6.24.2011

O profeta vinha a cavalo num burro

Skolimowski  é um senhor do norte da Europa, lá onde faz frio todo o ano, e arrefece apenas por altura do Verão. Como era de esperar o senhor não se sente bem no deserto. Aquela areia só é boa para os que nela crescem. Assim sendo, toda a primeira parte de Essential Killing é um filme cheio de pressa. Há ali uma vontade de fugir, o mais depressa possível àquela região funesta. Skolimowski  não se sente bem com tão alta temperatura e por isso quer despachar o pedaço mais obviamente narrativo do filme. Por isto, mas não só, a nossa personagem principal é um homem sem contexto (porque estava calor demais para filmar). É neste (a/in)cidente que a essência deste filme cresce. 
Por outro lado a descontextualização da personagem faz-se também pela escolha (acertadíssima) de Gallo para protagonista. Um actor tão evidentemente americano a fazer um papel de árabe (terrorista?) é coisa que não se pode acreditar assim, por dá cá aquela palha.
O nosso homem é pois (propositadamente) um indivíduo sem meio. Ele não fala. Ele estava com mais medo dos homens que matou do que eles dele. Ele limita-se a ter medo das coisas. Ele é mesmo grotesco, apalhaçado, ridículo. Come formigas, casca de árvore, mama numa senhora gorda, chora baba e ranho, rouba uma sardinha, grita de dor, sangra. Gallo (na sua conhecida inabilidade como actor) dá-nos o menos humano dos seres humanos. Não há ali dignidade, nem fachadas sociais, nem gostos, nem preferências.
O que Skolimowski faz, de forma irrepreensível, é esvaziar por completo aquele homem, ao ponto de ele deixar de ser homem. Passa de homem a entidade. Liberta-se das amarras da carne e cavalga (num cavalo manchado de sangue) para o limbo do mito.
Claro que depois o retrato desfaz-se com os insistentes flashbacks que vêm esclarecer demais. Que dão contexto ao homem sem meio. Dão lhe um nome, uma mulher, uma origem e tudo deixa de ter a graça que tinha.

Dito isto, está bem de ver, que dificilmente haverá um filme que seja mais político, que espelhe de forma mais delicada, a inabilidade do exército americano de lidar com as 3 frentes de guerra no médio oriente.

2 comentários:

Álvaro Martins disse...

Exactamente Ricardo, os flashbacks é que estragam tudo (este tudo é só um bocadinho eheh). Eu gostei do filme, gostei bastante até, é tipo de filme que costumo adorar até, seguir o homem, o seu caminho, a sua angústia, a sua luta pela sobrevivência etc etc, mas lá está os flashbacks são escusados, não percebo o intuito deles, a fotografia é espantosa mas cada vez mais aprecio menos esse "bonitez" no cinema, esse aspecto tão "limpinho" principalmente num filme deste tipo. A parte em que se põe a comer formigas e cascas de árvore é coisa sobre-usada no cinema, previsível, parece-me também escusado. Mas é um bom filme, isso não há como negar :)

A propósito dele, do Skolimowski, vi ontem o Deep End e esse sim é que me agradou por completo.

Ricardo Vieira Lisboa disse...

tenho que conhecer ser melhor a obra do senhor Skolimowski (para além deste, só mesmo o 4 noites com anna). Quanto às formigas, eu posso concordar que são sobre-usadas, mas desempenham, aqui, um papel de ridicularização do personagem de extrema importância.

Obrigado pela visita.