3.30.2012

Abril, àguas mil

Os meus colegas peticionários anunciaram, há já quase uma semana, que as noites de cinema da Rtp2 estavam de regresso com a saudosa rubrica 5 Noites, 5 Filmes. Eu fiquei alegre. Muito alegre. Este era um dos objectivos fundamentais da nossa petição, o regresso da exibição REGULAR de cinema na Rtp2. Mas como já sei o que a casa gasta, resolvi esperar até que a programação da segunda semana de Abril saísse, de modo a confirmar que esta opção da direcção do canal não era resultado de um desejo aleatório de passar filmes. Confirma-se portanto que é para durar. [parece que afinal era só por causa das férias da Páscoa]


Começando Abril, temos uma colecção de 5 filmes sobre a juventude (para simplificar as coisas), um dos quais já exibido na rtp2 no último mês de Dezembro, a propósito de um ciclo dedicado aos vampiros - Let the right one in. A segunda semana será mais difícil de classificar, mas podemos encará-la como um ciclo dedicado à importância da preservação da imagem no compreensão do presente e do passado, com filmes ensaio como This is not a film (já exibido também, numa sessão dupla), Film Socialism, ou Autobiografia de Nicolae Ceausescu. A acompanhar estas 5 noites temos uma sessão dupla com um filme de Olmi (a propósito da retrospectiva que festa do cinema italiano, a cinemateca e Guimarães organizam sobre o realizador) e Noites Brancas, filme recentemente editado em dvd. No fim-de-semana anterior, talvez devido ao sucesso de Hunger Games, é exibido Pleasentville (também já passou pelo canal) do mesmo realizador, e Ben Hur, talvez a fazer parelha com as romanadas que a RtpMemória insiste em repassar todos os fins-de-semana.
O que se percebe é que embora a vontade seja significativa (de passar filmes, de os passar com lógica, de passa-los ainda frescos, de o fazer em parceria com os festivais que se organizam, e reflectindo o que se vai passando no mundo) há coisas que ainda não estão totalmente oleadas na engrenagem do canal.
Por exemplo, durante todo o mês de março, as quintas feiras forma espaço para documentários portugueses, entre os quais Bobby Cassidy e O meu amigo Mike ao trabalho (ambos já exibidos noutros devaneios programativos) mas com o início das 5 Noites, 5 Filmes, esse espaço, que certamente ia ganhando espectadores, desapareceu. Outro caso é por exemplo a estreia do semanário dedicado à literatura - Mar de Letras, que será exibido ao Domingos pelas 7 da manhã (o segundo episódio terá como convidado Miguel Gomes a propósito de Tabu). Outro caso semelhante é a exibição da série sobre músicos - Bravo - nas madrugadas de sexta.[está às madrugadas por ser já repetida]

Se de alguma forma se depreende que a direcção do canal deu ouvidos àquilo que pedíamos (ainda que de forma tão desgarrada do ponto alto da nossa petição que dá a sensação que quiseram dar tempo ao esquecimento) há um aspecto, que vejo como fundamental, que não foi abordado (e não parece que venha a ser). Ele é: a contextualização do filmes exibidos e um desejo de ensinar cinema, programando filmes que não tenham estado em sala nos últimos anos.

3.24.2012

Semelhanças - CVIII

 A Fish Called Wanda (1988) de Charles Crichton

Ace Ventura (1994) de Tom Shadyac

Não se brinca com a comida...

3.23.2012

Houve hoje um acidente em Tondela com um autocarro de transporte escolar. As televisões fizeram notas de roda-pé coloridas a avisar da proximidade do facto e da sua gravidade, pouco depois das 8 da noite os três canais noticiosos portugueses informavam respectivamente:

SicNotícias: 1 morto e 13 feridos
RTPInformação: 10 Feridos
TVI24: 2 feridos graves e 7 ligeiros

Mais tarde a notícia ganhou relevo de comunicação verbal, onde se anunciava (na SicNotícias) que o resultado de mortos e feridos era 1 e 13, embora a legenda corrigisse para 12 o número de feridos.

O que isto revela é que numa inabalável cede de noticiar - Última Hora - os jornalistas tentam criar facto jornalístico pelo colorido do quadro que envolve a imagem, fazem-no porque são modernos, desta época em que o agora vale mais que tudo. Imediato, sim, já. E cometem-se os erros da mais vulgar incompetência só com vista a alcançar essa marca da audiometria televisiva. Enfim, há que saudar o Público por compreender que a informação ruidosa e imediatista pode passar a viver neste meio, por vezes peçonhento, que é a rede e o jornalismo fica para os espaços de confiança, o papel (e a televisão?).

3.20.2012

Maria Bonita, de olhos extraordinários, casada com um sapateiro, Maria Bonita tinha simplesmente mandado dizer a Lampião que, mesmo sem nunca o ter visto, o amava até à locura.
Intrigado, Lampião apareceu um dia, acompanhado do seu bando na casa do sapateiro, e Maria Bonita, ao abrir a porta e ver quem era, disse em voz alta para que não houvesse dúvida sobre as suas intenções:
- É a ele que eu amo. - E dirigindo-se ao estupefacto Lampião: - Tu me quer levar?
- Eu quero o que tu quiseres, Maria Bonita.
Petrificado e mudo, descrendo os seus olhos, o pobre sapateiro viu a mulher encher dois sacos com roupa, enrolar um cobertor e finalmente, atentando nele, dizer-lhe por única despedida:
- Adeus, José.

Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia - A Aranha, J. Rentes de Carvalho, Quetzal, 2011

3.18.2012

A recusa do susto, a alquimia horrífica e o riso como catalisador do medo

Sobre The Innkeepers há muito que falar, o Luís já iniciou um primeiro tomo (fico à espera dos próximos), eu proponho-me a falar de três aspectos que são fundamentais (e fujo desse outro que é tão mais importante que estes que agora vou tratar: o trabalho do som); eles são, um, a utilização irónica dos sustos, dois, a alquimia horrífica, que transforma o temor em pânico, três, o riso como elemento catalisador do medo.

Ti West começa o filme logo com um susto. Uma brincadeira à lá Paranormal Activity, coisa que a moça diz ,e com todo a razão, que se trata de uma enorme parolice de adolescente pateta (o realizador-produtor-argumentista-montador a falar pelas suas personagens). Os outros sustos, aqueles que nos fazem saltar o coração para fora do peito são sempre sustos por acidente. Ele a aparecer sem querer assustar ninguém, mas assustando. Ou seja, o jump scare é aqui resultado de desentendimentos. Nunca têm como função prosseguir a narrativa, são válvulas de escape, para ver se o espectador se aguenta até ao fim sem lhe dar uma suripampa. Aliás, sempre que um fantasma entra em cena, quer seja a morta quer seja o morto, aparecem primeiro no enquadramento antes que ela os possa ver, ou seja, o espectador já sabe que o susto se aproxima e por isso não se assusta.

West faz aqui (e ao que parece, nos seus outros filmes, que eu não vi) um exercício sobre essa coisa que é transformação do temor, do receio, do medo em coisas mais destruidoras como o pânico e o horror. Isto é, West desenvolve aquilo que são simples desconfianças, coisas tão naturais como recear um ranger de portas ou uma corrente de ar, em algo tão perturbante que difilmente nos sentimos intactos no final da projecção. Então o que West está a dizer é que o mal não existe por si só. O mal como força destruidora é coisa ausente dos seus filmes. Ele diz-nos que o mal é resultado de um crescendo. Uma alquimia, que do nada se faz visível. Ninguém no filme vê a morta para além dela. É ela que se tranca no escuro. É ela a causadora da sua morte, ao colocar o cadeado na porta da cave. É ele que se enclausura com aquilo que ela mais receia. Enfim, West sabe muito bem isto e daí a grandiosidade do último plano (a imagem): a câmara desliza para dentro de um quarto do hotel e fica lá, à porta a mostrar-nos que não há nada. Nada. E depois a porta fecha-se num estrondo. (uma corrente de ar ou espírito de uma morta?)

O riso é finalmente a coisa mais extraordinária que por aqui se passa. Acho que nunca, talvez me engane, se fez um cinema que equilibra-se o puro horror, aquele que nos leva a desejar sair da sala por ser insuportável, e ao mesmo tempo um humor delicioso. A este propósito temos aquela que é a primeira fase da espiral mortal que conclui o filme. Depois de uma conversa romântica os casal dirige-se à cave para inspeccionar os espíritos. Enquanto ela está encantada com o mundo paranormal, ele está petrificado, e sempre que ela se excita com um barulho, uma luz, uma corrente de ar, ele guincha baixinho e acagaça-se mais um pedacinho. E nós? Estamos ali, sem saber se devemos achar graça à situação, ou fugir como ele tanto deseja. Talvez West tenha encontrado um constrangimento físico no ser humano, este de ter de lidar, em simultâneo, com emoções tão dispares e fundamentais: o riso e o medo. E talvez por isso, The Innkeepers seja um feito maior que o homem que o fez.

3.17.2012

Eu gosto (começar um texto sobre War Horse com 'eu gosto' deve afugentar muita gente) de filmes que assumem a sua vertente inchada. Acho graça aos filmes que vivem nessa corda bamba dos exagero, do ridículo, do piroso. War Horse é um filme que quer ser assim, mas não consegue. Plano fundamental que justifica esta perspectiva é esse em que o arado puxado pelo ainda potro fracote, num impulso de força e sorte, racha um calhau em dois. Spielberg a achar-se Ford é uma coisa divertida de se ver, ainda para mais quando o moralismo de um se ajusta tão mal ao outro (embora Ford não seja realizador inocente nessas coisas). Outro aspecto que aponta neste sentido é esse receio de filmar a morte de frente. Durante a primeira hora de filme vemos o realizador que se cimentou com filmes sobre o acto de matar a evitar mostra-lo. Primeiro é o capitão que morre o entre ir vir de um contra-campo, depois os miúdos que são executados na sombra de uma vela de moinho, e depois um cavalo que é abatido num fora de campo. Claro que depois ele não consegue resistir mais e tem que lançar-se na senda Private Ryan e da guerra do tiro no miolo com salpicos de sangue. É mais que tudo curioso ver Spielberg tão claramente fora do seu meio e tão desejoso de fazer diferente; mas é pena que caia na funda cova do seu umbigo.

3.16.2012

Demme percebeu que o elemento fundamental do cinema de terror (e derivados) é essa coisa da câmara subjectiva; portanto construiu todo um filme em redor dessa coisa que é o olho. Os campos contra-campos de 180º são-no assim para que vejamos os actores nos olhos, mas mais que isso, para que vejamos pelos seus olhos. É assim que surge o terror, sentir-mo-nos na pele do monstro (e não há cá dimensões de humanidade) e sabermos que somos impotentes nas suas (e logo nossas) atrocidades. Daí que a cena culminante de pavor é aquela em que estando apagadas as luzes passamos a ver Foster pelos óculos de visão nocturna do (cerial) killer, mas mais pavor se acrescenta pelo facto de (por estar escuro) ela não ver o papão (ou seja nós). 

3.09.2012

Numa semana em que estreiam 9 filmes (e mais de metade deles mete medo), dou umas sugestões de filmes que bem podiam estrear mas que nenhuma distribuidora parece ter deitado a unha; e uns outros que bem podiam ser estreados mesmo com grande atraso (o Enter the void do senhor Noe vai estrear quase 3 anos depois da sua passagem por Cannes e o ano passado estreou um filme do Panahi de 2006).

Into the Abyss de Werner Herzog
Wuthering Heights de Andrea Arnold
4:44 Last day on earth de Abel Ferrara
People Mountain People Sea de Shangjun Cai
The Sorcerer and the white snake de Siu-Tung Ching (especialmente manhoso, com o Jet Li)
The day he arrives de Hong Sang-soo
Michael de Markus Schleinzer
Hors Satan de Bruno Dumont
Arirang de Kim Ki-duk
Life without principle de Johnnie To (thriller sobre a crise)
Las Acacias de Pablo Giorgelli
Weekend de Andrew Haigh
The Mill and the Cross de Lech Majewski
Margaret de Kenneth Lonergan
L'exercice de l'État de Pierre Schöller
The Flowers of War de Zhang Yimou
Like Crazy de Drake Doremus
Beasts of the Southern Wild de Benh Zeitlin
Circumstance de Maryam Keshavarz
Detective Dee de Tsui Hark (o senhor Hark tem também um novo, The Flying Swords of Dragon Gate, em 3D)

e uns mais antigos
Eu cand vreau sa fluier, fluier de Florin Serban
The killer inside me de Michael Winterbottom
Spring Fever de Lou Ye
Politist, Adjectiv de Corneliu Porumboiu
A Woman, A Gun And A Noodle Shop de Zhang Yimou
White Materials de Claire Denis
HAHAHA de Hong Sang-soo

3.08.2012

o calçado em ligação directa ao lado de lá

A certa altura André Wilms diz em Le Havre que para além dos engraxadores só os padres estabelecem uma tão grande proximidade com as pessoas.

3.05.2012

A lagarta gorda e a cabra estéril

3.04.2012


But you're not even wearing any loafers

3.02.2012

O amor segundo Carpenter

Há um aspecto muito curioso em They Live do senhor Carpenter. Nos momentos em que nos parece que os personagens estão desenvolvendo algo de especial, isto é, nas cenas de amor, Carpenter bate na mão dos meninos e diz, feios! Na primeira cena romântica, em que casa dela, Carpenter atira-o pela janela quando o beijo se aproximava. Depois na casa dos clandestinos quando um chocho se prepara, Carpenter rebenta uma parede e entra uma batelada de polícias armados até aos dentes a matar tudo o que mexe. Claro, no fim ele espeta-lhe um tiro nos cornos.