10.29.2010

Semelhanças - LXXIII

 Lady Chatterley (2006) de Pascale Ferran

 
History of Mutual Respect (2010) de Daniel Schmidt e Gabriel Abrantes

10.27.2010

Metro(polis)

Tenho para mim que haverá poucos locais do quotidiano tão cinematográficos como o metro. A iluminação, o som, os cheiros, as pessoas, a correria. Deixo-vos aqui três cenas de três filmes (que adoro) em que o metro é parte integrante da narrativa:

#1: Le samouraï de Jean-Pierre Melville 
[a partir do minuto 32 até ao 41]

#2: Collateral de Michael Mann
[todo o vídeo]

#3: Strange Days (e a continuação) de Kathryn Bigelow
[a partir dos 9 minutos e meio até ao 2º minuto do segundo vídeo]

10.25.2010

Batata agri-doce

 O crítico João Lopes fez uma analogia com tubérculos que é aqui muito conveniente. Não será totalmente anti-científico afirmar que a batata é um alimento basilar da alimentação mundial. Por outro lado, da mesma forma, não se poderá considerar equilibrada uma dieta que tenha a batata como ingrediente único. Hoje em dia, com a propagação (infestação?) da telenovela, temos uma população que vê nesta forma de narrativa audiovisual a único forma de alimentação cultural. Não que a novela seja prejudicial, mas não é suficientemente nutritiva.

Curiosamente, é com um filme, como La teta Asustada, que se combate esta mal nutrição. Um filme sobre gente mal-nutrida. Sobre uma população que não tem dinheiro nem para enterrar os seus entes, para pagar o seu casamento, mas que sonha com as grandezas que não pode pagar, sonha ter um vestido de 5 metros de seda, sonha com bodas enormes e memoráveis. Como não pode, vive do fingimento.

O filme de Cláudia Llosa é um objecto raríssimo pela forma como gere os símbolos e simbologia da batata: a batata como sustento; a batata como cancro, força maligna; a batata como símbolo do amor e do carinho [a flor da batateira - na imagem]. É raro que um filme alcance níveis de candura e romantismo (leia-se clacisismo helénico) - com uma moça que a troco de uma canção diária alcança a liberdade da mãe. Mas por outro lado constrói um realismo seco (como vem sendo comum nos filmes latino-americanos) pontuado por momentos de extrema dureza como são as falsas bodas. Realismo mágico - como se fala do García Márquez - só que em forma de filme.
O balanceamento destes dois registos é como a batata: pode ser crua e amarga ou doce em puré.

10.23.2010

Posters do ano - IV











































Enter the Void (2010) de Gaspar Noe

10.22.2010

Hipóteses Ad hoc (I)


Primeira sessão deste ano no Doc, três curtas de Manoel de Oliveira: Douro Faina Fluvial; O Pintor e a Cidade e O Pão. Três filmes de genial perfeição.

Se o primeiro é uma bomba de modernidade, uma exaltação do teoria da montagem russa, que cria algumas das mais criativas aproximações visuais de sempre [mais uma vez me vejo nestas afirmações de crítico pedante]: montar um mastro com a excitação de um jovem, o trabalhador com a empilhadora. Por outro lado o filme cria sobre si mesmo, e dentro da sua veia documental, um desejo pela ficção, pela realidade encenada: o jovem que compra um peixe à peixeira, o atropelamento de um moço pelo carro de bois. Mas o frenético da montagem é algo que se prolonga, o abanar da câmara é constante. Mais não fosse, esta seria uma obra fundamental, por ser um dos títulos fundadores do nosso cinema, por ser absolutamente fascinante e por ser tão reveladora da variedade do trabalho de Oliveira. [quem lhe chama chato, apenas demonstra a sua ignorância].

O segundo é uma obra de uma elegância inaudita: o romance que se estabelece entre o pintor e a cidade é mais do que o título pode transparecer, pois na verdade, cria-se uma história de amor e fascinação: pelos pequenos pormenores e pelos grandes - os miúdos a jogar à bola, as multidões, o trânsito, mas depois as igrejas, os monumentos, as estátuas. Tudo isto é leve, como algumas coisas de Rhomer ou Varda, mas muito antes destes, e voltando a ceder à ficção, que é essa a genuína motivação do decano realizador.

O Pão é, juntamente com os outros, um filme de ciclo: quando os outros funcionam num dia, do amanhecer ao entardecer [o final de o Pintor e a cidade é algo de avassalador], este funciona num ano, acompanhando o pão desde a ceifa até à seguinte plantação. O Pão assume aqui todo o simbolismo: elemento aglutinador da sociedade, comum a ricos e pobres, saciador de fome e fruto do trabalho [mais uma vez o homem e a máquina, o moleiro e a fábrica de moagem]. Mas as coisas são infinitas: o pão como símbolo religioso, o cinema como pintura [sequência mínima a da Guernica], o pão como símbolo do amor, ligação eterna [o filme começa com um casamento].

Enfim, assombrosos filmes e assombrado realizador.

10.19.2010

Semelhanças - LXXII

The Sixth Sense (1999) de M. Night Shyamalan

Matrix (1999) de Andy e Lana Wachowski