12.22.2011

As possibilidades narrativas (e eróticas) do précinema

Em relação a Crazy Horse muito se escreveu. Falou-se da lenga-lenga da instituição como ser vivo e de como este senhor filmava as nádegas (sem baba) como criança abalada pela beleza dos corpos em movimento. Mas há algo, que me parece tão mais profundo, que raramente foi referido. A forma como Wiseman encarou uma casa de espetáculos de nus (com números tão burlescos como meninas vestidas de soldados da corte britânica cobrindo as partes baixas com rabos de cavalo loiros) como um veículo de filmar as formas mais primitivas de cinema.
Já se discorreu largamente sobre como o cinema é um comboio. Ou melhor, como a imagem de uma janela reproduz, pelo movimento do comboio, a ilusão da imagem projectada numa tela. De forma semelhante, os teatros de sombras são uma cápsula narrativa que partilha muitas das mesmas noções basilares do cinema. Mas, como se diz, entre o dizer e o fazer vai uma grande distância. Entre o escrever e o filmar também. Wiseman aproveita este meio de luzes e sombras para filmar um exercício sobre as possibilidades narrativas (e eróticas) do précinema.

Para justificar esta minha perspectiva vários exemplos se apresentam, façamos uma listinha:
- A abertura do filme, temos uma tela branca (ai o dispositivo!) percebemos que umas mãos se posicionam em frente a um projector, formam a forma (ai o pleonasmo!) de uma cabeça humana que abre a boca, reformam, já é um cão que ladra, e depois é um pássaro, enfim, uma série de figuras.
- O número de transição em que as meninas têm que se posicionar em quadrados coloridos e em contraluz reproduzir a preparação que uma moça efectua quando se arranja para sair à noite.
- O número da gaiola em que é projectado nos corpos (o corpo como tela) despidos das dançarinas o padrão de um tigre, ou no número em que são projectadas bolas cor-de-rosa na mesmas meninas dançantes.
- O número, que é acompanhado pela música Toxic da Britney Spears, em que o erotismo surge do jogo (delicioso) entre o corpo e o espelho. A forma como as pernas se multiplicam numa criatura irreal é obviamente um jogo de ilusões, profundamente cinematográfico.
- O encerramento repete a abertura.

2 comentários:

Victor Gomes disse...

O numero dos espelhos é acompanhado de um cover "acustico" da musica Toxic da Britney Spears , interpretado por Yael Naim. O que é acompanhado pela musica de Anthony and the Johnsons é aquele em que a bailarina se encontra a dançar numa especie de sofa, e o seu figurino tem pontos que criam linhas por arrastamento da luz! (um pormenor pouco importante a partida, mas que pode revelar-se importante para quem viu ou tem intensao de ver o filme apos este post) não obstante, e tendo eu visto o filme de outra prespectiva, encontro este post e a tua forma de ver o filme bastante interessantes, e de facto levam-me a querer rever o filme, tendo em conta o que li.

Deixo ja agora a minha opiniao e o meu ponto de vista quanto ao filme. Em breves palavras e tendo em conta tudo o que foi dito neste post somado a qualidade que o filme tem, penso que uma das maneiras bastante interessantes de "olhar" para este é o ponto de vista do bailarino, pois enquanto practicante, e apreciador, achei bastante evidente a necessidade nao so de uma tecnica de dança bastante desenvolvida mas tambem a capacidade daquelas interpretes de encarnarem o corpo "erotico", algo que a dado momento vemos que é complicado, e ate um transtorno para as interpretes (nomeadamente no numero das "astronautas" em que o facto das bailarinas terem de se tocar, era motivo para uma delas nao conseguir fazer a coreografia), isto entre outros pontos bastante interessantes, como o coreografo, figurinos etc...

Ricardo Vieira Lisboa disse...

muito obrigado pela correcção, já actualizei a publicação.

Quanto à perspectiva, esta é a minha de cinéfilo em crescimento, mas será sempre positivo encarar o filme pelo lado dos que trabalham no meio e perceber de facto o trabalho envolvido na elaboração de um espectáculo como o do crazy horse. Aliás wiseman é o cineasta da estrutura e do trabalho, só que esse aspecto pareceu-me demasiado batido (noutros textos de outras pessoas) quando, ainda para mais, a questão do precinema era tão evidente.