2.10.2011

A carnalidade do toque

Hereafter não é excelente, nem muito bom é com certeza, mas deixa no espectador mais que a maioria dos 'muito bons filmes' que por ai se anunciam. Eu sou o primeiro a admitir que, se o filme falha, isso acontece por causa de Eastwood, e se acerta, é em grande parte pelo guião de Peter Morgan.
Eastwood é um realizador singular, construtor de magistrais obra sobre o envelhecimento (usando o seu próprio envelhecimento como motor criativo); é também o realizador que se deixar levar pelos projectos e faz os filmes um-a-um, recusando uma posição demasiado autoral, apesar de não recusar a continuidade da sua obra. Se nuns filmes, essa individualidade dava origem a coisas verdadeiramente únicas e vibrantes (White Hunter, Black Heart) noutros, o resultado era frouxo (Midnight in the garden of good and evil). No entanto, muito do que se tem dito sobre Hereafter é profundamente injusto, o que peca no filme não é, de todo, a forma como Eastwood encara o oculto nem sequer a forma como esse oculto nos é apresentado (o filme não prega nem tenta vender qualquer ideia ou misticismo, não se agarra a nenhuma ideia religiosa consistente, simplesmente apresenta o imaterial como material); o que falha é mesmo a forma como o realizador gere as três história em simultâneo. Ele não consegue fugir a uma noção de geografia fílmica tipo 007, isto é: se estamos em Londres temos que ver o Big Ben, se vamos para Paris apanhamos com a Torre se vamos à Tailândia, lá vem a praia com flores e a leve brisa oceânica. Por outro lado, aqui acontece o mesmo que em The Changeling (um filme a querer ser vários): se esse era filme de tribunal, de investigação policial, de terror e de hospital psiquiátrico; Hereafter quer ser filme catástrofe (com efeitos na proporção), realismo inglês, paranormal e drama romântico. Isto é de louvar, mas acaba por condicionar o filme a um estilhaçar narrativo, que só raras vezes lhe permite elevar o espectador ao limiar do arrebatamento. [outro aspecto a rejeitar é o product placement: computadores de Apple, telemóveis Blackberry, carros BMW e a lista continuaria; um realizador como Eastwood já deveria ter a força para evitar este género de constrição criativa, ou pelo menos fazê-lo de forma discreta]

O filme cresce, por se dedicar a uma consciência do moderno como entre-cruzamento emocional e humano. Se repararmos, é a Internet que denuncia o nosso vidente, é também o telefone que dá a conhecer o seu segredo e é o telemóvel que leva aos acontecimentos trágicos como um dos miúdos. Por outro lado são as cartas que avisam da libertação e da paixão do protagonista, é, acima de tudo, a palavra (leia-se, escrita em papel) que cria a relação com a jornalista francesa, e é a palavra (leia-se, falada) que aproxima os dois alunos na aula de cozinha. [a propósito, é de salientar a pureza dessa cena memorável, que é a degustação na aula de cozinha italiana; a forma como os personagens recusam as imagens, com as vendas, e passam a confiar apenas na fala e na presença um do outro para se seduzirem].
Por outro lado reparemos na importância do toque, a forma como este é evitado ao longo filme; porque é o toque - a consciência do outro pelo corpo - a coisa que hoje em dia menos se preserva, pela forma como as relações se estabelecem através de máquinas. E é isso que verdadeiramente importa no filme, a forma como nos ligamos aos outros (pela fisicalidade das relações pessoais).

P.S.: Este é a 500º publicação deste espaço, obrigado àqueles que me têm lido e apoiado com os seus comentários.

2 comentários:

Flávio Gonçalves disse...

Já tinha lido algumas linhas do teu texto antes mas voltei agora para comentar o post, já que acabo de vir do cinema e deste Hereafter. Lembrei-me particularmente de uma: «o que peca no filme não é, de todo, a forma como Eastwood encara o oculto nem sequer a forma como esse oculto nos é apresentado (o filme não prega nem tenta vender qualquer ideia ou misticismo, não se agarra a nenhuma ideia religiosa consistente, simplesmente apresenta o imaterial como material)». Sem dúvida que estamos de acordo, apenas não gostei que ele nos mostrasse as visões. Particularmente a última (visão do espectador?), que achei abominável. Mas aí entramos num ponto que discordamos. Se o filme falha, e falha, é no argumento que, apesar de bem desenvolvido, agarra-se a soluções previsíveis, e não na realização. Não tomei como defeito o que apontaste (a forma como gere as três histórias), apenas, e isso é inteligente de se apontar, a «geografia fílmica tipo 007» e o «produtc placement», que são comuns.
Gostei bastante dos teus últimos 2 parágrafos.
Enfim, em suma, é um filme que gostei, interessante. Não compreendo a enchente de ódio a este filme.

Abraço

Ricardo Vieira Lisboa disse...

eu também achei que as visões eram detestáveis, mas não vejo melhor forma de acharmos a personagem de Damon credível se não confirmar-mos a factualidade das seus poderes. Não escrevi também que a história francesa não serve para nada a não ser para o desfecho e por isso digo que Eastwood não gere bem as três histórias.
O que eu acho inteligente no argumento é ir buscar a história do tsunami e dos atentados em Londres e juntá-los de forma pouco forçada, mas estou em crer, que se Eastwood tivesse dormido melhor sobre a história a coisa tinha saído melhor.

Muito obrigado pela atenção e realmente, faz-me impressão que uma certa onda negativa homogenize o pensamento de tanta gente.