3.02.2011

Geração

Quando se fala de geração há que ter tento na língua. Bater o pé antes de falar. Coçar a testa antes de pensar. Geração não é uma sitaução temporal ou geográfica (nem mesmo nacional), geração envolve uma noção de grupo, com ideais comuns, com motivações concorrentes. O jornalismo que se vem fazendo vê a sociedade que retrata como caricatura de si própria; é incapaz de pensar um acontecimento na sua singularidade de envento particular (mal que afecta toda a ciência social). Deste modo fala-se de geração como se daí se criasse de facto uma unidade entre os indivíduos. Mas isso não acontece.

Os Deolinda escreveram uma música. Ui. A música tem tanto sucesso como qualquer batucada (mais ou menos) electrónica da Lady Gaga, mas em vez de a indiferença ao facto ser a opção tomada (o que é costumeiro), decidiu-se (sujeito desconhecido) empolar um vídeo viral - e se fossem gatinhos fofinhos? - numa manifestação consertada de uma faixa populacional com a coerência de uma gerção. Tudo mentira. O facebook não liga. O facebook não torna uno. O facebook nada mais fará que aquilo que os que por lá navegam fazem.

Não existe gerção facebook, não existe geração à rasca (geração gatinhos fofinhos?), não existe geração. Não existem problemas comuns, é tudo tinta. Litros, conspurcando as páginas dos diários. Existem problemas, sim. Mas cada problema é só, particular. Nunca conheci ninguém da geração Povo-que-lavas-no-rio ou geração Grândola-vila-morena. Acontecimentos como a guerra do ultramar unem de facto as pessoas; pensar que a partilha de vídeos nas redes sociais é algo dessa magnitude é estar a dourar a pílula, ou melhor, dourar as aberturas dos tele-jornais. Não me pronuncio sobre a música em causa, não me pronuncio sobre o facto de haver de facto uma larga faixa populacional em situação de emprego precário, pronuncio-me sobre um tique jornalístico que em nada engrandece a profissão, nem a sociedade que retracta.

4 comentários:

Miguel Domingues disse...

'Tás enganado, Ricardo. Há uma geração parva, pormuito que o nome me repugne. Faço parte dela, são meus colegas, vejo-os todos os dias e são algumas das melhores pessoas que conheci. E, como acontece à maior parte das boas pessoas neste país, são mastigadas e deitadas fora como pastilha. É triste, mas podes crer que essa canção faz todo o sentido. E podes crer que o termo geração também: nascemos todos na mesma altura, temos as mesmas referências e todos os dias somos sodomizados da mesma maneira...

Miguel Domingues disse...

'Tás enganado, Ricardo. Há uma geração parva, pormuito que o nome me repugne. Faço parte dela, são meus colegas, vejo-os todos os dias e são algumas das melhores pessoas que conheci. E, como acontece à maior parte das boas pessoas neste país, são mastigadas e deitadas fora como pastilha. É triste, mas podes crer que essa canção faz todo o sentido. E podes crer que o termo geração também: nascemos todos na mesma altura, temos as mesmas referências e todos os dias somos sodomizados da mesma maneira...

Ricardo Vieira Lisboa disse...

aí é que a porca torce o rabo, acho que não existe de facto unidade na 'geração', nasceram na mesma época e partilham as mesmas referências, mas isso não lhe dá experiências comuns de sustento. Ou melhor, aquilo que partilham não é estarem à rasca ou gostarem da mesma música, é sim terem se formado superiormente e verem goradas as suas expectativas.

Talvez existe unidade, mas não aquele que se quer representar.

Anónimo disse...

Olá Ricardo, como posso contactá-lo por email?
deixo-lhe o meu mafalda@panorama.org.pt

Obrigada.