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2.19.2012

Quem estava ao corrente não tinha palavras bastantes para explicar. Os salões do Casino tornavam-se Sodoma e Gomorra, acrescentadas do que mesmo em fantasia parecia excessivo. Havia em permanência um show de Paris com bailarinas nuas, trapezistas nuas, cantoras nuas, duas jibóias que ao som de uma música sensual se enrolavam numa rapariga nua. Nua!
(...)
 A nossa excitação tornou-se difícil de conter quando as bailarinas atacaram o cancan inicial. Não vinham nuas, infelizmente. Mas aqueles corpos, o vermelho dos lábios, os sorrisos, as pernas ágeis, longas e desengonçadas, que mau grado a distância pareciam voas sobre as nossas cabeças, eram compensação mais que generosa.
Num relâmpago de entusiasmo decidi nunca mais ir ao cinema. Comparadas àqueles monumentos de carne viva, que me piscavam o olho e se contorciam em promessas, as actrizes do ecrã pareciam singularmente insípidas. Nenhuma delas jamais sopraria beijos na minha direcção como a bailarina da segunda fila, a loira vestida de lantejoulas verdes.

Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia - O Joalheiro, J. Rentes de Carvalho, Quetzal, 2011

2.08.2012



Darkling I listen; and, for many a time
  I have been half in love with easeful Death,
Call’d him soft names in many a mused rhyme,
  To take into the air my quiet breath;
Now more than ever seems it rich to die,
  To cease upon the midnight with no pain

John Keats (1795–1821). The Poetical Works of John Keats. 1884. 40. Ode to a Nightingale

12.11.2010

Imagem Escrita, Palavra Filmada - IV

Há cerca de um ano que ele fotografa coisas abandonadas. Há pelo menos dois trabalhos todos os dias, por vezes até seis ou sete, e, sempre que entram numa nova casa, ele e os seus colegas vêem-se confrontados com as coisas, as inúmeras coisas rejeitadas, tudo aquilo que as famílias deixaram. As pessoas ausentes, todas elas, fugiram precipitadamente , humilhadas, confusas, e é certo e seguro que, onde quer que vivam agora (se é que encontraram um sítio para viver e não estão acampadas nas ruas), os seus novos alojamentos são mais pequenos do que as casa que perderam. Cada casa é uma história de fracasso - de bancarrota e de falta de pagamento, de dívidas e execução de hipotecas - e ele tomou a seu cargo a tarefa de documentar os derradeiros resquícios dessas vidas dispersas, a fim de provar que as famílias desaparecidas estiveram em tempos ali, que os fantasmas das pessoas que ele nunca verá e nunca conhecerá ainda estão presentes nas coisas rejeitadas que ele e os seus colegas encontram espalhadas por todo o lado nas casa vazias.

In Sunset Park de Paul Auster, Asa, 2010, página 7

P.S.: Esta é a abertura do último livro de Paul Auster (escritor e também realizador de, entre outros - The Inner Life of Martin Frost), que quando li me recordou de forma precisa o filme de Manuel Mozos - Ruínas - estreado este ano em sala comercial juntamente com a curta - Canção de Amor de Saúde - de João Nicolau. Ruínas é sem dúvida um dos melhores filmes portugueses do ano.

3.27.2010

Imagem Escrita, Palavra Filmada - III

deus é uma cobiça que temos dentro de nós. é um modo de querermos tudo, de não nos bastarmos com o que é garantido e já tão abundante. deus é uma inveja pelo que imaginamos. como se não fosse suficiente tanto quanto se nos põe diante durante a vida. queremos mais, queremos sempre mais, até o que não existe e não vai existir. e também inventamos deus porque temos de nos policiar uns aos outros, é verdade. é tão mais fácil gerir vizinhos se compactuarmos com a hipótese de existir um indivíduo sem corpo, que atravessa as casas e escuta tudo quanto dizemos e vê tudo quanto fazemos. é tão mais fácil, se esta ideia for vendida a cada pessoa com a agravante de se lhe dizer que, um dia, quando morrer, esse mesmo sinistro ser virá ao seu encontro para o punir ou premiar pelo comportamento que houver tido em todo o tempo que gastou. e a comunidade respira mais de alívio por saber que assim estamos todos policiados da melhor maneira, temos um polícia dentro de nós, um que sendo só nosso também é dos outros e, a cada passo, pode debitar-nos ou acusar-nos e terminar o nosso percurso com facilidade. eu sei que a humanidade inventa deus porque não acredita nos homens e é fácil entender porquê. os homens acreditam em deus porque não são capazes de acreditar uns nos outros. e enquanto mais assim for, quanto menos acreditamos uns nos outros, mais solicitamos o policiamento, e se o policiamento divino entra em crise, porque as mentes se libertam e o jugo glutão da igreja já não funciona, é preciso que se solicite do estado esse policiamento. que medo o de voltarmos ao tempo de uma polícia para costumes e convicções. que medo se voltamos a temer os vizinhos e os vizinhos nos puderem entregar por ideias contrárias. que medo se nos entra um outro filha-da-puta no poder, a censurar tudo quanto se diga e a mandar que pensemos como pensa e façamos como diz que faz. que medo de tudo se em tudo o que os homens fazem vai a vontade torpe de ultrapassar o outro, poder mais do que o outro, convencer o outro que fica bem no andar de baixo e depois subir, subir o mais sozinho possível, porque ganhar acompanhado não satisfaz ninguém. estamos a fazer tudo errado agora, sem valores, sem medo da igreja, sem um fascismo que nos regule o voluntarismo. estamos como que sozinhos de maneira errada. mais sozinhos do que nunca, a ver a coisa passar sem sabermos muito bem em quem confiar. e nisto, é verdade, pressupomos que todos são bons homens, mas a cabeça de alguns, senão a de todos, tem de estar a cozinhar muito do esquisito que para aí acontece e se sente. muito do esquisito que nos impede, mais e mais, de acreditar nos homens.

a máquina de fazer espanhóis de valter hugo mãe, edição ALFAGUARA, 1º edição (2010), pág 225-226

P.S.: No dia em que fui ver o novo filme dos irmãos Coen (A Serious Man), estava a mais de meio do livro de valter hugo mãe (do qual já tinha lido o remorso de baltazar serapião e apocalipse dos trabalhadores), quando o filme acabou e apanhei o metro na estação de S. Sebastião, onde os comboios demoram mais, abri o livro e comecei de onde tinha ficado. O que me aparece é nem mais nem menos que o parágrafo acima - 'resumo teórico' do filme. Depois disto achei que pouco mais conseguiria acrescentar, a não ser: achei o filme simpático, não é Buster Keaton (como diz João Lopes), nem é um asco (como afirmava Mourinha); é um pouco desconexo, que quer falar de mais com economia de palavras e isso só calha bem às vezes. [Os Coen são bons é a filmar a morte e a violência, não dilemas teológicos, mas mesmo assim não se espalharam]

11.06.2009

Imagem Escrita, Palavra Filamada - II

"Sei, todos nós sabemos, como pesa o tempo vencido sobre quem se aventura a recompô-lo. É um eco a sublinhar as palavras, uma ironia que nos contempla de longe, um aviso. Se alguém (em narrador em visita) rememorava a seu gosto (e já vê no papel, e em provas de página, e talvez um dia em juízos de Crítica) o final duma mulher que é de todos conhecido e que está certificado nos autos; se se apega a um punhado de notas tomadas em tempo por desfastio, e se mete agora a entrelaçá-las e a descobrir-lhes uma linha de profecia, então esse alguém necessita de pudor para encontrar o gosto exacto, a imagem exacta da mulher ausente. Necessita de discutir consigo mesmo, à medida que recorda, e assim fá-lo por respeito, pela condição de homem em face da distância e da ausência, É, considero aqui, um ofício delicado contar o tempo vencido. Pela mesma razão se, navegando na minha cama sobre um vazio de carunchos a sussurrar, eu assisto ao Engenheiro anfitrião descrevendo a mulher-pega, a mulher-codorniz ou outra qualquer e penso na senhora da lagoa- que não cabe em nenhuma dessas classificações, evidentemente- cumpre-me prestar bem o ouvido às palavras e repeti-las como uma testemunha que vai ditando ao escrivão, fiel à sua consciência e ao seu juramento. uma testemunha que procura o rigor para não macular covardemente o retrato que se reflecte nele, Tomás Manuel. E que tudo fique conforme, e que no interesse da verdade seja lido e assinado, Gafeira, tantos de tal, em viagem com o Engenheiro pelas águas da lagoa."

Primeiros dois parágrafos do vigésimo sexto capítulo (b) de "O Delfim" de José Cardoso Pires, adaptado ao cinema em 2002 por Fernando Lopes

P.S:Esta é a essência da escrita de Cardoso Pires, um comprometimento com a realidade, tão ciente de si que lhe permite incorrer na ficção.

6.27.2009

Imagem Escrita, Palavra Filmada

"(...) Decidiu-se e, impelido por um instinto, bateu à porta. Bateu outra vez. Sentiu abrir a vidraça, e a voz do tio perguntar:
- Quem é?
- Sou eu, tio Francisco, sou eu. Venho dizer-lhe adeus.
A vidraça fechou-se, e daí a pouco a porta abriu-se com um grande ruído de ferrolhos. O tio Francisco tinha um grande candeeiro de azeite na mão. Macário achou-o magro, mais velho. Beijou-lhe a mão.
- Suba - disse o tio.
Macário ia calado, cosido com o corrimão.
Quando chegou ao quarto, o tio Francisco pousou o candeeiro sobre uma larga mesa de pau-santo, e de pé, com as mãos nos bolsos, esperou.
- Que quer? - gritou-lhe o tio
- Vinha dizer-lhe adeus; volto para Cabo Verde.
- Boa viagem.
E o tio Francisco, voltando-lhe as costas foi rufar na vidraça.
Macário ficou imóvel, deu dois passos no quarto, todo revoltado, e ia sair.
- Onde vai, seu estúpido? - gritou-lhe o tio.
- Vou-me
- Sente-se ali! - E o tio Francisco falava, com grandes passadas pelo quarto:
- O seu amigo é um canalha! Loja de ferragens! Não está má! O senhor é um homem de bem. Estúpido, mas homem de bem. Sente-se ali! Sente-se! O seu amigo é um canalha! O senhor é um homem de bem! Foi a Cabo Verde! Bem sei! Pagou tudo. Está claro! Também sei! Amanhã faz o favor de ir para a sua carteira, lá para baixo. Mandei por palhinha nova na cadeira. Faz favor de por na factura Macário & Sobrinho. E case. Case, e que lhe preste! Levante dinheiro. O senhor precisa de roupa branca e de mobília. E meta na minha conta. A sua conta lá está feita.
Macário queria abraça-lo, estonteado com as lágrimas nos olhos, radioso.
- Bem, bem. Adeus!
Macário ia sair.
- Oh! burro, pois quer-se ir desta sua casa?
E indo ao pequeno armário trouxe geleia, um covilhete de doce, uma garrafa antiga de Porto e biscoitos.
- Coma.
E sentando-se ao pé dele, e tornando a chamar-lhe estúpido, tinha uma lágrima a correr-lhe pelo engelhado da pele."

QUEIRÒS, Eça de; in "Contos Escolhido - Singularidades de uma Rapariga Loura", 2ª Edição; Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses; página 58-59