4.02.2010

Cheiram e choram como Homens

The Messenger é.
É melhor que a generalidade dos dez filmes nomeados para melhor filme. É mais acutilante sobre a guerra que outras obras semelhantes (lembro-me de In the valley of Elah). É mais inteligente na escrita, inteligentíssima, de um argumento cru, directo e profundamente humano, sem estereótipos ou simplicismos. É mais concentrado, mais focado nos seus personagens, sem romantismo, nem dramatismos televisivos e histéricos.
The Messenger é um daqueles filme de ver e chorar por mais, só que, não nos dá o alívio de verter uma única lágrima que seja, por ser tão apertado, tão centrado, por nunca ser gratuito, por não estar ali para criticar ou julgar, por simplesmente querer existir como filme, narrativa única; filme que existe para guardar dentro de si os seus personagens, que expiam os males de uma América em stress pós-traumático.
Sempre me fez impressão que um país inteiro, através dos seus cineastas, conseguisse tão rapidamente reagir às maiores catástrofes humanas, conseguisse engolir-e-andar a morte e a mutilação de uma inteira geração de jovens, sem no entanto apontar dedos e sendo verdadeiro e nunca demagógico (neste país à beira mar plantado, ainda não conseguimos libertar-mo-nos da guerra de há mais de 35 anos).

Há momentos de extrema perfeição: a começar pela primeira vez que a parelha informa uma família, a câmara não mexa dos protagonistas, não perde um momento nos choros nem nos gritos das mulheres em fúria, porque o que lhe interessa são aqueles homens que têm de vestir as roupas da morte e anunciá-la. Essa concentração, não é obra do acaso, repete-se na sequência de Buscemi, ou mesmo quando eles chegam a um bairro e todas as donas de casa e os seus filhos, que brincam no parque, se aproximam já antecipando a morte que eles trazem. E depois temos um Harrelson e um Foster maiores; tão revoltosos, cada grama deles é chumbo emocional. Ah! e ainda uma romantismo tão seco, tão de pérola que cristaliza o espectador.
Cheiram e choram como Homens, que é isso que nós todos somos, e eles não são diferentes, mesmo que lhes caiba a inglória tarefa de fazer trazer a morte à Terra.

2 comentários:

Álvaro Martins disse...

Já tinha vontade de ver. Com este texto mais curioso estou ;)

Ricardo disse...

veja sim que é bom, muito bom mesmo.

Deixe-me só dizer uma coisinha, aquilo lá pelo seu espaço andou tremido com a controvérsia do The Hurt Locker, eu sou o primeiro a vir defender o filme, mas aquela linguagem e baixeza envergonham qualquer um.

Continue, porque tipos como aqueles são poucos e o que é preciso é falar de cinema, bem ou mal.