12.27.2009

Do mais rasca papelão

Vi o Avatar na ante-estreia, gostei, mas não é coisa que se chame prima (nem sobrinha de ninguém), é um filme cheio de vulgaridade, pejado de clichés e má escrita, algumas personagens são do mais rasca papelão, mas convenhamos, é um filme que não chumba em todos os campos, tem uma história verdadeiramente clássica (grande homenagem à idade de ouro ou ao romance de aventuras do início do século), por outro lado tem a inteligência de tratar o CGI, não como pilar fundamental na sua construção narrativa, mas sim como auxiliar puramente técnico (não vive à base de explosões como Transformers) melhor que isso, tem a coragem de usar as potencialidades técnicas em seu proveito (da mesma forma que Toy Story aproveitava o facto de a animação por computador não estar nos seus dias de glória, e por isso contava uma história sobre bonecos quadrados e triangulares, Cameron percebeu que só conseguia fazer coisas que parecessem jogos de vídeo, então criou um universo em que as coisas têm mesmo aspecto de jogos de vídeo).
Agora concordemos, um filme não se pode valer apenas pela suas qualidades técnicas, daí que o 3D seja de facto uma artimanha inteligente da indústria de recuperar público, mas não deve ser tomado como garantia de qualidade, por outro lado, considerar que a crítica é o antónimo do público e que se um diz sim ou outro diz não, é limitar a questão: todos temos direito a opinião, uns são publicados na imprensa (outros, como nós não o são), provavelmente têm mais conhecimentos que a maioria dos que os lêem, mas, são na mesma pessoas, com as suas singularidades, e que tal como qualquer outro têm espírito 'crítico' único e cabecinha para pensar.
É também natural que uma pessoa que tenha um lugar nos media apoie filmes com menos divulgação (de que adianta falar do avatar no jornal se todos já sabemos o que é), para reforçar o meu ponto de vista,quem sabe qual foi o último filme de Elia Sulieman?, ou quem viu o Andando? Grande parte das pessoas que circundam os caminhos da Internet falando de cinema, despreza os filmes que mais precisam de divulgação, falando apenas daqueles que todos já sabemos. Felizmente há uma crítica, que vai aos festivais, e nos informa, das obras que já sabemos nunca virem a estrear em sala, felizmente, que existe crítica, que sem nunca querer evangelizar os leitores numa via de pensamento, fomenta o conhecimento, e o desejo por saber mais sobre cinema, felizmente, que temos filmes com 5 estrelas numa página e uma bola preta na outra, se todos achássemos o mesmo, para que valeria abrir o jornal e ler o que fosse?
De nada serve tornar a crítica em bode expiatório nem em divindade (como acabei por fazer por motivos retóricos), serve sim, ir ao cinema, e não ao Torrent, ver filmes (já agora nacionais) e gostar (e de vez em quando não gostar, que também é preciso).

P.S.:Como sou preguiçoso, aproveitei este comentário, que fiz no blog O Homem que sabia demasiado, a propósito da importância da crítica, daí que não fale muito do filme.
P.S.2:O crítico João Lopes está a escrever uma série de 10 pequenos textos sobre Avatar e a sua relação com o cinema (clássico) que vale muito a pena ler.

4 comentários:

Sam disse...

Caro Breath Away,

Os Óscares de Marketing Cinematográfico, iniciativa que pretende nomear o melhor que se fez em publicidade de Cinema no ano de 2009, estão de regresso ao Keyzer Soze’s Place.

Assim, convido o autor deste blog a expressar a sua opinião em http://sozekeyser.blogspot.com/2010/01/oscares-de-marketing-cinematografico-2.html.

Desde já, apresento o meu profundo agradecimento na sua disponibilidade para participar nesta iniciativa.

Cumprimentos cinéfilos!

Leandro Bulkool disse...

Para James Cameron pouco importa história ou atuações. O que vale são cifras de bilheteria e ter seu nome marcado na história como recordista ou destruidor de paradigmas.

Indo assistir ao filme assim, é fácil não se decepcionar.

Ricardo disse...

o que aqui se assina tem nome Ricardo (que apesar de perdido no anonimato do primeiro nome, sempre é mais do que um incógnito Breath away)

Eu tenho em querer que se algo de mal há neste filme não é tanto o trabalho de Cameron (não o ilibando de algumas facadas profundas na própria entidade cinema), mas sim do marketing que acompanha a fita desde há mais de dois anos, quando se começaram a ouvir os primeiros rumores.

carla disse...

Achei o Avatar um filme de fantasia para o bom. Tem imagens lindíssimas, a produção está muito bem.
Em termos de história achei pouco profundo e pouco trabalhado. Fiquei com a sensação que foi feita uma história para colar nas imagens e não imagens para dar vida à história. Mas o objectivo está lá, muito bonito de se ver, apenas.