4.12.2009

Comentários de um filme politicamente interventivo



The Visitor - O Visitante, título aparentemente natural num filme sobre imigração. Agora, há que dizer que as coisas não são assim tão lineares e é a mestria do realizador e argumentista (o actor) Thomas McCarthy que delineia uma certa ambiguidade logo a partir do título (objecto precioso na introdução de qualquer filme) uma vez que visitante não é só Tarek, mas também é o próprio Walter (estupendo Jenkins) que não só visita a grande cidade, mas principalmente porque ele é o visitante de si mesmo, é aquele que ruma a um ambiente desconhecido e aprende com as novas experiências e é nesta aprendizagem que o filme toma uma vertente quase pedagogica, motiva-nos a lutar a fazer qualquer coisa para combater a injustiça.
The visitor é um dos mais argutos e ácidos comentários sobre a América actual e a sua forma de lidar com uma crescente imigração ilegal. O filme funciona principalmente como um método eficaz de desvendar uma hipocrisia basilar nos EUA.
Ficou-me um plano final em que se foca uma bandeira dos estados unidos no Aeroporto e esta se vai desvanecendo em branco até não haver nada, metáfora para a desfragmentação de um país que se dizia o maior e mais belo Melting pot do mundo, só que agora trata os seus estrangeiros como animais. Basta lembrar o encarceramento em que progressivamente Tarek vai perdendo a alegria de viver que emanava durante todo o filme (o Drum circle é uma cena que rejubila felicidade - a imagem). Outro instante é a viagem de barco em que, em comunhão familiar vêm New York ao longe e admiram a estátua da liberdade; as palavras de Harvey Milk vêm-me à boca (aos dedos) No matter how hard you try, you can never erase those words quando se referia ao que estava escrito na base da estátua de liberdade e na constituição (a parte da constituição pouco interessa agora) interessa sim, o que está escrito na base da dita: Give me your tired, your poor, Your huddled masses yearning to breathe free e no fim desse discruso Milk/Sean diz That is what America is! pena é que a utopia de Milk nunca se tenha construído, porque verdadeiramente ele não era um simples defensor da comunidade gay, Milk é um símbolo de esperança como Luther King ou Ghandi.
Vemos a estátua mais uma vez no filme, num moral dentro da sala de espera da 'prisão'. Tamanha ironia ou nojenta Hipocrisia? Quero acreditar é simplesmente mau gosto de um país que se dizia a terra da liberdade e que comete os mais terríveis ataques à dignidade humana.

No meio de um tão acutilante comentário político, cria-se um terna e maravilhosa história de amor entre duas pessoas massacradas pela vida.

Um filme que tem tudo para agradar e agrada em tudo.

2 comentários:

Fernando Ribeiro disse...

Uma boa surpresa sem dúvida. :)

Abraço

Ricardo disse...

sem dúvida mesmo