4.12.2009

O Salto

Já faz quase um mês que vi The Wrestler e como já tenho referido a minha memória não é das coisas mais seguras da humanidade, daí que o que me lembro do filme são mais flashs e cenas únicas do que um filme que se quer completo e uno, no entanto já na altura tinha tido vontade de escrever sobre duas cenas em particular: a primeira e a última.
A abertura do filme é sem dúvida a melhor que me lembro de ver este ano e das melhores que me lembro (mas é melhor não confiar muito na minha memória), inicia-se o filme com o som dos comentadores de várias batalhas que Ram teve nos seus tempos áureos e vão se vendo recortes de jornal e anúncios, isto durante alguns minutos, aparecendo em conjunto os créditos de abertura, tudo em grande pompa como se fossemos tratar da figura mais proeminente da história do wrestler (e se calhar até vamos), só que depois, tudo fica preto, aparece o nome do realizador e chega o silêncio. Ficamos parados durante alguns segundos. A imagem volta. Temos uma sala de aula para miúdos da pré-primária e um homem semi-nu, vestido em licra e bastante suado sentado numa cadeira ridiculamente pequena, quando comparada com o homem que nela se senta, e ele tosse como se estivesse nos últimos dias da sua vida, morrendo; não lhe vemos a cara e assim continuamos por um bom bocado.
Kubrick tinha num plano (aquele famoso do 2001) passando desde a pré-história a um futuro longínquo, como se nada tivesse passado no meio, passa de um osso a voar para uma nave espacial. Arronofsky não consegue tal proeza, mais aproxima-se, passa de um homem em glória à sua decadência num simples plano e com pouquíssimos minutos de filme como base de sustentação. Isto tem que dizer qualquer coisa sobre o realizador. Diz que é grande. O resto do filme prova isso mesmo. A grandeza do Homem.
No final do filme depois de cenas tão emotivas como o momento em que ele corta a mão, quando joga consola com um miúdo, ou tenta reconquistar a filha, ou bebe um cerveja com a 'amiga', depois de tudo o que constroi um dos melhores filmes deste ano, depois disso, vem 'o' plano do filme, aquele que ficou congelado em cima, a que eu, se tivesse esse poder, chamaria de 'O Salto' e mais uma vez se mostra a grandeza de certos homens (para mim Arronofsky é já um génio - dos pequeninos, mas mesmo assim um génio) quando num plano meio abstracto vemos os pés a saltar das cordas do rink e voarem, supomos nós para cima do oponente. Só quem viu o filme pode perceber a inteligência da circunstância, naquele instante cristalizado na memória, tanto podemos ter a esperança, o salto, a recuperação de um mito em apodrecimento, como podemos ter o seu fim, mesmo que glorioso, final e triste. Um plano pode tanto dar esperança, como castrar as possibilidades de um futuro magnífico. Magnífico é o filme e magnifico é Rourke a quem eu daria de boa vontade o oscar.

2 comentários:

Filipe Machado disse...

Pode parecer mentira, mas ainda nao vi o filme... Sou um pecador, eu sei...

Ricardo disse...

há pois és, quem não vê um filme destes devia confessar os seus pecados e rezar um dúzia de ave marias - esta coisa de sexta-feira santa está-me a subir à cabeça.