1.21.2011

A consciência do milagre e a canja de galinha

Raramente vai acontecendo; um argumento perdido (de uma grande realizador) surge, alguém se propõem a realizá-lo. O filme lá sai, sempre uma desilusão! Mas esta nova obra de Sylvain Chomet é uma caso de fermentação perfeita, um caso de açúcar em ponto de pérola.
Muitas vezes me insurgi contra certos críticos que analisavam os filmes, não pelo que eles eram de facto, mas sim pelo que se proponham ser (ou melhor, pelo que tinham obrigação de ter sido), caso recente é The Tourist. Enquanto escrevo este texto, acontece-me o oposto: a singularidade do filme de Chomet vem daquilo em que se podia ter transformado, e conseguiu evitar. A forma como repudiou a colecção de gags tatianos mantendo os gags de Tati. A forma como consegui ter uma precisão emocional nunca antes conseguida, afastando qualquer sentimentalismo. A forma como é consciente do milagre que é fazer renascer Tati em filme, sem nunca se transformar numa lista de referências cinéfilas (mais ou menos) obscuras.
Este último ponto é, a meu ver, o mais importante. Tati morreu em 1982, mas com este filme temos a oportunidade de o ver de novo e fresco (basta ver a cena da oficina de automóveis para sentir o Tati pulsante). No entanto, temos também o novo filme de Chomet nas salas; cheio das suas marcas autorais tão características (basta ver as cenas da banda adolescente ou a personagem do coelho - que no argumento original era uma galinha). Este bambalear entre a referência e o original é um espectáculo de corda-bamba assustador, por ser tão perigoso e por acabar por ser profundamente tocante.
Um dos momentos em que se ganha uma dimensão divina é quando a moça cozinha uma sopa: por uma lado o nosso mago fica apreensivo que o cozinhado seja o seu coelho de estimação, num momento profundamente tatiano, mas depois essa mesma sopa é oferecida ao vizinho de quarto, um palhaço depressivo que se preparava para o enforcamento (coisa que não estou em crer que seja do argumento original). São estes momentos que cristalizam a ternura de um filme, que cada nova mão por onde passou, só ficou a ganhar. 

2 comentários:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Gostei do blog. Parabéns!

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Ricardo Vieira Lisboa disse...

muito obrigado.

já visitei e pareceu-me muito bem.