6.06.2009

A Percepção


Várias leis foram produzidas ao longo da evolução da psicologia moderno no século XX, sendo que os Gestaltistas vincaram o seu interesse nessa área; a lei da percepção que nos permite aperceber da continuidade de imagens próximas física e temporalmente (cinema) corresponde à percepção de movimento, capacidade inata e interpretada por tentativa-erro nos primeiros anos de vida.
Assim sendo, a nossa capacidade de compreender uma narrativa filmada (numa televisão, ecrã de computador ou tela) é a mesma que usamos na compreensão do meio envolvente, reagindo-lhe na proporção do estímulo prestado. Assim o cinema apoia-se nas nossas características de espécie e desenvolve-se de modo a que nós tenhamos medo de cenas em filmes de terror, compaixão em dramas ou felicidade em comédias românticas; mesmo que, na prática, o que é percepcionado não passe de um aglomerado organizado de sons e luzes - assim sendo percepcionamos como realidade a experiência cinematográfica pela proximidade sensorial com a realidade (o uso do 3D tornará a experiência ainda mais realista) também ela um aglomerado organizado de luzes e som.
No entanto a normalização da experiência cinematográfica permitiu a utilização de processos anti-natura, nomeadamente a montagem paralela (que implica que o espectador esteja ao mesmo tempo em dois (ou mais) locais diferentes), na utilização do split screen ou na filmagem em panorâmico, especialmente com o Vista Vision e o CinemaScope e mais recentemente com a montagem de video clip em que não se pretende que o espectador compreenda cada frame, mas sim a junção de estímulos como um todo sensorial (o desafio de dar a entender ao espectador um cheiro é coisa megalómana, daí que até Kubrick dissesse que o livro Perfume era infilmável, no entanto Tom Tyker (o realizador do filme homónimo, não julgando a qualidade da dita obra) criou a noção de cheiro pela montagem frenética de imagens - ver a sequência entre os 4:30 e os 6:00 minutos) .
Deste modo podemos compreender que o cinema tem vindo a estimular o próprio indivíduo do ponto de vista ontológico, promovendo a sua adaptação a novos estímulos e à naturalização de certos princípios artificiais (por exemplo a compreensão do campo/contra-campo como forma natural de perceber a montagem), sustentando as novas capacidades nas já adquiridas, assim é natural que um jovem habituado à má qualidade dos filmes caseiros de youtube consiga compreender melhor filmes como Cloverfield e Blair Witch Project, do que um indivíduo habituado a ver Oliveira que se presa pelos planos fixos.
Por muito interessante que se possa achar os processos da mente e a sua relação com o cinema, os estudos científicos reduzem-se a casos particulares e de simplicidade vulgar, quando a coisa fica preta, a porca torce o rabo. Happy-go-lucky foi um caso desses: a linearidade de pensamento levou-me a reduzir o filme à sua mediania, mas outro elemento infectou a equação e a percepção mutou-se, acabei por o admirar profundamente.
Do ponto de vista da percepção visual da narrativa: no filme, nem há grande inovação, nem qualquer dificuldade em compreender e acompanhar a sequência de eventos. Em oposição, a noção crítica (minha) é um caso específico de vulnerabilidade argumentativa, isto é, cada uma das concepções sobre o filme não são sustentadas, como deveriam, em argumentos sólido e casos estruturais, mas sim numa noção geral, volátil e puramente emotiva.
Em relação ao filme em causa, criticou-se a parvalhice da personagem, a vulgaridade com que se abordaram temas de complexidade extrema e ainda para mais a componente verborreica da personagem, Polly, e afins amigas, mas mais que isso, muita gente se irritou pela felicidade da personagem (ainda para mais, estando habituados ao soturnismo de Leigh).
[Há uns tempos James Gray, numa master class que o blog Claquete teve o prazer de divulgar, referia a sua experiência com o (maior) filme de Hitchcock - Vertigo - dizendo que aquando da visualização do mesmo, o filme lhe pareceu descabido, estranho e desconectado de tudo, mas nos dias seguintes e nos tempos que se passaram, ele não conseguia deixar de pensar no filme, e isso teria que querer dizer qualquer coisa em relação ao dito. Hoje em dia (e segundo a sua palavra) é um dos seus filmes preferido].
Longe de mim comparar Happy-go-lucky a Vertigo, mas o que se compara é a influência que um filme pode ter no indivíduo exposto. Happy-go-Lucky aparece-me constantemente no dia-a-dia e veste-se de lição de vida, de guia espiritual - quem me dera ser tão aparvalhado como Polly e ao mesmo tempo tão lúcido e jovial.

Há filmes assim, que quebram as leis científicas.

P.S.:Há um episódio de Dr. House em que uma educadora de infância que nunca se irrita (faz lembrar alguma coisa) aparece, claro que o senhor doutor vai dizer que a felicidade dela é sintoma de uma raríssima doença congénita que afecta o coração e um dos lobos do cérebro, induzindo-a a relaxar em situações de stress. Maldito House e maldito cientificismo!
P.S.:Falar deste filme e não fazer referência ao instrutor de condução ou à professora de dança é um crime, por isso fica feita a referência.

3 comentários:

Filipe Machado disse...

O Dr. House, no fundo, tem um bom coração :)

Fifeco disse...

Queria apenas congratular-se pelo texto que é muito bom, sobretudo a componente que diz respeito à percepção visual dos indivíduos face aos eventos que o rodeiam.

Quanto ao filme, confesso que adorei a interpretação de Sally Hawkins. Contudo, acabou por se tornar algo banal muito graças a um argumento não tão bem elaborado (confesso não perceber como foi nomeado para melhor argumento original).

Ricardo disse...

Filipe: Eu gosto muito de Dr. House, para além de ter um carismático actor e uma excelente trupe de argumentistas, lida com situações, opiniões políticas e maneirismos sociais magníficos, mas no fundo há uma crença (muito americana) na ciência como religião e fonte dos conhecimentos únicos e verdadeiros.

FiFeco: muito obrigado pela parte que me toca, quanto ao filme, pois, como disse, ao início achei-o médio, vulgar, banal; mas com o passar do tempo comecei a encarar naquela felicidade da personagem uma lição de moral, muito prática e muito verdadeira. Mas do ponto de vista cinematográfico fica muito aquém de outras obras de Leigh.