8.09.2010

Nasce como documentário, mas cresce pela ficção

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24 City é um portento.

Pode ser que seja o meu gosto a decidir a razão da minha lógica crítica (mas qual será a lógica crítica sem gosto pessoal?) que me leva a gostar tanto deste singularíssimo filme de Zhang Ke Jia (o realizador de Still Life, também esse filme de grande elegância social), pois vejamos: há em mim um gosto verdadeiro para com a ficção infectada de documentário (daí que Aquele querido mês de Agosto me tivesse tocado tanto), mas mais que gostar existe uma componente ética nestes projectos que me sacia, a considerar: O princípio alargado de Heisenberg da influência da observação no desenrolar dos acontecimentos; isto é, o problema de câmara alterar a 'verdade' que capta, sendo por isso impossível captar verdade. [certo jornalismo, nacional e estrangeiro, esquece-se disto e crê piamente na verdade dos testemunhos, no jornalismo-de-vão-de-escada, nos choros e tragédias, dos comentários de rua; como se por algum motivo estapafúrdio a 'verdade' de um transeunte é maior que aquele dada por um pivô ou repórter].
Assim sendo 24 City nasce como documentário, mas cresce pela ficção, não que se queira chegar a verdades manipuladas (que acontece) nem a caricaturas (isso nem de longe), pela ficção cria-se a verdade que a Verdade não consegue atingir (leia-se: os actores vem representar aquilo que as entrevistas a trabalhadores não conseguem fazer), tentando explicar-me melhor: para contrariar a impossibilidade de captar a verdade, capta-se a ficção mais aproximada, que vem tapar as fissuras do real.
Mas então o que é que 24 City é? Dizer que é um falso documentário é reduzir a sua amplitude, mas simplificando podemos dizer que sim (apesar de haver verdadeiros depoimentos no caldo emocional e nostálgico que é o filme). Esta obra versa sobre o encerramento de uma fábrica de armamento numa cidade periférica da China (construída no tempo de Mao e que havia tido o seu pico produtivo nas guerras com o Japão e Coreia), que é desmantelada para dar espaço à construção de um condomínio de luxo de nome 24 City sendo os dramas de cada um dos seus funcionários o mote da sua narrativa (que mais que recordar a fábrica, recordam a sua vida, e é disso que o filme se alimenta, das pequenas histórias que nos vão sendo apresentadas, desde uma mãe que perde o filho, à jovem trabalhadora solitária e deprimida, passando pela senhora de meia idade desempregada e o antigo trabalhador que visita o seu mestre, mas temos ainda os jovens com futuro, aqueles que não querem a vida dos pais, aqueles que vêem na fábrica o grilhão que castrou uma geração).

24 City é sobre um China convulsa e esperançosa, mas mais que isso é um objecto de um cuidado raro, de uma compreensão (quase infinita) dos temas que retrata.

2 comentários:

Álvaro Martins disse...

Ainda não vi, mas tenho grandes expectativas quanto a este.

Ricardo Vieira Lisboa disse...

Vale muito a pena, e como escrevi posso ser eu e o meu gosto, mas eu adorei, quem sabe outras pessoas achem falso, chato ou até pretensioso, para mim é sublime.