5.01.2011

Quadros vivos que perduram na memória


E o Tempo Passa é um filme de inclassificável beleza. Vi-o há mais de dois meses e desde então várias imagens me vêm assombrando. Momentos singulares. Coisas pequenas. Sofia Aparício com um colar de brilhantes olhando-se ao espelho, apreciando a sua beleza masculina - os ossos do esterno a surgirem por de baixo do dito colar. Isabel Ruth entrando lentamente pelos ramos de um salgueiro que oscila ao vento. Um moço que experimenta as mamas da irmã e respectivas amigas. O cadáver na praia. Sofia Aparício nas sombras do plateau vendo dois jovens se amassando. O açougue logo depois da entrevista televisiva. O gato ronronando. A conversa entre o Açougueiro e o Príncipe.
Enfim, Alberto Seixas Santos, que não filmava desde Mal (1999) regressa com um filme corrosivo sobre o meio da televisão, em particular das novelas juvenis, mostrando paralelamente o desencantamento de um estrela em ascensão. Mas tudo isto com respeito pela dignidade dos personagens, com um ritmo ergonómico e uma atmosfera progressivamente opressiva e sufocante, mas, acima de tudo isso, um prazer em criar estes quadros vivos que perduram na memória do espectador.

O que é curioso verificar, é a forma como Vasconcelos pegou no tema e fez A bela e o Paparazzo e depois verificar a sensibilidade e a cinefilia com que Seixas Santos fez o seu filme. Existem vários pontos de contacto: a estrela que sofre as agruras do reconhecimento público, o realizador hiperactivo e ralhão, a pretensão da actriz de fazer teatro (num é Tchekov, noutro é Brecht). No entanto não podia haver mais distanciamento entre os filmes: Vasconcelos filma (como já alguém afirmou) um anúncio publicitário de duas horas e tenta criticar a vulgaridade das telenovelas caindo na esparrela de recorrer exactamente ao mesmo registo simplista; Seixas Santos, por seu lado, apresenta-nos uma desconstrução da ficção televisiva através de um personagem que crê (verdadeiramente) no enredo, ou apresentando-nos cenas que estão enquadradas no enredo da novela, sem que as mesmas fossem sequer imagináveis por quem as escreve e realiza. Ou seja, se um se perde nos labirintos da crítica, ou outro evidencia pela qualidade o quão mau são de facto a maioria das ficções televisivas.

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