4.05.2012

Semelhanças - CX

Rear Window (1954) de Alfred Hitchcock [cena]


Arena (2009) de João Salaviza [curta]

É curioso reparar como de facto a proximidade entre as duas imagens acima não é meramente acidental. Vendo ambos as hiperligações indicadas percebemos que quer Salaviza quer Hicthcock percebem que podem, num plano definir um passado. Hitchcock prefere um plano sequência que apresenta o protagonista, depois o seu estado (de enfermo) depois a sua profissão  (pela câmara fotográfica), o acidente que se deu pelo seu trabalho na fotografia de eventos desportivos. Salaviza, prefere o plano fixo, mas dá-se o mesmo: conhecemos o nosso homem, depois ele deita-se e tomamos conta do seu estado (de prisioneiro). Curioso é também percebermos como o facto de estarem incapazes de se ausentar de casa se traduz num efectivo grilhão (de gesso ou electrónico). 
[estou muito expectante para ver as últimas duas curtas do Salaviza no indie (Rafa e Cerro Negro), e há ainda uma outra a passar no Panorama (Strokkur)]

4.04.2012

Semelhanças - CIX

 42nd Street (1933) Lloyd Bacon

 
Pina (2011) de Wim Wenders

o artista como miniatura, o palco como o mundo inteiro

3.30.2012

Abril, àguas mil

Os meus colegas peticionários anunciaram, há já quase uma semana, que as noites de cinema da Rtp2 estavam de regresso com a saudosa rubrica 5 Noites, 5 Filmes. Eu fiquei alegre. Muito alegre. Este era um dos objectivos fundamentais da nossa petição, o regresso da exibição REGULAR de cinema na Rtp2. Mas como já sei o que a casa gasta, resolvi esperar até que a programação da segunda semana de Abril saísse, de modo a confirmar que esta opção da direcção do canal não era resultado de um desejo aleatório de passar filmes. Confirma-se portanto que é para durar. [parece que afinal era só por causa das férias da Páscoa]


Começando Abril, temos uma colecção de 5 filmes sobre a juventude (para simplificar as coisas), um dos quais já exibido na rtp2 no último mês de Dezembro, a propósito de um ciclo dedicado aos vampiros - Let the right one in. A segunda semana será mais difícil de classificar, mas podemos encará-la como um ciclo dedicado à importância da preservação da imagem no compreensão do presente e do passado, com filmes ensaio como This is not a film (já exibido também, numa sessão dupla), Film Socialism, ou Autobiografia de Nicolae Ceausescu. A acompanhar estas 5 noites temos uma sessão dupla com um filme de Olmi (a propósito da retrospectiva que festa do cinema italiano, a cinemateca e Guimarães organizam sobre o realizador) e Noites Brancas, filme recentemente editado em dvd. No fim-de-semana anterior, talvez devido ao sucesso de Hunger Games, é exibido Pleasentville (também já passou pelo canal) do mesmo realizador, e Ben Hur, talvez a fazer parelha com as romanadas que a RtpMemória insiste em repassar todos os fins-de-semana.
O que se percebe é que embora a vontade seja significativa (de passar filmes, de os passar com lógica, de passa-los ainda frescos, de o fazer em parceria com os festivais que se organizam, e reflectindo o que se vai passando no mundo) há coisas que ainda não estão totalmente oleadas na engrenagem do canal.
Por exemplo, durante todo o mês de março, as quintas feiras forma espaço para documentários portugueses, entre os quais Bobby Cassidy e O meu amigo Mike ao trabalho (ambos já exibidos noutros devaneios programativos) mas com o início das 5 Noites, 5 Filmes, esse espaço, que certamente ia ganhando espectadores, desapareceu. Outro caso é por exemplo a estreia do semanário dedicado à literatura - Mar de Letras, que será exibido ao Domingos pelas 7 da manhã (o segundo episódio terá como convidado Miguel Gomes a propósito de Tabu). Outro caso semelhante é a exibição da série sobre músicos - Bravo - nas madrugadas de sexta.[está às madrugadas por ser já repetida]

Se de alguma forma se depreende que a direcção do canal deu ouvidos àquilo que pedíamos (ainda que de forma tão desgarrada do ponto alto da nossa petição que dá a sensação que quiseram dar tempo ao esquecimento) há um aspecto, que vejo como fundamental, que não foi abordado (e não parece que venha a ser). Ele é: a contextualização do filmes exibidos e um desejo de ensinar cinema, programando filmes que não tenham estado em sala nos últimos anos.

3.24.2012

Semelhanças - CVIII

 A Fish Called Wanda (1988) de Charles Crichton

Ace Ventura (1994) de Tom Shadyac

Não se brinca com a comida...

3.23.2012

Houve hoje um acidente em Tondela com um autocarro de transporte escolar. As televisões fizeram notas de roda-pé coloridas a avisar da proximidade do facto e da sua gravidade, pouco depois das 8 da noite os três canais noticiosos portugueses informavam respectivamente:

SicNotícias: 1 morto e 13 feridos
RTPInformação: 10 Feridos
TVI24: 2 feridos graves e 7 ligeiros

Mais tarde a notícia ganhou relevo de comunicação verbal, onde se anunciava (na SicNotícias) que o resultado de mortos e feridos era 1 e 13, embora a legenda corrigisse para 12 o número de feridos.

O que isto revela é que numa inabalável cede de noticiar - Última Hora - os jornalistas tentam criar facto jornalístico pelo colorido do quadro que envolve a imagem, fazem-no porque são modernos, desta época em que o agora vale mais que tudo. Imediato, sim, já. E cometem-se os erros da mais vulgar incompetência só com vista a alcançar essa marca da audiometria televisiva. Enfim, há que saudar o Público por compreender que a informação ruidosa e imediatista pode passar a viver neste meio, por vezes peçonhento, que é a rede e o jornalismo fica para os espaços de confiança, o papel (e a televisão?).

3.20.2012

Maria Bonita, de olhos extraordinários, casada com um sapateiro, Maria Bonita tinha simplesmente mandado dizer a Lampião que, mesmo sem nunca o ter visto, o amava até à locura.
Intrigado, Lampião apareceu um dia, acompanhado do seu bando na casa do sapateiro, e Maria Bonita, ao abrir a porta e ver quem era, disse em voz alta para que não houvesse dúvida sobre as suas intenções:
- É a ele que eu amo. - E dirigindo-se ao estupefacto Lampião: - Tu me quer levar?
- Eu quero o que tu quiseres, Maria Bonita.
Petrificado e mudo, descrendo os seus olhos, o pobre sapateiro viu a mulher encher dois sacos com roupa, enrolar um cobertor e finalmente, atentando nele, dizer-lhe por única despedida:
- Adeus, José.

Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia - A Aranha, J. Rentes de Carvalho, Quetzal, 2011

3.18.2012

A recusa do susto, a alquimia horrífica e o riso como catalisador do medo

Sobre The Innkeepers há muito que falar, o Luís já iniciou um primeiro tomo (fico à espera dos próximos), eu proponho-me a falar de três aspectos que são fundamentais (e fujo desse outro que é tão mais importante que estes que agora vou tratar: o trabalho do som); eles são, um, a utilização irónica dos sustos, dois, a alquimia horrífica, que transforma o temor em pânico, três, o riso como elemento catalisador do medo.

Ti West começa o filme logo com um susto. Uma brincadeira à lá Paranormal Activity, coisa que a moça diz ,e com todo a razão, que se trata de uma enorme parolice de adolescente pateta (o realizador-produtor-argumentista-montador a falar pelas suas personagens). Os outros sustos, aqueles que nos fazem saltar o coração para fora do peito são sempre sustos por acidente. Ele a aparecer sem querer assustar ninguém, mas assustando. Ou seja, o jump scare é aqui resultado de desentendimentos. Nunca têm como função prosseguir a narrativa, são válvulas de escape, para ver se o espectador se aguenta até ao fim sem lhe dar uma suripampa. Aliás, sempre que um fantasma entra em cena, quer seja a morta quer seja o morto, aparecem primeiro no enquadramento antes que ela os possa ver, ou seja, o espectador já sabe que o susto se aproxima e por isso não se assusta.

West faz aqui (e ao que parece, nos seus outros filmes, que eu não vi) um exercício sobre essa coisa que é transformação do temor, do receio, do medo em coisas mais destruidoras como o pânico e o horror. Isto é, West desenvolve aquilo que são simples desconfianças, coisas tão naturais como recear um ranger de portas ou uma corrente de ar, em algo tão perturbante que difilmente nos sentimos intactos no final da projecção. Então o que West está a dizer é que o mal não existe por si só. O mal como força destruidora é coisa ausente dos seus filmes. Ele diz-nos que o mal é resultado de um crescendo. Uma alquimia, que do nada se faz visível. Ninguém no filme vê a morta para além dela. É ela que se tranca no escuro. É ela a causadora da sua morte, ao colocar o cadeado na porta da cave. É ele que se enclausura com aquilo que ela mais receia. Enfim, West sabe muito bem isto e daí a grandiosidade do último plano (a imagem): a câmara desliza para dentro de um quarto do hotel e fica lá, à porta a mostrar-nos que não há nada. Nada. E depois a porta fecha-se num estrondo. (uma corrente de ar ou espírito de uma morta?)

O riso é finalmente a coisa mais extraordinária que por aqui se passa. Acho que nunca, talvez me engane, se fez um cinema que equilibra-se o puro horror, aquele que nos leva a desejar sair da sala por ser insuportável, e ao mesmo tempo um humor delicioso. A este propósito temos aquela que é a primeira fase da espiral mortal que conclui o filme. Depois de uma conversa romântica os casal dirige-se à cave para inspeccionar os espíritos. Enquanto ela está encantada com o mundo paranormal, ele está petrificado, e sempre que ela se excita com um barulho, uma luz, uma corrente de ar, ele guincha baixinho e acagaça-se mais um pedacinho. E nós? Estamos ali, sem saber se devemos achar graça à situação, ou fugir como ele tanto deseja. Talvez West tenha encontrado um constrangimento físico no ser humano, este de ter de lidar, em simultâneo, com emoções tão dispares e fundamentais: o riso e o medo. E talvez por isso, The Innkeepers seja um feito maior que o homem que o fez.