7.05.2012

Semelhanças - CXIV

Top Secret! (1984) de Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker

- Listen to me, Hillary. I'm not the first guy who fell in love with a woman that he met at a restaurant who turned out to be the daughter of a kidnapped scientist, only to lose her to her childhood lover who she last saw on a deserted island, who then turned out fifteen years later to be the leader of the French underground.
- I know. It all sounds like some bad movie.
[Long pause. Both look at camera]

Jay and Silent Bob Strike Back (2001) de Kevin Smith

-So all we's gotta do is stop this fuckin' movie from getting made!
-Yeah, and forego the hundreds of thousands of dollars you would be entitled to in the process. What are you, fucking retarded? I mean, I don't think I'm alone in the world in imagining this flick may be the worst idea since Greedo shooting first. You know it, but... a Jay and Silent Bob movie? Feature length? Who'd pay to see that?
[look into the camera

a consciência do mau ou o quebrar da quarta parede

6.24.2012

O sexo é bem de consumo no sentido em que um pastel de nata é para comer

Esqueçamos que Cosmopolis é um filme do senhor Cronenberg (não que não tenha dentro de si a mão do realizador), e pensemos no filme apenas como objecto singular, esqueçamos o percurso que os filmes do realizador vinham traçando e encaremos de frente o filme por si e em si. Esqueçamos também toda a cangalhada financeira, mais ou menos preditória dos tempos de hoje. Feito isto encaramos um filme sobre essa coisa tristíssima que é a impotência e a forma como esta pode (ou não) ser tolerada num mundo da satisfação imediata dos desejos. 

A personagem de Pattinson a certa altura diz, vamos comer e conversar que é isso que as pessoas fazem. As pessoas comem e falam, certo, eu sou uma pessoa e como e falo. Mas a frase seguinte que sai daquela boca é, quando é que voltamos a fazer sexo. Lá está, as pessoas para além de comer e falar também fodem.
Estes são os três pilares da humanidade, identificados assim de um repelão. Mas o que se torna curioso é percebermos a forma como uma estranha dança se desenrola em torno dos pilares. Ele, o Pattinson, com a namorada come e fala, mas não fode, aliás ele anda-lhe sempre a pedir por mais uma. Com as outras ele não come, só fala e fode. Como se não pudesse ser compatível o comer e o foder com a mesma pessoa. Mas mais engraçado é reparar noutro aspecto: sempre que ele fode perde uma peça de roupa. Primeiro é a Binoche e lá vai a gravata, depois é uma mocinha e lá vai o blazer, como se o sexo envolvesse uma compulsória perda. O sexo como investimento, toma isto, mas dá cá isso. Aliás, ele a certa altura diz, eu não quero fazer sexo, eu quero ter sexo. O sexo como objecto de comércio, mas muito longe da prostituição, não há aqui um metier, uma profissionalização, o sexo é bem de consumo no sentido em que um pastel de nata é para comer.

Mas a coisa adensa-se, e a simbologia sexual vai se tornando cada vez mais destrutiva. Aparece uma arma, um canhão de bolso (faz-me lembrar a Lídia Jorge que escreve espingarda de carne), uma arma tão destrutiva que é feita de encomenda para o guarda costas do nosso protagonista, um mimo, activada pela voz do seu utilizador, unicamente activada desta forma. Pattisson pede-lhe (ao guarda) que active a arma. Depois dispara sobre ele, como se abatesse um boi. Há aqui algo de profundamente trágico, porque aquele arma portentosa, ao matar o seu único utilizador perde o seu propósito, deixa de servir. Uma arma que ao fazer aquilo que é suposto fazer, matar, destrói-se. Uma arma com um só tiro. Um objecto condenado à partida à inutilidade, apesar da sua tecnologia de ponta. Da mesma forma a pesonagem de Pattinson é uma inutilidade em potência, mas ele toma noção disso, sabe-o sem poder confirma-lo. Giamatti a certa altura diz, eu sinto os meus órgãos sexuais a serem absorvidos pelo meu corpo, não preciso de ver, eu sei. Pattinson sente essa mesma queda anunciada, essa impotência crescente, espelhada nessa impossibilidade de tornar formal as movimentações do ioan. Mas o grande alto de tudo isto é o próprio tiro na mão. Numa tentativa de auto-preservação ele destrói-se. Aquele tiro na mão é uma tentativa in extremis de se impedir de masturbar, porque ele sabe que essa sua potência que se vai desvanecendo não é só intelectual (não é por acaso que ele não consegue foder a namorada e não é apenas simbólica a assimetria da próstata) é também sexual e por isso há que preservar o pouco que resta. Mas ao fazê-lo ele condena a sua integridade. Como a arma portentosa, ao seguir do seu sentido ele condena-se, ele é uma acidente anunciado, um morto a caminho de o ser. E daqui talvez faça sentido essa ideia do Vasco Câmara de uma limusina-sarcófago, e por caminhos travessos lá voltamos à cangalhada financeira.

6.18.2012

Key Largo é um filme do pós guerra, um filme cheio de reverberações do horror. O primeiro plano do filme mostra-nos uma carro em grande velocidade, em contra-mão, ultrapassando um autocarro, lá dentro vão aqueles que assistiram à guerra ao longe, vão os polícias, os polícias corajosos, um deles desafiará o bandido, e morrerá por isso. Mas Bogart não vai nesse carro, porque ele ganhou medo, porque ele não anda em contra mão, em contra-pé. Bogart vai no autocarro, sentado, confortavelmente com o seu casaco e a sua malinha de viagem, e vai de férias, tentar esquecer o horror, tentar esquecer.
Key Largo é um filme sobre o medo, Bogart é um homem medroso, um borra-botas orgulhoso, que quando tem a arma para disparar não o faz, e ele não sabe que ela está vazia, e podia fingir que sabia, mas não o faz, ele admite a sua incapacidade de combater o terror, no corpo de um mafioso em fim de carreira. Ele, o mafioso, é a maldade em pessoa - gosta de fazer sofrer - e Huston confere-lhe essa aura de nojo, não lhe dando corpo durante a primeira meia hora do filme. Mas é maravilhoso vermos o medo a funcionar, quando a natureza se levanta, os vento sopra desolador, a chuva cai copiosa, até o mafioso teme pela vida, e Bogart, talvez levado pela chuva, talvez levado pelo vento, talvez levado pela humilhação, diz-lhe (mas Bogart é um wise guy, que fala e não faz, um chico-esperto) qualquer coisa como, tens medo da tempestade? dá-lhe um tiro a ver se ela vai embora.
Depois há negócios de mafiosos e trocas de dinheiro e índios mortos e uma série de coisas, entre elas, a Bacall, mulher mais bela nunca se viu, angélica, desejosa se saber como morreu o marido (companheiro de armas de Bogart), ela que estando deste lado, quer saber como foi a guerra e obviamente Bogart mente-lhe, ela sabe que ele lhe mente, sabe que a história heroica que ele lhe conta sobre o falecido é falsa, ou melhor, não é falsa, é a história do próprio Bograt. E aqui começo a duvidar; terá havido marido? ou será que esta viagem de Bogart ao fim do mundo não será um regresso a casa, como se ele tivesse absorvido nas trincheiras a história de vida do outro e agora tentasse prolonga-la, com outro corpo, com o seu corpo. Talvez. E talvez por isso a coragem surja, o homem se revolte e, um de cada vez, limpa o sarampo à trupe de mânfios. E aí, plano belíssimo. Estão no mar, um barco desgovernado, a bússola roda desvairada, Bogart agarra-se ao lema, inverte o sentido, e a bússola estabiliza, está de volta, a casa e ao seu ser. Comunica por rádio para Bacall, e dá-lhes as boas novas, ela, em alegria, tira a casa da escuridão a que a tempestade havia obrigado, abre uma janela e entra uma luz brilhante sobre a sala e sobre ela, que ri alegremente, angelicamente.    

6.13.2012

Semelhanças - CXIII

 Key Largo (1948) de John Huston
Claire Trevor canta Moanin Low. [cena]

 
Sangue do meu sangue (2011) de João Canijo
Anabela Moreira canta Too good to be true. [sacar a cena]

o mafioso, a humilhação, a canção tristemente irónica

6.12.2012

There are worse things than chastity, Mr. Shannon. 

6.08.2012

nem ele, que morto está, podia perder um momento daqueles

Um vidro sujo. Primeiro plano de Era uma vez na Anatólia. Observamos a nojice acumulada naquele vidro, temos tempo para isso, a câmara demora-se aí, depois desfoque, vemos o interior, uns homens que conversam, tudo através do sujo do vidro, que não se vendo, sente-se. É de noite, são luzes amarelas que vão iluminando, faróis de carros, tudo é amarelo, um amarelo sujo.

Percebemos que esta estratégia não poderá ser acidental, Ceilan sabe muito bem o que está fazendo, não fosse este filme uma espécie de noir persa, em que em vez de negro temos amarelo. O objectivo é descobrir um morto, um cadáver que jaz apodrecendo algures na estepe turca, entre nada e nenhures. Um preso, algemado, vai sendo passeado pela noite, aliás, vai passeando a trupe policial pela noite, tentando lembrar-se do local do enterro. Vão pela noite, tentando iluminar o mistério, e fazem-no com faróis de carro, amarelos. Toda a primeira parte do filme se centra neste processo de iluminação, tudo se tenta iluminar (não são poucos os enquadramentos em que vemos os reflexos dos faróis a brilhar na lente da câmara), não só o crime, mas também as personagens se vão iluminando: a certa altura o comissário conta uma história, de uma mulher que desistiu de viver; todo o resto do filme vai crescendo no sentido de desmistificar essa história (ilumina-la claro). São também os locais iluminados, aqueles que favorecem as confissões - dentro um barracão (iluminado) o preso confessa o seu parentesco com o assassinado.
No entanto o que emociona é outra cena, essa também dedicada à luz: cansados de rumar pelo breu os homens são acolhidos pelo presidente de uma pequena freguesia no meio do nada, comem, bebem, descansam e conversam. Quando o gerador falha, o homem manda a sua filha servir o chá, o que nos aparece é um anjo banhado de luz, trás uma bandeja com as chávenas e um uma lanterna a petróleo, uma beleza tocante, os homens olham-na com espanto, são iluminados por ela, pela sua pureza brilhante, e depois, em puro êxtase, o morto, aquele por quem eles andam procurando, surge e bebe chá com eles, como se nem ele, que morto está, pudesse perder um momento daqueles.

Depois é dia, o primeiro plano de dia é um vidro, agora um para-brisas, limpo pela água da chuva que vai caindo, como se a sessão de chá os tivesse clarificado, purificado. Desta vez vão direitos ao morto, a partir daqui há uma clareza de movimentos, uma burocracia própria do dia e dos funcionários públicos, coisas que a noite não aceitava. Tudo é procedimental, como se o procedimento mecânico pudesse afastar de vez o mau estar da noite.

Muito acontece ainda, o filme é grande e ainda só vamos a meio. No fim o nosso protagonista, um médico que examina o cadáver, que escolhe ocultar o horror da morte do mesmo, que se entristece pela tragédia que descobre, prefere calar, esconder, absorver o mal. Olha pela janela, está limpa, mas ele não. Uma gota de sangue suja-lhe a face; afinal a noite sempre volta, cheia de escuro e luzes amarelas.

6.03.2012

 Em câmara lenta - Fernando Lopes

O amor é o amor — e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor
e trocamos — somos um? somos dois?
espírito e calor!

O amor é o amor — e depois?

Alexandre O'Neill