7.30.2012

#16 O Cônsul de Bordéus - Francisco Manso

Francisco Manso é homem que desperta controvérsia: realizador de filmes de época como A Ilha dos Escravos e O Último Condenado à Morte, que sempre recebeu pelos filmes que realizou apoios do ICA, sem que, no entanto, os seus filmes tivessem sucesso em festivais, por parte da crítica ou por parte do público. Então porque razão se continua a apoiar o seu cinema?
É co-dirigido com João Correa (um dos argumentistas) e tem como figura histórica o diplomata Aristides de Sousa Mendes que salvou milhares de judeus falsificando documentos para que estes pudessem fugir aos nazis. Com Victor Norte, o filme teve rodagem em Outubro de 2010, mas só agora se estreia (já esteve para estrear, mas vem sendo adiada a sua apresentação pública). As noticias são por demais (Público, JN, IOL, CM, Câmara Municipal de Viana do Castelo, Mundo Português).Orçamentado em 3 milhões de euros (vindos do ICA, RTP, MC, ICAA, IBERMedia e produzido pela Take 2000), usando mais de 1200 figurantes, filmado em Viana do Castelo, Bordéus e na fronteira entre França e Espanha, esta é uma grande produção que deveria já ter estreado, para assinalar em Junho os 70 anos do episódio retratado.

7.28.2012

#17 Operação Outono - Bruno de Almeida


Bruno de Almeida trouxe os seus amigos americanos de Os Sopranos para fazer o Lovebirds, agora é John Ventimiglia que vem fazer de Humberto Delgado. Mas com um elenco português de peso: Marcello Urgeghe, João d`Ávila, Nuno Lopes, Diogo Dória, Luis Lima Barreto, José Nascimento, Cleia Almeida e a participação especial de Camané. Produzido pela Alfama Filmes o sistema é o mesmo de Mistérios de Lisboa, filme+série de tv. A acção decore entre Portugal, Espanha, Marrocos, França e Itália, no período entre 1964 e 1981 e corresponde à adaptação da biografia escrita pelo neto de Humberto Delgado, abordando o assassinato (cuja operação elaborada pela PIDE tinha exactamente o título do filme) até ao julgamento que se deu depois do 25 de Abril.

7.26.2012

#18 Bôbo - Inês Oliveira


Ao que parece o Casting para o novo filme de Inês Oliveira, que se estreou com o inefável Cinerâma, foi há um ano (anunciado aqui), suponho pois que esteja já pronto ou em vias disso; acontece que a produtora David & Golias que produz o filme, não disponibiliza informações relevantes no seu sítio da internet. Ainda no site do referido casting explica-se que Bôbo é uma criança, nascida em Portugal numa primeira geração lusa de emigrantes guineenses, que está prestes a sofrer a excisão do clitóris, por parte da avó que pretende fazer cumprir a tradição.

7.24.2012

#19 E amanhã... - Bruno Cativo

Filme de carola é aquilo que se pode chamar a E amanhã... feito sem financiamento, feito só do entusiasmo dos actores (Pedro Barroso, Lena Jesus, Diana Nicolau , João Perry, Joana Fonseca Tavares ) e técnicos envolvidos e do realizador estreante; é um exemplo de sucesso, chegou ao Festin e recebeu o prémio do público. Um moço é muito famoso e uma moça ferra-lhe o dente para ver se a fama se pega por omose, ele entristece-se e vira sem abrigo durante três anos para descobrir o sentido da vida; uma pessegada certamente, afiança quem viu e o trailer corrobora.
[Entrevista] [Facebook] [Trailer]

7.22.2012

#20 Introdução

Como as minhas férias estão já a decorrer e como não gosto de fazer aquela coisa de deixar o blog de molho enquanto eu mesmo me demolho nas águas salgadas das praias lusas, os caros leitores terão até ao final de Julho e durante todo o mês de Agosto uma emissão bidiária. Isto é, dia-sim-dia-não um post será publicado (já estão escritos todos os 19, com este são 20), apresentando alguns dos filmes nacionais que o autor deste espaço mais antecipa. O leitor perspicaz interrogar-se-á: então mas o financiamento do ICA não está totalmente encerrado (até à aprovação em especialidade da nova lei do cinema)? O FICA não está bloqueado há anos? Os apoios da Direcção Geral da Cultura não foram todos engolidos com este secretário de estado? A resposta a todas as perguntas anteriores é positiva. Então como é que conseguiu (conseguiste? não sei se o leitor é meu conhecido ou não) arranjar 19 filmes para antecipar? A resposta é fácil, mas matreira: por um lado os cortes só se estabeleceram há menos de um ano, por isso vários projectos já tinham recebido o financiamento e estão agora a terminar a produção sendo a sua estreia próxima, por outro, vários do títulos apresentados são filmes cujo apoio foi autorizado, mas que ainda não o receberam, sendo a sua antecipação mais uma esperança do que um desejo [e há ainda uma terceira opção, filmes feitos sem apoios]. E note-se que só antecipo longas de ficção, pois o o meu trabalho seria demasiado extenso se considerasse todas as coisas que Guimarães está a fazer ou as curtas que Vila do Conde produziu para o seu aniversário.

Note-se que esta lista não inclui filmes como o terceiro ataque de Balas e Bolinhos, assim como alguns projectos televisivos como Sentimentos de Hélio Félix, ou então co-produções filmadas fora de Portugal com realizadores estrangeiros, caso dos filmes da Stopline films.

Não disse por achar óbvio, mas acrescento agora, para tornar explícito, a ordem dos filmes prende-se com o grau de interesse que o que aqui se assina como Ricardo Vieira Lisboa atribui a cada um dos filmes, sendo esse processo de atribuição falível e sentimental.

7.20.2012

Semelhanças - CXV

Hiroshima Mon Amour (1959) de Alain Resnais

 Les Herbes Folles (2009) de Alain Resnais

7.18.2012

De novo as batatas, sempre as batatas.

Há uma sensação estranha quando se percebe que acabámos de ver um filme de duas horas e meia com pouco mais de 30 planos. Porque de tão complexos que são os movimentos de câmara, sentimos que cada um, por si só, já era um filme; cada um, por si só, permitiria desenvolver longas e prolíficas linhas de pensamento (coisa que o Luís fez no Cinédrio em 4 episódios). A verdade é que não sou dado a tais epopeia (quer por incapacidade, quer por calansice) e proponho abordar apenas um conjunto de excertos que me parecem ser fundamentais para assimilar A Torinói Lo a derradeira obra de Belá Tar: as refeições.

São seis os dias, em todos os dias se estabelece uma rotina (talvez seja esse o grande objectivo de Tarr, o afirmar a volatilidade dos hábitos e a forma como o conforto que retiramos destes é apenas efémero), o acordar, encher os potes de água, ajudar a vestir o pai, alimentar a égua (sim, porque o cavalo é uma mentira, não há cavalo e não há Turim), cozer e comer as batatas, olhar pela janela, olhar o exterior, ouvir o vento e depois dormir à luz de uma candeia a óleo. Tudo isto é repetido, no entanto Tarr raramente repente um enquadramento e é nesse jogo que vale a pena reparar.

-No primeiro dia, à refeição, o pai come sofregamente a sua batata, descasca-a arriscando queimar os dedos e come-a ainda fumegante, não há contracampo da filha, nada, só o homem que no seu estrabismo e com o seu braço paralisado ataca ferozmente aquela parco alimento.
-Segundo dia, desta vez temos a rapariga a comer, a filha, que come calmamente, sem pressas, deixando arrefecer a batata, saboreando-a. De novo não há contracampo, mas ouvimos os sôfregos grunhidos do pai.
- No terceiro dia, temos um enquadramento de perfil, aproveitando a largueza da tela, pai e filha em extremos opostos da mesa (e do enquadramento), estamos de frente para a janela e a cena repete-se, ele come com gosto e ela como um passarinho; de novo as batatas, sempre as batatas.
- Quarto dia, agora a câmara está na outra ponta da mesa, estamos de costas para a janela, tudo igual. De repente, pai e filha, olham para a janela, olham para trás da câmara, posicionamento nada inocente, o que será que esconde o fora de campo? o que será que está a caminho? [primeira mudança de rotina, um grupo de ciganos aparece e interrompe a refeição, ambos deixam as batatas arrefecer]
-No quinto dia não há batatas, nem há refeição há mesa, nem há refeição em lado nenhum. Tentam partir (porque o poço secou) e na viagem não têm tempo para comer. Vão mas voltam, porque não há para onde ir, o vizinho tinha-os avisado, o mundo está a acabar.
- Sexto dia, só há a refeição, não há acordar, nem vestir nem cavalo (ou égua), há só escuridão, um plano lateral dos dois, e batatas cruas. Não sabemos se a câmara está de fronte para a janela ou de costas, porque já não há janela, não há lá fora (nem sequer há luz), tudo acabou, só ficou a refeição, é a única coisa que resta, mas por pouco tempo.

Através da desmontagem da rotina, dia-a-dia, vai-se perdendo um elemento de cada vez, até não haver nada. Eles passavam horas a olhar pela janela, ver o lá fora. O pai come depressa para poder ir mais cedo para o banco em frente à janela e observar a paisagem, observar a natureza. Natureza essa que primeiro está inacessível por causa do vento e depois inexistente por causa da luz. No fim o pai já não come a batata crua porque já não há lá fora, porque já não vale a pena.

7.17.2012

À Pala de Walsh



A ideia é simples, tão simples que estranho que nunca ninguém a tenha organizado e promovido antes: um espaço, um sítio da internet, dedicado a juntar as vozes das inter-redes que por aí vão escrevendo sobre cinema. Um espaço de congregação cinéfila, onde aqueles que vão escrevendo dispersa e independentemente o passem a fazer num local de verdadeiro amor mas com uma estrutura, uma organização, uma espinha dorsal. Fico feliz por ser um dos membros fundadores deste projecto, juntamente com o Carlos Natálio do Ordet, o João Lameira do Numa paragem do 28 e o Luís Mendonça do Cinédrio. A ideia é vir agregando colaboradores, gente que achemos que partilha o nosso gosto.

À Pala de Walsh é isso mesmo, simultaneamente um local de dedicação (ao Walsh, mas não só) e de bagagem (à pala). Ou seja, um sítio onde o cinema não é apenas coisa de fruição sensitiva, é motivo de pensamento e escrita, é pois local de crítica e de paixão.

7.09.2012

[examining George's bee sting
-That looks bad, have you taken anything for it?
-Ah, yes, I took 4 of your birth control pills, I hope that's okay.
-Try an antihistimine.
-I don't like those, they make me feel pregnant! 


10 (1979) de Blake Edwards

7.08.2012

Talvez a melhor forma de nos obrigarmos a escrever é escrever sobre a obrigação que sentimos de escrever.

Sinto-me obrigado a escrever sobre Haywire por vários motivos, primeiro porque gostei do filme, segundo porque gosto de Soderbergh, terceiro porque Haywire é um filme que, pelo trajecto que teve que percorrer, merece ser falado, quarto porque o Luís Miguel Oliveira criticou o filme por aquilo que o torna óptimo, quinto porque no artigo da CinemaScope dedicado a Soderbergh (a propósito do dossier sobre os 50 realizadores com menos de 50 anos) referia-se que não havia uma linha autoral nos seus filmes e sexto porque na conferência de imprensa da Berlinale Soderbergh revelou um pouco do seu método de trabalho, que transparece nos seus filmes, em particular neste.

 Luís Miguel Oliveira

Gabe Klinger que escreve o texto da CinemaScope diz qualquer coisa como: um realizador português disse-me 'he has no style' e depois continua afirmando que ainda está por descobrir (se alguma vez isso será feito) o que liga os projectos de Soderbergh, os seus blockbusters e o seus filmes indies.
[este texto não está disponível, mas alguns dos outros deste dossier estão aqui]

Banderas, numa vénia graxista, diz que Soderbergh é um realizador que filma como se tocasse jazz (no sentido em que tudo é feito de seguida, sem perdas de tempo, sem iluminação artificial).
Haywire foi terminado antes mesmo de Contagion, no entanto só teve distribuição mais de uma ano depois. 

Soberbergh refere que Nolan é um realizador que nunca faz reshoots, ele no entanto não se lembra de um filme seu em que isso não tenha acontecido (até em Sex, Lies and Videotapes). Acrescenta que hoje em dia, o digital permite-lhe, durante a rodagem (à noite), montar o que filmou durante o dia e assim garantir que no dia seguinte acrescenta aquilo que lhe parecer necessário. 
[A cena final de Haywire foi filmada bastante tempo depois da rodagem, já no final da montagem quando se apercebeu (uma vez que é ele também o director de fotografia e montador dos seus filmes) que a personagem de Banderas tinha uma qualidade de master mind inesperada]
Ele refere ainda que sempre foi um realizador do Plano B, que os seus projecto foram (ao longo dos anos) impossibilitados ou incapacitados, mas com o dinheiro dos outros ele não brinca e filma sempre dentro do orçamento e dentro do horário.
[aqui]

Feita a introdução passemos à coisa propriamente dita.

Soderbergh tem uma veia autoral que percorre todos os seus filmes, uma espinha dorsal, ela é: o desapego, o alheamento, o desolamento (o desprendimento nas palavras de LMO). Referi aqui e aqui este aspecto já mais do que uma vez e a propósito de Contagion comecei o texto também com um pedaço da crítica do Mourinha que acusa o filme de desafectado e indiferente. Pois bem, mais uma vez insisto na tecla, se há algo que transforma o cinema de Soderbegh em algo mais que o de um tarefeiro que cumpre prazos e dinheiros é o facto de parecer que a cada novo filme ele (o senhor Soderbergh) faz de propósito para cumprir os mínimos dessa tarefeirice. Isto é, depois de fazer o pitching ao senhores dos estúdios e se comprometer a fazer um filme de acção com espiões e traições e porrada, ele cumpre (e com cada vez menos orçamento) os mínimos desse acordo devolvendo um exercício de estilo sobre o género em causa (se Contagion era o horror e este é acção, Magic Mike parece querer chegar à comédia romântica), desfiando (esfarripando) cada plano. Lembro-me que enquanto via o filme ter tido a sensação que Soderbergh enquadrava e montava propositadamente mal, isto é, segundo os padrões actuais de Hollywood; quase que temos a sensação de que sempre que lhe perguntam onde por a câmara ele interroga-se, como é que o Nolan faria, e depois faz exactamente ao contrário.

Mas o que torna toda esta conversa em algo mais do que apenas estéril é o facto de percebermos que esse alheamento, essa sensação de frieza metódica para com os seus personagens é um acto de compaixão por elas. Soderbergh é asséptico não porque se quer manter limpo, mas sim porque quer manter o espectador limpo. Isto é, não quer que haja uma exploração emocional das agruras dos seus personagens, daí que o distanciamento seja uma opção ética. Das duas uma, ou se faz um cinema estilizado a tal ponto que é-nos indiferente uma espingardada na cara de uma bela mulher (penso no mau gosto de Drive em que essa cena de horror gore é filmada ainda para mais em câmara lenta, e sabemos que tudo é mais bonito um câmara lenta, até uma cara a desfazer-se em papa), ou então faz-se um cinema em que a envolvência emocional com a mulher nunca se forma (ou forma-se com o certos limites) e dessa forma não nos incomoda os enxertos que se lhe infligem (penso em Haywire). Mas como garante Soderbergh esse alheamento através da mise en scéne? A resposta torna-se transparente considerando duas cenas consecutivas, filmadas de formas muito opostas e portanto esclarecedoras dessa posição des-emocional.

No confronto final, ajuste de contas, McGregor sequestra o pai dela na sua casa de praia, trás o Tatum como ajudante e mais um capanga. Ela corta a corrente electrica, obrigando tudo a uma escuridão quase total, que transforma a invasão da casa num bailado de pancadaria quase impercetível. Sabemos que a relação dela com Tatum é complicada (depois de irem para a cama ela partiu-lhe o braço), mas é a coisa mais próxima de algo romântico neste filme. Pois bem, McGregor que é um malvado dá-lhe um tiro, ao Tatum, e aqui é que está a questão, ele foge e ela fica com o alvejado. Não há cá pietás e coisas dessas trágicas do 'I'm soo cold', nada disso, Tatum vai-se esvaindo num total breu, quase não lhe vemos a cara, a dela está toda pintada de graxa [na imagem]. Depois ela vai atrás do McGregor e a cena é na praia, ao por do sol, planos curtíssimos, uma chapada de luz [na imagem]. A questão é mesmo essa, a iluminação como mecanismo de protecção, aquele que merecia carinho é escondido, no breu, o vilão por ser lado não merece tal tratamento.

E agora devia acabar isto com uma frase simpática e seca, mas isto não é bem o que devia ser. Lembro só que a primeira palavra dita no filme é merda e a última também é merda, quase como se Soderbergh estivesse a dizer, a merda fica do lado de fora.