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11.06.2012


Oh! A arte, não há nada que chegue à arte! O que eu queria era ter tempo para imaginar cá as minhas coisas à vontade, mas tenho os ensaios, o dia todo ocupado a tocar: Ora ponha aqui o seu pezinho... É revoltante. Mas o público só gosta destas coisas. O gosto perverteu-se, caminhamos para um abismo.

O Gebo e a Sombra

2.01.2012

 
«Bem, num certo sentido, não posso saber o que não sei. É filosoficamente evidente.» Fez uma daquelas pausas leves, em que voltámos a não saber se troçava subtilmente ou se falava muito a sério, para lá da nossa compreensão. «Na verdade, toda a história de imputar responsabilidades não é uma espécie de cobardia? Queremos culpar um indivíduo, para que todos os outros sejam ilibados. Ou culpamos um processo histórico, como forma de desobrigar os indivíduos. Ou é tudo um caso anárquico, com as mesmas consequências. Parece-me que há - houve - uma cadeia de responsabilidades individuais, todas necessárias, mas não uma cadeia tão longa que todos possam simplesmente culpar todos os outros. Mas é claro que o meu desejo de imputar responsabilidade podia ser mais um reflexo do meu próprio estado de espírito do que uma análise justa do que acontecera. Esse é um dos problemas centrais da história, não é Sir? A questão da interpretação subjectiva ou objectiva, o facto de precisarmos de conhecer a história do historiador para podermos compreender a versão que nos é posta à frente.
Houve um silêncio. E não, ele não estava a gozar, nada que se parecesse.

O SENTIDO DO FIM, Julian Barnes Tradução de Helena Cardoso

1.25.2012

Tudo isto é muito novo, um novo pedaço de vida. Ainda há pouco estava numa passagem aérea, por baixo de mim: um troço de auto-estrada para Augsburg. Do meu carro vejo por vezes as pessoas que se detêm na passagem aérea sobre a auto-estrada e ficam a olhar, agora sou uma delas. A segunda cerveja já começa a descer-me aos joelhos. Um rapaz coloca um cartaz entre duas mesas, fixando as duas pontas do fio com fita-cola. Vai à volta, grita o grupo da mesa comum, por quem se tomam, diz a empregada, depois a música recomeça, muito alta. O grupo gostaria de ver o rapaz levantar a saia da empregada, mas ele não arrisca.
Só no cinema tomaria isto tudo por verdadeiro.

Caminhar no Gelo de Werner Herzog, traduzido por Isabel Castro Silva
A propósito de The cave of forgotten dreams

10.14.2011

Portugal prescrito

Os probrezinhos fazem bicha nem sempre pacientes às portas das juntas de freguesia e das misericórdias, e já se fala que para finais de Maio se dará uma brilhante festa no campo do Jockey Club a favor dos sinistrados das inundações do Ribatejo, esses infelizes que andam de fundilhos molhados há tantos meses, formou-se a comissão patrocinadora com o que temos de melhor no high-life, senhoras e senhores que são ornamento da nossa melhor sociedade, podemos avaliar pelos nomes, qual deles o mais resplandecente em qualidades morais e bens de qualidade, Mayer Ulrich, Parestrello, Lavradio, Estarreja, Duan e Lorena, Infante da Câmara, Alto Mearim, Mousinho de Albuquerque, Roque de Pinho, Costa Macedo, Pina, Pombal, Seabra e Cunha, muita sorte vão ter os ribatejanos se conseguirem aguentar a fome até Maio. No entanto, os governos, por supremos que sejam, como este, perfeitíssimo, sofrem de males da vista cansada, talvez da muita aplicação ao estudo, da pertinaz vigília e vigilância. É que, vivendo alto, só enxergam bem o que está longe, e não reparam como tantas vezes a salvação se encontra, por assim dizer, ao alcance da mão ou no anúncio do periódico, que é o caso presente, e se este não viram menos desculpa têm, porque até traz desenho, uma senhora deitada, de combinação e alcinhas, entremostrando um magnífico busto que talvez deva alguma coisa às manipulações de Madame Hélène Duroy, não obstante está um pouco pálida a deliciosa criatura, um nadinha clorótica, ainda assim, não tanto que venha a ser fatal a sua doença, tenhamos confiança no médico que está sentado à cabeceira, careca, de bigode e pêra, e que lhe diz, respeitosamente repreensivo, Bem se vê que O não conhece, se O tivesse tomado não estava assim, e estende-lhe a insinuante salvação, um frasco de Bovril. Lesse o governo com atenção suficiente os jornais sobre os quais todas as manhãs, tardes e madrugadas mandou passar zelosos olhares, peneirando outros conselhos e opiniões, e veria quão fácil é resolver o problema da fome portuguesa, tanto a aguda como a crónica, a solução está aqui, no Bovril, um frasco de Bovril a cada português, para as famílias numerosas o garrafão de cinco litros, prato único, alimento universal, pancresto remédio, se o tivéssemos tomado a tempo e horas não estávamos na pele e no osso.

José Saramago in "O Ano da Morte de Ricardo Reis", 1984, Editorial Caminho, Maio de 2002

10.12.2011

Portugal proscrito

- Você é o Souza?
- Sou.
- Não reconhece?
- Não.
- Tadeu.
- Tadeu Pereira?
- O próprio.
- O que faz aqui?
- Sou ascensorista. Não vê?
- Começou quando?
- Sempre trabalhei nesse prédio.
- Eu também...
Aí observei que me tinha enganado. Era um hall igual, porém não era o meu prédio. Também, são todos semelhantes. Uniformes. Feitos com uma só planta. Arquitetura econômica dos Abertos Oitente. Graças a esse erro, redescubro meu velho amigo Tadeu Pereira. Não é possível. Tão envelhecido, acabado.
- Tadeu Pereira. Quem diria?
- E você? O que faz?
- Nada. Fui demitido.
- Por quê?
- Sei tanto quanto você.
- Estão demitindo baseados nos decretos secretos.
- Nunca ouvi falar.
- São secretos. Produtos do Ministério do Planejamento. Demissões em massa. O Esquema não aguenta mais criar empregos artificiais. Está além do limite da capacidade. Prefere o desemprego generalizado, problemas sociais, que uma dívida insuportável. Eles têm horror de dívida externa e ao mesmo tempo usam a dívida como justificação para tudo.
- Quer dizer. Mais gente nessas ruas o dia inteiro. Não dá.
- Tenho medo, Souza, Muito medo. Gente como nós o que vai fazer?

Ingácio de Loyola Brandão in "Não Verás País Nenhum", 1996, Ulisseia, Abril de 2011

10.10.2011

Portugal por escrito

A Srª Fretag era a nossa professora de Inglês. No primeiro dia de aulas perguntou-nos os nossos nomes
«Quero conhecer cada um de vós», disse.
Riu-se.
«Bem, tenho a certeza que cada um de vós tem um pai. Penso que seria interessante saber aquilo que cada um dos vossos pais faz na vida. Vamos começar pelo número um até ao último. Bem, Marie, o que faz o teu pai?»
«É jardineiro»
«Ah, que bom! Número dois... Andrew, o que faz o teu pai?»
Era terrível. Todos os pais do meu bairro estavam desempregados. O meu pai estava desempregado. O pai do Gene passava o dia sentado no alpendre da sua casa. Todos os pais estavam desempregados excepto o do Chuck que trabalhava num matadouro. Ele conduzia o carro vermelho com o nome do matadouro.
«O meu pai é bombeiro» disse o número dois.
«Ah, isso é interessante» disse a Srª Fretag. «Número três.»
«O meu pai é advogado.»
«Número quatro.»
«O meu pai é ... polícia...»
O que dizia eu? Talvez só os pais dos meu bairro estivessem desempregados. Eu tinha ouvido falar da crise financeira. Era algo mau. Se calhar só havia crise financeira no meu bairro.
«Número dezoito.»
«O meu pai é actor...»
«Dezanove...»
«O meu pai é violinista...»
«Vinte...»
«O meu pai trabalha no circo...»
«Vinte e um...»
«O meu pai é condutor de autocarro...»
«Vinte e dois...»
«O meu pai canta na ópera...»
«Vinte e três...»
Vinte e três. Esse era eu.
«O meu pai é dentista», disse.
A Srª Fretag continuou até que chegou ao número trinta e três.
«O meu pai está desempregado», disse o número trinta e três.
Merda, pensei, quem me dera ter-me lembrado disso.

Charles Bukowski in "Ham on Rye - Pão com Fiambre",1982, tradução por Manuel A. Domingos, Ulisseia, Setembro de 2010

P.S.: Este é a primeira de três publicações com excertos de obras (que tenho andado a ler), cujas observações do mundo parecem ter sido feitas para o Portugal (ou portugal) de hoje, sem tirar nem pôr.

10.04.2011

O que Pedro diz de Paulo - II

A propósito deste, já antigo, texto que o Luís Mendonça escreveu no CINEdrio, lembrei-me disto:

Aos grandes supermercados
chega cultura num bi-camion
Camões e Eça vendem-se enlatados
lavados com «champon»

Década de Salomé, música do álbum Galinhas do Mato (1985), letra de José Afonso e voz de José Afonso e José Mário Branco

9.12.2011

O que Pedro diz de Paulo - I

A propósito disto que o Carlos Natálio escreveu no Ordet, lembrei-me disto (e aproveito para iniciar uma nova rubrica):

Depois do jantar, tu e a tua irmã apanham o o autocarro 104, que, passando pela Broadway, vos leva até ao New Yorker Theater, e entram no oásis de frescura desse espaço escuro para verem um filme de Carl Dreyer de 1955, Ordet. Normalmente, não sentirias o menor interesse por um filme que gira me torno do cristianismo e de questões de fé religiosa, mas a realização de Dreyer é tão precisa e incisiva, tão exacta e penetrante, que depressa te arrasta e te leva a mergulhar de cabeça na história, a qual começa por te fazer pensar numa peça musical, como se o filme fosse a tradução visual de uma invenção de Bach em duas partes. A estética do luteranismo, sussurras tu ao ouvido de Gwyn a certa altura, mas, mas como ele não está a par dos pensamentos que conduziram a tal frase, não faz a menor ideia do que é que tu queres dizer e reage ao teu comentário com um sobreolho franzido de confusão.
Consideras que é quase desnecessário reviver as peripécias da história. Por muito sedutoras que elas possam ser, acabam por se resumir a uma única história no meio de uma infinidade de histórias, a um filme no meio de um sem-número de filmes, e, se não fosse o fim, Ordet não te teria afectado mais do que qualquer outro bom filme que viste ao longo dos teus anos de vida. É o fim que conta, pois o fim provoca em ti algo que é absolutamente inesperado, pois o fim abate-se sobre ti com a força de um machado derrubando um carvalho.
(...)
O cinema está quase cheio e metade do público desata a rir quando vê esta miraculosa ressurreição. Tu não os censuras pelo seu cepticismo, mas, para ti, trata-se de um momento transcendente, e dás por ti agarrado ao braço da tua irmã, enquanto as lágrimas te correm pelas faces. Aquilo que não pode acontecer aconteceu, e tu sentes-te abismado com o que acabas de testemunhar.
Há qualquer coisa que muda em ti depois disso. Não sabes o que é, mas as lágrimas que derramaste quando viste a ressurreição daquela mulher parecem ter levado algum do veneno que tem vindo a acumular-se dentro de ti.

Paul Auster em Invisível com tradução de José Vieira Lima