutionary road (9.5)
Vale Abraão (10)

Fevereiro
Changeling (7.5)
Vicky cristina Barcelona (8)
American Graffity (10)
Requiem of a dream (10)
Little marcian (4.5)
A vida privada de Salazar (tele-filme) (5.5)
Good Will Hunting (7.5)
Verda Drake (9)
Rachel Getting Married (10)
Happy-go-lucky (8.5)
I am Sam (6.5)
Milk (9)
Doubt (8)
The reader (7)
Wallace and Gromit (5)
The visitor (8.5)
Lether Heads (6)
Gosford Park (10)
Jarhead (7)

Março
In Bruges (7.5)
A noiva estava de luto (9)
Paths of Glory (10)
Il buono, il brutto, il cattivo (10)
The wrestler (10)
Man on wire (6.5)
Watchmen (6.5)
Imitation of life (10)
La cienaga (7.5)
Imitation of Life (34) (6)
Tráfico (Botelho) (8.5)
O lugar do Morto (8)
L'heure d'été (8.5)
El cant des occells (8.5)

Abril
Duplicity (5.5)
Slumdog Millionaire (4.5)
Che part 1 (7)
Che part 2 (9.5)
Papillon (7.5)
Sunset Blv. (10)
Lost Highway (8.5)
Mulholand Drive (9.5)
Les Chanson d'amour (10)
Gran Torino (10)
O dia dos desespero (7.5)
Os Mutatntes (10)
Pi (6.5)
La femme de l'aviateur (7.5)
Drugstore cowboy (7)
La niña santa (9.5)
The Elephant Man (9)
Conte d'outoumme (9)
Francisca (5.5)

Maio
This is England (5)
Dernier Maquis (6.5)
Ricky (9.5)
Singularidades de uma rapariga loira (10)
La mujer sin cabeza (10)
Ashes of time Redux (7)
Um Amor de Perdição (8)
Encounters at the end of the world (10)
Strangers on a train (9.5)
THX 1138 (9.5)
Volver (8)
O conto dos crisântemo tardios (10)

Junho
Red Belt (7.5)
The color of money (9.5)
Star Trek (5)
Dogma (4.5)
Milagre segundo Salomé (7)
Breaking the waves (10)
Orpheu Negro (6)
The fly (9)
The man who knew too much (10)
Pranzo di ferragosto (6.5)
Chacun son Cinema (7.5)
Let the right one in (9)
Casa de Lava (7.5)
Splendor in the Grass (9)

Julho
The nutty professor (lewys) (7)
New York, New York (9)
Control (10)
Children of men (9.5)
Shootgun Stories (7.5)
Home (Meier) (9.5)
Incendiary (7)
Tesis (8)
Brüno (7.5)
Lawrence of Arabia (10)
City of Ember (6.5)
The Great Escape (8)
Pursued (9)
The African Queen (9.5)
Daguerreotypes (10)
The Lusty Men (9.5)
Five Minutes of Heaven (8.5)
To Have and to have not (10)
Transsiberian (7.5)
Les Plages d'Agnés (9.5)
Home from the Hill (10)

7.28.2009

Semelhanças - XXXIII

Rato-Homem por Resnais em Mon Oncle D'Amérique

Coelho-homem por David Lynch em INLAND EMPIRE

7.27.2009

Já repararam que se prevê para este ano a estreia de pelo menos 6 curtas nacionais em sala?


Depois de 3x3 (Nuno Rocha, prémio da Zon, acompanhava o Slumdog Millionaire), de A Felicidade (Jorge Silva Melo, correntemente em exibição com o novo filme de Agnés Varda) e de Rencontre Unique (Manoel de Oliveira, integrado no filme dedicado aos 60 anos de Cannes), espera-se a nova curta de Pedro Costa (Ne Change Rien); a obra vencedora da palma, pelas mão de Salaviza - Arena- e claro o vencedor nacional das curtas de Vila do Conde: Canção de Amor e Saude de João Nicolau; sendo que os três últimos tiveram todos presentes na última edição do festival de Cannes, quer na Quinzena dos Realizadores, quer na secção competitiva.

Apesar de não haver muitas certezas, certo é que a película vencedora de Plama de Ouro e do prémio do indie terá estreia garantida (mas segundo o jpn isso não está assim tão certo, segundo ao dn as coisas são menos dramáticas). O filme de Costa, segundo o que li, acompanhará o nova longa de João Pedro Rodrigues (Morrer como um Homem), quando esta se estrear em 5 de Novembro (segundo a distribuidora Midas), sendo que já tem estreia assegurada para os EUA, França, Espanha, Japão, Áustria, Suíça e Argentina. Quanto ao filme de João Nicolau, segundo o que percebi, terá uma exibição diferente do que é normal, ou seja, terá sessões próprias a custo reduzido uma vez por dia, como se fosse uma longa; a ver vamos de resulta!

Podem consultar a Lista de filmes portugues apoiados pelo ICA em 2009, onde se encontram todas as longas (algumas ainda por estrear) e dezenas de curtas portuguesas.

A par da produção nacional, este ano terá ainda, para além dos filmes de conjunto Chacun son Cinema (do qual já aqui falei) e New York, I love You (versão americana de Paris, je t'aime), a habitual curta da Pixar (Partly Cloudy) e uma outra curta animada (A Maior flor do Mundo, curta espanhola narrada por José Saramago, que acompanha a longa De Profundis a estrear esta semana).

Que eu me lembre no ano passado não estreou uma única curta portuguesa nas salas e quanto às estrangeiras só me lembro de Presto (com WALL.E) e Hotel Chevalier (com Darjeeling Limited), em oposição, este ano, se contarmos com os filmes de conjunto, passarão pelas nossas salas perto de 48 curtas.

Então, que podemos concluir desta enchente informativa? Creio que a resposta seja uma das quatro opções seguintes.
  1. Tudo se trata de um fabuloso alinhamento estelar do Universo que permitiu que todas as circunstâncias se reunissem de modo ao que 2009 seja um dos anos mais favoráveis à produção de curtas portuguesas
  2. Produzem-se mais curtas e melhores em novas produtoras, mais jovens e ousadas, permitindo um progressivo melhoramento do panorama nacional deste tipo cinematográfico
  3. Existem mais e melhores distribuidoras, com ideias frescas e com a audácia de conceder o mesmo estatuto de um filme (dito normal) a uma curta metragem.
  4. Todas as anteriores
P.S.: Ne Change Rien não é uma curta mas sim um documentário de 97 minutos, peço desculpa pela informação incorrecta.

7.26.2009

Boa Sorte

O homo-erotismo sempre foi uma constante na obra de Nicholas Ray, assim como de muitos realizadores do período clássico americano (Imitation of Life tem uma cena em que as duas protagonistas conversam placidamente na mesa da cozinha, mas todo o ambiente e a própria forma de dirigir de Sirk seguem todos os parâmetros de uma magistral cena de paixão). Sempre de forma muito dissimulada, está claro, sempre se deram a entender coisas ao espectador, mesmo que se o fizesse da forma mais pura, sem qualquer sombra de perversão.

The Lusty Men com Robert Mitchum e Arthur Kennedy é um caso mais do que óbvio: por uma lado porque Ray, desde o princípio criou um personagem másculo e sábio (Jeff/Mitchum) e por outro lado um homem já adulto, mas profundamente infantil, que vê no primeiro tudo aquilo que ele idolatra (Wes/Kennedy). Claro é como água, que desta relação de amor, pouco poderá fruir, ainda para mais quando se cria o triângulo amoroso entre a mulher do segundo e o nosso vaqueiro, Jeff. A subversão é máxima (às vezes até me dá vontade de ser nostálgico em relação à censura, mas é coisa que passa depressa), pois chega a ter ciúmes da própria mulher, por esta (sempre fiel ao seu marido) ser cobiçada por Jeff - objecto do seu desejo proibido (?) - ciúme que vira em ódio ao cobiçador pelo desprezo deste, numa genial sequência (como escreveu Bénard da Costa: ”uma sucessão de planos de estarrecer”), a da festa, que termina em beijos (entre Jeff e a Louise) e posteriores socos (entre Jeff e Wes).

Tudo isto para que a trama venha a culminar poucos minutos antes do final com uma troca de olhares, que deveria fazer parte dos livros de história, em que antes de Jeff fazer o seu regresso ao rodeo, Wes olha-o com verdadeiro Amor e lhe deseja boa sorte, soltando o mais terno dos sorrisos. Uma cena de estarrecer.

Semelhanças - XXXII

Ponyo no balde em Ponyo à beira mar (Gake no ue no Ponyo) de Hayao Miyazaki

Enguia no balde em A Enguia (Unagi) de Shohei Imamura


P.S.: Agradeço a Álvaro Martins (Preto e Branco) pela imagem de Unagi

7.25.2009

O Teatro do Quotidiano


Eram os anos 70, ciclo da cinemateca, vem passando filmes desde Chinatown até A Morte em Veneza, passando por Tout va Bien e também por Daguerreotypes, este último, filme da senhora da Nouvel Vague, Agnés Varda. Por golpe de sorte ou simplesmente (e mais provável) mestria na programação, a exibição do filme foi feita exactamente na véspera da estreia do novo filme de Varda nas salas (Las Plages de Agnés, do qual já aqui apresentei o belíssimo cartaz). Como se pode ler esta semana no Ípsilon, esta imperadora do cinema d’autor tem para além da sua faceta (inicial) como criadora de experimentações ficcionais, uma longa e idolatrável carreira na área documental do cinema, da qual, Daguerreatypes se destaca (não esquecendo que a realizadora recebeu um novo empurrão, faz 9 anos, aquando de Os Respingadores e a Respingadora, que lhe restituiu o estatuto de figura maior na cinematografia mundial).

Esta obra ‘documental’ sobre os comerciantes que trabalham na rua onde Agnés vivia (rua Daguerre) é isso mesmo, um ‘documentário’ com aspas. Filme verdadeiramente pessoal (como grande parte da obra desta senhora) que se delicia (e a nós também) admirando as pessoas por si e pelas suas formas de lidar com a câmara. Cria-se uma estranha forma de realidade ficcional, de um certo pousar; ou mesmo a posição inibitória do filmado para com quem filma e daí surge o dito teatro do quotidiano. Representa-se a naturalidade! do mesmo modo que se representam na vida as relações interpessoais.

Cheio de um genuíno gosto pelo desconhecido, a curiosidade de Agnés por cada um dos seus vizinhos cria uma terna criação social, até certo ponto com laivos de sociedade (trabalhadora) perfeita, em que tudo funciona na perfeição, mas onda cada um mantém a sua identidade única e irrepetível, sem nunca sequer se pensar em estereotipar quem quer que seja pela sua origem, educação ou anseios para o futuro.

Mas mais do que tudo, o filme (e quem o fez, suponho) acredita na dedicação para com a rotina, o hábito, o quotidiano; chega mesmo a injecta-lo de uma certa dose de magia e ilusionismo, montando a transformação de água em vinho por um mágico, a par da transformação do massa em pão pelo padeiro; ou o número em que a assistente do mágico fica sem cabeça, a par dos conselhos do instrutor de condução, que avisa os educandos para não perderem a cabeça no exame. Há um olhar quase infantil por detrás daquela câmara, que encara cada objecto, cada acção ou pessoa como se fosse a primeira vez e última, há ali, naquela película, que pouco mais tem que 80 minutos, um desejo de descobrir as coisas e conservá-las para sempre, com a sua pureza e a candura naturais.

E claro, com todo este descrever minucioso dos outros e das coisas, Varda acaba por se descrever tanto a si como ao seu cinema e eu agradeço gentilmente tê-lo feito tão bem.