11.13.2009
11.12.2009
11.11.2009
11.06.2009
Imagem Escrita, Palavra Filamada - II
"Sei, todos nós sabemos, como pesa o tempo vencido sobre quem se aventura a recompô-lo. É um eco a sublinhar as palavras, uma ironia que nos contempla de longe, um aviso. Se alguém (em narrador em visita) rememorava a seu gosto (e já vê no papel, e em provas de página, e talvez um dia em juízos de Crítica) o final duma mulher que é de todos conhecido e que está certificado nos autos; se se apega a um punhado de notas tomadas em tempo por desfastio, e se mete agora a entrelaçá-las e a descobrir-lhes uma linha de profecia, então esse alguém necessita de pudor para encontrar o gosto exacto, a imagem exacta da mulher ausente. Necessita de discutir consigo mesmo, à medida que recorda, e assim fá-lo por respeito, pela condição de homem em face da distância e da ausência, É, considero aqui, um ofício delicado contar o tempo vencido. Pela mesma razão se, navegando na minha cama sobre um vazio de carunchos a sussurrar, eu assisto ao Engenheiro anfitrião descrevendo a mulher-pega, a mulher-codorniz ou outra qualquer e penso na senhora da lagoa- que não cabe em nenhuma dessas classificações, evidentemente- cumpre-me prestar bem o ouvido às palavras e repeti-las como uma testemunha que vai ditando ao escrivão, fiel à sua consciência e ao seu juramento. uma testemunha que procura o rigor para não macular covardemente o retrato que se reflecte nele, Tomás Manuel. E que tudo fique conforme, e que no interesse da verdade seja lido e assinado, Gafeira, tantos de tal, em viagem com o Engenheiro pelas águas da lagoa."Primeiros dois parágrafos do vigésimo sexto capítulo (b) de "O Delfim" de José Cardoso Pires, adaptado ao cinema em 2002 por Fernando Lopes
P.S:Esta é a essência da escrita de Cardoso Pires, um comprometimento com a realidade, tão ciente de si que lhe permite incorrer na ficção.
11.03.2009
10.31.2009
A Potent and Lethal Addiction

Perspectivando os filmes de Bigelow, temos entre muitas outras temáticas - a testosterona que é basilar em todos os seus personagens principais, e a adrenalina que compõem algumas das mais extraordinárias cenas de acção da história do cinema; mas há um cerne ideológico: o cinema de Bigelow é fundamentalmente masculinizado, há uma noção transversal de companheirismo (sendo que se torna paradoxal que uma mulher tenha no seu cinema estas características que faltam a tantos outros homens-realizadores). Tomando os filmes que dela vi, tenho: Near Dark, Strange Days, Point Break, K-19 e agora The Hurt Locker; é directa a relação que se pode estabelecer entre os ditos, em todos se criam situações de internalizações de indivíduos em grupos muito fechados: no primeiro temos um recém tornado vampiro que tenta mostrar aos parceiros que é capaz de cumprir as regras do clã, depois temos um filme sobre as margens de uma sociedade, renegadas pelo preconceito, no terceiro temos um gangue de surfistas e a recepção de um novo membro, em K-19 temos um novo capitão a comandar um submarino, fazendo por merecer os respeito dos seus homens e agora também um novo sargento que se tem de integrar numa brigada anti-minas.Bigelow é a primeira a dizer que não existem filmes sem consciência, que o entertenimento desmiolado não é cinema; para ela, se um filme não tem algo mais que explosões (e os dela costumam ter algumas) então nem valem a pena; e justiça seja feita:Bigelow, em todos os seus filmes, melhor ou pior, criou uma noção muito particular e simultâneamente única e universal da humanidade, em todas as suas singularidades, sem que com isso deixasse de fazer cinema de género, verdadeiramente inteligente e profundamente humanista.
Quanto a The Hurt Locker, é certamente um dos filmes de guerra mais brilhantes, sem qualquer pinga de ideologia política ou maneirismo de esquerda ou direita; um filme que se basta a sim mesmo pelos seus personagens e pela história que tem a contar (sem morais, conselhos, dicas ou denúncias). Mais uma vez surge o paradoxo, pois é com um filme como este, sem piscadelas a quadrantes nenhuns, que se prega o pacifismo mais puro e utópico. Porque, percebamos uma coisa, a Guerra, segundo este filme, é uma doença (mental).
Há uma cena, já no fim que concentra toda a americanidade, num plano: quando o sargento regressa aos States, qual é o primeiro lugar onde o encontramos? um super-mercado (claro está), símbolo maior da decadência ocidental e até certo ponto, peça explicativa na compreensão psicológica da dependência à acção, coisa mortiça no marasmo do quotidiano.
Os senhores do Público diziam que este é um filme com músculo, eu concordo, mas acrescentaria: este é um filme do caralho.
P.S.: Tenho só a acrescentar que Stange Days é um dos filmes mais subvalorizados da história do cinema, de uma acutilância social, sumo perversor dos géneros em que se constroi.
10.29.2009
10.27.2009
10.25.2009
Dar as Mãos é Entrelaçar os Dedos
Miyazaki é um senhor que me faz confusão! porque de todos os filmes que dele vi (Totoro, Mononoke, Chihiro, Howl e Ponyo), nunca conseguiu fazer mal, nem se quer cambalear um bocadinho ou desequilibrar-se para o mau gosto.É sempre de um primor técnico arrepiante (mas profundamente crente na narrativa em detrimento do perfeccionismo técnico - anti-3D), de uma singularidade autoral (em que qualquer segundo de um filme seu é instantaneamente reconhecível), de uma candura poética e de uma eterna infantilização, muito consciente da vida adulta (basta lembrar que todos os seus filmes são sobre a família e as suas atribulações naturais - e sobrenaturais).
É incrível como um filme consegue ser compreendido por uma criança de 4 anos, e ter pelo meio a questão ambiental, as relações humanas e as famílias em convulsão e ainda uma belíssima história de amor, tocar a questão da velhice, ter cenas mais emocionantes que muitos filmes ditos de acção e até certo ponto usar as metamorfoses de Ponyo como metáfora para a adolescência. Momentos ficarão para a história como irrepetíveis, a discussão conjugal em Morse é das peças mais subversivas (subversivo também é o plano dos peixes a circularem na estrada), ou a candura que está nos primeiros momentos de Ponyo em terra, em especial quando prova o chá com mel.
Mas é a consciência humana, a singularidade intrínseca de cada personagem que constrói este filme; são as relações humanas: representadas por três planos em que se dão as mãos, um primeiro em que Sosuke segura a mão de Ponyo como sinal de segurança, um segundo em que a mãe segura a mão da Deusa em sinal de gratidão, ou ainda quando o pai de Ponyo dá um belo 'passou-bem' a Sosuke como sinal de esperança. Três momentos, grandes planos das mãos entrelaçadas, sinal de Humanidade e de Paz.
P.S.:Continua-me a fazer impressão como é que um ser humano pode alcançar tal nível de perfeição artística e humana.
10.22.2009
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