2.15.2010

Um filme feito de forma c(l)ínica

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Raras foram as vezes na história do cinema em que a fotografia de um filme foi tão decisiva como em Das weisse Band de Micahel Haneke, porque, como é comum, a fotografia é: por um lado apenas descritiva ou por outro esteticamente enquadrada numa conceito de belo que não sai da cepa torta do renascentismo helénico. Verdade seja dita, a beleza não passa (ou pelo menos não devia passar) pela vulgaridade das formas ditas pintadas, dos corpos e dos locais (por isto é que Bright Star não me convenceu, pois, por mais que quiséssemos deixar fluir a narrativa, cada enquadramento era uma tentativa reles de pintar uma bela e bucólica paisagem inglesa). Christian Berger (director de fotografia habitual de Haneke), tem por outro lado uma fotografia vazia em descrição e melhor que isso ausente da 'beleza' convencional.
João Lopes escrevia que este filme era de um realismo não descritivo e é por isso mesmo que a sua consistência na construção é sólida como o mais puro dos diamantes, polido em brilhante numa magnificência caseira e recatada.
Existe por isto um pressuposto ético na própria estética do filme, aquele preto e branco está lá por motivos éticos; para não nos ferir com o verde esburrachado da couves, ou o sangue esvaído, ou o cheiro de uma felação. O preto e branco está lá, daquela forma, para amainar, para revestir tudo e todos de uma fina camada de candura, de inocência; e por outro lado está, daquela forma, para nos dar a possibilidade de efabularmos como será que foi, que esteve, que cheirou. A própria direcção de Haneke está cheia desta ética, veja-se a cena da morte da camponesa (em elipse, assim como a tortura do filho do feitor) e o carpir do marido em plano único e fixo, mostrado apenas os pés, como se esses fossem a última ligação à terra. Claro que depois o miúdo vai espreitar a morte, mas filma-se com carinho e curiosidade infantil, assim como a (deliciosa) conversa sobre a morte e os seus significados, ou o cativeiro do pássaro [na imagem].
Haneke realiza este filme de forma c(l)ínica, tão fria, mas sem no entanto usar as imagens como forma de fazer andar a narrativa, muito pelo contrário, é o narrador que tem esse papel, poucas foram as vezes em que um narrador fez tanto sentido num filme. As imagens são neste filme um comprovativo (como dizer?), como se fossem as provas (de um crime), daí o realismo não descritivo, daí a frieza clínica, onde o narrador funciona como advogado de acusação (num filme que usa como base um crime na sua construção de 'policial'), juntando os elementos do crime; mais do que as imagens, é a palavra que tem sentido narrativo o que é sempre saudável, numa sociedade viciada em pixeis.
Deixo apenas mais uma nota à precisão da montagem (porque montar não é saber cortar, é sim saber quando não cortar) que consegue manter longos takes de vários minutos, sem nunca cair no exercício de estilo ou de exibição das proezas técnicas e estilísticas do seu criador.

P.S.:Cínico costuma ser usado depreciativamente, mas aqui usei a palavra no sentido oposto, pois queria dar a entender que há uma certa perversidade da parte de Haneke em fazer um filme aparentemente tão cândido, encobrindo a própria origem da maldade humana.

3 comentários:

OffTimeGirl disse...

Na minha opinião, disseste muitas verdades sobre a beleza estética desta película.
No entanto, parece-me que este filme tende a criar muitos anticorpos, deixando o público inquieto. Parece que é subtil, mas não é. Não há necessidade de grande erudição para sentir a maldade. É mais «perverso» que «cândico», em todos os aspectos.

Ricardo disse...

o filme verdadeiramente não é nada, é película, mas sim, sente-se uma candura travessa de ironia, uma perversão escarninha. Fui ler a tua opinião sobre o filme, e a ideia de que a narrativa progride de forma lenta e pasmacenta é-me completamente estranha, muito provavelmente tens essa opinião por uma modelação dos parâmetros americanos de cinema, por isso é agradável perceber que tens a curiosidade e o gosto por ver cinematografia verdadeiramente mais originais.

OffTimeGirl disse...

Devo agradecer-lhe por se ter preocupado em descobrir a minha opinião. Não contava com isso.
De certo, percebeu que os meus textos sobre cinema (naquele blog intímo de gente simples, mas com aspirações) são altamente subjectivos e quase nada técnicos. Na verdade, ser-me-ia impossível ser mais científica do que isso. O cinema tende a afectar-me visceralmente, por isso é que lhe chamo arte, por isso lhe dedico tanto tempo.

Os gostos (cinematográficos) educam-se, mas no limite não podemos enganar os nossos sentidos. Admito que se sinta constrangido com o facto de eu ter utilizado a palavra «aborrecido» na apreciação deste filme. Mas acredito que compreenda que eu faço parte da mancha de pessoas que ainda viu muito pouco daquilo que é possível na sétima arte. Claro que tenho o «gosto» adulterado pelos filmes comerciais de fácil acesso, com toda uma filosofia de dinâmica, que por vezes nos adormece o cérebro e pode tornar-se francamente aditiva.
Obrigada.