3.19.2011

Sumo de limão ou como encarar as distribuidoras

Da esquerda para a direita: Chantrapas de Iosseliani, Film Socialisme de JLG e Potiche do Ozon

Desde o início do ano estrearam 9 filmes franceses (num total de 54), se a coisa fosse assim (tão linear) ninguém poderia apontar o dedo, mas a coisa não é só assim.

Não será completamente errado dizer que um filme europeu (e os franceses não são excepção) têm um público tendencialmente mais reduzido que um filme em língua inglesa (note-se que não é a qualidade que aqui oponho, mas sim o público potencial ). Desta forma qual será a lógica macabra que rege as nossas distribuidoras? Se o público é pouco, porque será que Chantrapas, Hors la loi e Jouese tenham estreado os três na segunda semana de Janeiro e nas últimas duas semanas tenham estreado Film Socialism, Deux de la vague, Copacabana, Micmacs, Potiche e Adèle Blanc-Sec. Em vez de tratarem os filmes como obras singulares, tratam a cultura francófona como fardo (barril, palete ...), em vez de programarem, publicitarem e exibirem os filmes por si, apresentam uma enchente de títulos, em vagas (mais ou menos) sufocantes impedindo que os espectadores vejam todos os títulos (sendo que a estreia em cascata não promove o passa-palavra impedindo que certos títulos ganhem público com o tempo).

Mais escandaloso é que neste mês estejam previstas 39 estreias, o mesmo número de títulos que estreou em Janeiro e Fevereiro (segundo o cinema.sapo.pt). Desta forma, filmes como Adèle Blanc-Sec, Splice e The Tempest estrearam, para na segunda semana de exibição estarem apenas com horário nocturno e desaparecem antes da terceira.

O precipício que as distribuidoras parecem adorar é simultaneamente dramático e risível: por um lado estreiam filmes como se descarregassem pacotes de leite, fazendo com que os espectadores não vejam os filmes exibidos (ou nem sequer tenham sabido da sua exibição) e por outro lado acham que isto é a estratégia que lhe dará mais lucro. São incapazes de compreender que este esquema é prejudicial para si e para a (criação/manutenção) do público. Os profissionais dizem-nos que é a ressaca pós-oscars, mas para isso existe o Guronsan e sumo de limão.

3 comentários:

O Projeccionista disse...

A distribuição de cinema em Portugal é completamente esquizofrénica. É que nem sequer conseguem formar públicos para um cinema mais comercial e outro nem tanto. Já para não falar que praticamente só se preocupam em estrear (quando estreiam) em Lisboa. Parece que o resto do país não existe. E antes ainda haviam cinemas onde nós sabíamos que passava um determinado tipo de cinema. Hoje isso não existe. Felizmente que estou em Lisboa e tenho a Cinemateca, se não fosse isso, estava tramado, pois também convenhamos que o que tem estreado nos últimos tempos deixa muito a desejar.

Cumprimentos e parabéns pelo excelente post.

Carlos Natálio disse...

A distribuição cinematográfica agoniza um pouco por todo o mundo. Em Portugal acresce o facto de agora pulularem entre a Lusomundo e a Atalanta outras pequenas distribuidoras cada uma a puxar para o seu lado, a dar os primeiros passos. Impossível visão de conjunto, de trabalho com continuidade. Um salve-se quem puder e lá no meio parece que há uns seres bizarros chamados espectadores... Abraço.

Ricardo Vieira Lisboa disse...

Muito obrigado aos dois, só posso acrescentar que é cada vez mais difícil manter-mo-nos interessados no que se exibe em portugal: porque quando temos tempo para ver, já não está para ser visto e quando queremos ver, não estreia comercialmente.