1.16.2011

O tempo anda, apesar de nada parecer mudar

A zero em comportamento organizou na Culturgest um ciclo da obra integral de Sergei Losznitsa, para minha infelicidade só vi My Joy, primeira obra de ficção do realizador, que estreia comercialmente na próxima quinta-feira.


Logo no início, ainda não tem o filme cinco minutos de duração, o nosso homem vai à cozinha de sua casa arranjar a marmita do almoço. Entra em casa, a mulher finge que dorme, ele abre o frigorífico tira o termo e um pão, guarda tudo numa sacola e sai, não se despede da mulher. Isto corre num plano geral da cozinha, que centra o frigorífico com o relógio da parede por cima. Os ponteiros do relógio não se mexem, mas ouvimos, baixinho, um tique-taque. O tempo anda, apesar de nada parecer mudar.
É esta a mensagem deste murro feito em forma de filme. O que Loznitsa (nascido na antiga URSS, vivendo actualmente na Alemanha, apesar de toda a sua obra ser sobre a Russia) está a dizer é que há uma condição inerente ao homem de desrespeito e desconsideração pelo outro, que é independente do regime político.
O realizador, que esteve a comentar a sessão, contou um episódio curioso. Aquando da queda do muro, um conjunto de filósofos foi convidado para comentar o acontecimento na rádio publica, um deles quando instigado a comentar a morte do comunismo respondeu que uma coisa que nunca nasceu não pode nunca morrer. A ideia é que o comunismo russo não foi um poder, foi mais um estado de ser, como coisa viscosa onde as pessoas boiavam e que como não tinha tido estrutura, esta não podia ruir. O filme gira todo à volta desta consciência do indivíduo como balde de esterco potencial, da maldade consciente, do desrespeito voluntário.
Mas não nos percamos numa visão socio-política do filme, Loznitsa faz cinema, e mais, fá-lo com tal agilidade que usa tão bem o plano-sequência como o plano contra-plano, pega no fora de campo e na elipse e gozas ao máximo, salta entre flashbacks, vai ao road movie, passa pelo filme de terror e consegue fazer-nos sorrir de vez em quando. O que mais agrada é (apesar de tudo o resto) a forma como a câmara nunca pára verdadeiramente, há sempre ali uma agitação, um desejo de filmar as pessoas, por exemplo: numa ida ao mercado, a câmara visita as caras dos transeuntes num bailado hipnótico até que pára em frente a um homem escuro e enrugado, pensamos que ele vai falar connosco mas de repente sai um homem da taberna ali ao lado e a câmara decide segui-lo, mas no fim ele vai-se embora e ela (a câmara) volta ao nosso protagonista.
Se algum mal houver neste filme é o facto de esperar demais do seu espectador, de pedir-lhe que jogue as peças por ele, de cruzar as linhas por ele, de intuir o que não se sabe, de supor o que se suspeita. Uma batalha em que dificilmente sairemos vencedores.

2 comentários:

Álvaro Martins disse...

Parabéns pelo texto, está muito bom. E se já estava curioso, mais fiquei :)

Ricardo Vieira Lisboa disse...

Muito obrigado e o filme é mesmo muito bom.