11.20.2010

Notas molhadas na corda da roupa

Antes de lerem o que vos apresento, passem pelos seguintes textos: O único dia fácil foi ontem de Miguel Domingues, Lola, Brillante, Lola de Carlos Natálio, Um Big Bang chamado Brillante Mendoza de Vasco Câmara e o artigo de Andrew Schenker na revista Slant (este último por ser o mais próximo da minha abordagem).

O dinheiro faz girar o mundo. O dinheiro é o motor da vida dos pobres. Não há moral nas classes mais baixas. Não há vingança. Não há justiça. Porque isso são luxos dos ricos, que tendo dinheiro para comer e se divertir, têm tempo para pensar nessas coisas da bondades, e caridade. Quem nada tem, por nada vai lutar, nem sequer para que o assassino do seu neto seja julgado pelo crime praticado. Quem não tem dinheiro, não acredita na punição, apenas no inexistente jantar de amanhã. [esta é a primeira forma de repressão e não é preciso recuar muito na nossa história para lembrar que a pobreza é, por mais estranho que isso possa parecer, uma forma (e peço desculpa pela ironia) barata de controlar as populações]

É sobre o dinheiro que Lola de Brillante Mendoza gira. Um conto moderno sobre a perversidade da pobreza. Note-se: o filme começa com uma das avós a comprar a vela que colocará no local do assassinato do neto, essa mesma avó não tem dinheiro para o enterro, são os vizinhos que ajudam a pagar o funeral, é uma burocrata camarária que com um telefonema paga as dívidas da família, a outra avó rouba os clientes para poupar algum, viaja quilómetros para pedir dinheiro a familiares e depois de estes apenas de lhe oferecerem verduras e ovos, esta vendo tudo o que pode às pessoas que encontra na estação de comboios, esta mesma senhora penhora a televisão (a qual passa constantemente programas do género Deal or no Deal), pede dinheiro emprestado a agiotas de bairro para pagar a libertação do neto. Há mesmo uma cena que é magistral: uma das senhoras deixa cair umas notas ao chão, num dia de chuva, apanha-as. Cena seguinte. A velhinha em casa, pendura as notas molhadas na corda da roupa. Porque o dinheiro não é luxo, é comida e roupa, é sobrevivência. Por isto, por ser aquela gente tão pobre, o aparecimento de peixes no lago é um milagre, porque milagres são aqueles acontecimentos que salvam vidas, e lá, em Manila, ter que comer é uma batalha ganha na luta pela sobrevivência.

Lola é um filme brilhante por isto mesmo, por retratar uma população paupérrima, sem uma pinga de voyerismo, do o fazer sem cedências, e com um realismo ácido, mas, no entanto, temos um melodrama, cheio de segundas leituras, simbolismos fortíssimos, crítica ao sistema judicial, uma espiral de desencantamento.

P.S.: Lembrar que este filme foi editado em DVD com Kinatay (o filme anterior do realizador e inédito em Portugal) simultâneamente com a estreia em sala. Tudo graças à distribuidora Alambique. History of Mutual respect abria o filme, curta que ganhou o prémio Leopardo di domani em Locarno.
P.S.: Outra coisa curiosa é que, já este ano, apareceu um filme que tratava o simbolismo do dinheiro de forma curiosa, Madeo, assim como um que tratava uma sociedade tão depauperada que a tarefa de enterrar os seus mortos era quase inultrapassável, La teta asustada.

2 comentários:

Tiago Ramos disse...

Adorei o filme. Mendoza surpreendeu-me e acho este realismo social fascinante. Estes murros secos que recebemos no estômago a cada frame...

Ricardo Vieira Lisboa disse...

mas como disse, mais que o realismo o que este filme faz de forma extraordinária é esconder nessa acidez uma estética de melodrama clássico cheia de simbolismos