8.21.2010

No Início era o Traveling


Assim poderia começar o bíblico texto se por motivos escabrosos (e contra-natura) a narrativa filmada tivesse surgido antes da escrita; no entanto a substituição de verbo por traveling não é totalmente aleatória, uma vez que na literatura o nome é a partícula mais primária e descritiva, vindo depois o verbo (mais complexo, cheio de conjugações, tempos e pessoas); também no cinema, veio primeiro o plano fixo (maioritariamente descritivo) para depois termos o traveling (este sim, mais complexo, técnica e narrativamente, basta lembrar a abertura de Touch of Evil).
Tanto falatório, para escrever sobre um filme que não só não começa com um plano-sequência, como para contrariar, (quase) acaba com um. O filme é The Ghost Writer, o novo de Polanski, o plano [a imagem em cima] é lá mesmo para o fim do filme; é uma sequência em que um bilhete é passado de mão em mão, de modo a chegar ao destinatário, é relativamente curto (uns 30 segundos no máximo), mas é o resumo de quase todo o filme.
Por um lado representa um aspecto recorrente ao longo das duas horas de película, a rede de interesses, as tramas de influências, representa o passar da informação por uma série de indivíduos, até chegar ao destinatário, mais que isso, representa a instrumentalização de certas pessoas em proveito de outras. O outro lado é mais superficial e no entanto mais importante pela sua actualidade: o facto de a informação nos passar pelas mãos sem de facto tomar-mos conta disso; é uma parábola para a Internet (que é utilizada por Polanski, no filme, como mecanismo visual de representar as ditas redes de interesses - através das hiperligações), local de toda a informação, onde, por oposição, nenhum informação se encontra.
Esta piscadela de olho, é mais uma mordidela de dente à imprensa (representada no filme (e bem, creio eu) como acéfala, que como um cão, persegue o osso que lhe lançam, sem tomar conta da sua manipulação), que apesar de ter toda a informação para resolver o caso, não o faz. Tem que ser um escritor a descobrir a 'Verdade'.
Voltando ao início, a referência religiosa não foi casual, pois o trabalho do realizador é, nesta obra, de um controlo massivo de todos os aspectos da narrativa, desde o ambiente crescentemente opressivo (leia-se ambiente atmosférico - chuva e vento - como ambiente emotivo), assim como o controlo minucioso da arquitectura (a casa de Lang é de uma ausência emocional gritante), não esquecendo o trabalho de relojoeiro dos actores.
Não posso no entanto terminar sem referir a subtilíssima ironia de todos os diálogos e situações (Lang fica nos EUA para não ser extraditado para o Reino Unido, quando Polanski fica no Reino Unido para não ser extraditado para os EUA).

3 comentários:

Flávio Gonçalves disse...

Concordo. Gosto muito de ler os teus textos, continua.

Ricardo Vieira Lisboa disse...

Este texto tive-o na minha cabeça durante quase duas semanas a amadurecer, mas acho que não ficou bem aquilo que eu queria.

Manuela Coelho disse...

Gostei muito da crítica e do blog que descobri agora mesmo.:)