10.25.2010

Batata agri-doce

 O crítico João Lopes fez uma analogia com tubérculos que é aqui muito conveniente. Não será totalmente anti-científico afirmar que a batata é um alimento basilar da alimentação mundial. Por outro lado, da mesma forma, não se poderá considerar equilibrada uma dieta que tenha a batata como ingrediente único. Hoje em dia, com a propagação (infestação?) da telenovela, temos uma população que vê nesta forma de narrativa audiovisual a único forma de alimentação cultural. Não que a novela seja prejudicial, mas não é suficientemente nutritiva.

Curiosamente, é com um filme, como La teta Asustada, que se combate esta mal nutrição. Um filme sobre gente mal-nutrida. Sobre uma população que não tem dinheiro nem para enterrar os seus entes, para pagar o seu casamento, mas que sonha com as grandezas que não pode pagar, sonha ter um vestido de 5 metros de seda, sonha com bodas enormes e memoráveis. Como não pode, vive do fingimento.

O filme de Cláudia Llosa é um objecto raríssimo pela forma como gere os símbolos e simbologia da batata: a batata como sustento; a batata como cancro, força maligna; a batata como símbolo do amor e do carinho [a flor da batateira - na imagem]. É raro que um filme alcance níveis de candura e romantismo (leia-se clacisismo helénico) - com uma moça que a troco de uma canção diária alcança a liberdade da mãe. Mas por outro lado constrói um realismo seco (como vem sendo comum nos filmes latino-americanos) pontuado por momentos de extrema dureza como são as falsas bodas. Realismo mágico - como se fala do García Márquez - só que em forma de filme.
O balanceamento destes dois registos é como a batata: pode ser crua e amarga ou doce em puré.

2 comentários:

Rita Costa disse...

Muito bem; agora tenho que ver o La teta asustada!

Ricardo Vieira Lisboa disse...

vê que vale mesmo a pena