8.17.2010

Piloto (não) Automático


Estar em piloto automático é aquilo de que este filme nunca poderá ser acusado:

1. Sé há filme que rejeita a ideia de automatismo narrativo é este, que evita a todos os custos as formas normalizadas de filmar, que tem a consciência da morte e da guerra em cada frame; principalmente por ser o realizador um antigo combatente que conheceu os cheiros da guerra, ouviu os barulhos constantes de um tanque, sentiu o trepidar de uma explosão e conseguiu de uma forma rara (e talvez divina) projectar isso numa tela de cinema; fazer sentir ao europeu mais puro, e ao mais negro, aquilo que é ser responsável por uma arma tão 'morticida' como é um tanque; mas mais que isso, o que Samuel Maoz faz é obrigar-nos a ver o que não queremos, ele faz-nos olhar nos olhos de uma mulher ensanguentada, nos olhos de um burro morto, nos olhos de um jovem combatente - são os olhos que magoam, mais do que tudo, são os olhos que narram a dor.

2. Se há filme que rejeita a ideia de um piloto automático é este, que nos põem durante hora e meia ao lado dos pilotos, que os constrói com carne e osso, sem uma pinga de caricatura. Aqui os homens (e os miúdos) são gente viva, que treme de medo com uma arma nas mãos para a qual não foi treinado em situações que são o resultado encadeado de incompetências e é daqui que surge revolta durante a projecção; perceber que aquele sofrimento, todas as mortes, era tudo evitável, não só por ser a guerra estúpida, mas principalmente por ser gerida por incompetentes que não formam, não guiam, não informam; se fosse preciso resumir o filme eu diria que era sobre as consequências da maldade inconsciente.

3. Houve outro aspecto que me tocou profundamente neste filme, a forma como não é realista (no sentido estrito), apesar do tema e das situações retratadas; chega mesmo a ser expressionista na fotografia e surrealista nas circunstâncias, por um lado porque todo o filme vive de rostos vagamente iluminados por ranhuras e aparelhos eléctricos, segundo porque certas imagens (o tanque todo negro cravejado de pedacinhos de pão frito, faz lembrar os reflexos de uma bola de espelhos numa discoteca) estão embebidas de um certo humor visual muito retorcido. Se calhar é isso que o torna tão bom (o filme compreenda-se), a forma como se liberta do realismo, sem nunca perder uma verdade, dura e penetrante (que doí e não é pouco).

3 comentários:

Álvaro Martins disse...

Quanto a mim, mil vezes melhor que o Hurt Locker.

Flávio Gonçalves disse...

Recordem-me o título, por favor! Já li também a review do álvaro há tempos (e uma no jornal público, se não me engano), mas o título...

De qualquer das formas, parabéns pelo texto. Deve ser interessante, esse (sur)realismo.

Ricardo Vieira Lisboa disse...

Líbano é o título.

Tenho dificuldade em dizer se é melhor ou pior, mas sei que quando saí da sala de cinema parecia que tinha levado uma pantufada, mas gostei bastante do The Hurt Locker.

Obrigado pelos comentários, não tenho respondido por estar de férias.