... há sempre os livros e a música. Aqui ficam alguns dos livros que me fizeram companhia neste ano e também uma dúzia de álbuns deste ano, e de outros mais antigos, que têm ocupado os meus tempos mortos. [esqueci-me, porque quando fui à prateleira não o vi, de A Máquina de fazer espanhóis do valter hugo mãe. Já agora, comecei a ouvir o Carlos do Carmo & Bernardo Sassetti depois de os ter visto ao vivo na fnac e ando a ler Suttre, um épico do Cormac McCarthy]
12.28.2010
12.24.2010
12.22.2010
Amor é comida para cão
Como se faz cinema? Eu estou em crer que fazer cinema é construir imagens. Mas não de forma simplesmente ilustrativa, o que se pede de um realizador é que cada uma das suas imagens viva por si, independente, auto-suficiente. Recentemente tivemos Inglourious Basterds que tinha referências visuais muito fortes, que culminavam na sequência do cinema em chamas: o fim do nazismo através do cinema - literalmente; é a película inflamável que incinera os líderes nazis.
Quanto a Fish Tank, o que mais me agrada é a forma como se filma o amor. Pensando bem, como se há de filmar o amor (não digo paixão nem desejo, digo esse sentimento dos poetas e dos anúncios da Chanel )? Claro que temos as soluções manhosas: corações, música de fundo bonitinha, montagem de videoclip (sem me aperceber fiz uma descrição do último filme do Vasconcelos). Depois temos a opção de Andrea Arnold, construir uma linguagem particular usando uma sinalética pagã. Arnold usa dois trunfos simbólicos: um, o cavalo, branco, acorrentado por malfeitores, representação da própria rapariga, presa à mãe, mas selvagem; dois, o peixe, durante o filme a dita rapariga e o namorado da mãe, pelo qual ela se apaixona, convida-a a pescar um peixe no lago, aquele peixe é fruto do amor dos dois, é a primeira conquista comum, é a representação física e simbólica do casal. [curiosamente, ao entrar no lago para a dita caçada, a rapariga corta-se no pé, sangrando; representação do sangramento da primeira relação sexual].
Claro que Andrea Arnold não está a fazer uma comédia romântica, pois repare-se que, quando se chega a casa, o peixe-amor é deitado, pela mãe, para a tigela do cão, acto inconsciente (?).
Mais para o final, há uma cena em que, mais uma vez se recusa a vulgaridade simbólica das telenovelas, antes da moça sair de casa da mãe, ela, a irmã e a progenitora dançam ao som da televisão sintonizada na MTV, momento de singular beleza (que nos últimos meses me tem assombrado). Ali, naquele momento, toda as incomunicabilidades daquela família, as invejas, os desejos concorrentes, dissolvem-se numa graça de verdadeira compreensão. E depois há aquela chapada no meio da noite para nos acordar para a destruição que aquela miúda podia ter feito; e aquele miúdo que, depois de servir de fantoche, passa a ser a única saída sincera para uma vida feliz.
12.17.2010
Afinal Funciona
Parece que depois de alguns meses de actividade, vários textos de produtividade, quase 2500 assinaturas e uma série de aparições nos meios de comunicações, a petição chegou a qualquer coisa de verdadeiramente significativo: A RTP2 vai dedicar as próximas semanas, período valiosíssimo no calendário, a realizar 10 noites, 10 filmes. Mas além de fazer isto, existe uma certa coerência na escolha dos filmes. Primeira semana, cinco filmes da produção italiana recente, todos com estreia comercial nos últimos anos [IL Divo, Le Consequenze dell’Amore, La Stanza del Figlio, Pranzo di ferragosto e Mio Fratello é Figlio Único], sendo claro que não é bela sem senão, a rtp2 passou faz poucos meses Pranzo de Ferragosto. Segunda semana, cinco filmes de produção espanhola, agora já não tão recente [Carne Trémula, La Educación de las Hadas, Mar Adentro, Mala Educación e Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios], pena é que se continue a achar que cinema espanhol é sinónimo de Almodóvar (eu que gosto muitos dos seus filmes em especial de Carne Trémula). Tudo isto em adição às sessões duplas, que neste fim de semana passam dois filmes franceses de grande recepção crítica [La Graine et le mulet e Un conte de nöel] apesar de a única ligação (externa à nacionalidade) é serem do mesmo ano de produção. No outro fim de semana passam dois filmes que não podiam estar mais longe um do outro [Cinema Paradiso e Adaptation], de Tornatore e Jonze.
Para não parecer mal agradecido digo apenas: podia ser muito pior.
P.S.: Há que lembrar que nesta altura do ano o cinema é sempre uma opção muito usada pelo canais para encher chouriço (os apresentadores também querem férias), em adição, há que lembrar que esta programação não se tornará numa regularidade e esse é um dos motes principais da petição. [regresso da exibição regular de cinema na rtp2]
Para não parecer mal agradecido digo apenas: podia ser muito pior.
P.S.: Há que lembrar que nesta altura do ano o cinema é sempre uma opção muito usada pelo canais para encher chouriço (os apresentadores também querem férias), em adição, há que lembrar que esta programação não se tornará numa regularidade e esse é um dos motes principais da petição. [regresso da exibição regular de cinema na rtp2]
12.15.2010
A sombra acalma-te Imperador
Este é um comentário pessoal. Dito isto posso começar por falar de um aspecto publico do filme. Botelho decidiu pass(e)ar o seu filme fora do circuito comercial, fora das salas dos multiplexs e fora das salas escuras do King (e de mais um par de salas dos privilegiados do país, onde qualquer lisboeta, como eu, se integra). Boetlho quis levar o seu filme ao povo, corrigindo, a todos. Fazendo uma digressão pelo pais com sessões nas dezenas de teatros municipais, aproveitando espaços subaproveitados e garantindo um número de espectadores muito superior ao que o filme normalmente faria (já ultrapassou os 10 mil). Mas há algo mais profundo nesta opção. Não é só comercial. A natureza do Filme do Desassossego não é de sala de cinema. Há a sensação de que vamos assistir a um evento especial, sem pipocas, sem casalinhos beijoqueiros, apenas com pessoas interessadas. Enfim. Isto para dizer que vi o filme no São Carlos. Melhor lugar não haveria de existir em Portugal (não necessariamente o meu assento que era o 4º balcão, coisa péssima), porque o Filme do Desassossego é filme-ópera e por isso a talha dourada da sala, os funcionários de fatinho e os candelabros combinam com o filme. Mais do que uma combinação decorativa, o próprio filme começa com uma orquestra a afinar (onde?) no São Carlos (está claro!) e desenvolve-se em pedaços cada vez mais oníricos (qual Inception qual quê), tendo cenas líricas interpretadas por Angélica Neto e Elsa Cortez, e participações musicais de Carminho, Lula Pena e Ricardo Ribeiro.
Se me é permitido falar por mim (como se o texto anterior fosse obra de um marionetista opressor), acho esta última obra de Botelho um filme maravilhoso. Tão imperfeito que até emociona, ingénuo, atrevido, experimentalista e desconexo, mas é daí que vem toda a sua força hipnótica. Sente-se uma fornalha criativa a borbulhar durante as duas horas de projecção, sente-se um prazer infinito em percebermos um filme que vive da sua multiplicidade de actores que surgem em gags mais ou menos filosóficos, de salientar a menina Wallenstein a explicar-nos a três dores pessoanas ou Miguel Guilherme e Rita Blanco a discorrer sobre a gramática em mudança ou ainda Rui Morrison a comentar o caixão de um nado-morto. Enfim. Depois claro, temos a explosão de imagens inquietantes de Botelho, um moça nua a desfilar na noite, um sapato vermelho num casaco de peles, uma lagosta a nadar, as sombras do quarto de Soares, o cinzeiro vazio. E depois os travelings no restaurante a passear de mesa em mesa.
Mas é Lisboa o elemento aglutinador. Lisboa é um sentimento. Aparece-nos uma Lisboa de Hoje com gajos a foderem na rua e mendigos no chão e graffitis nas paredes e Pessoa a passear-se pelo meio disto como se fosse o princípio do século. Lisboa é sensação, coisa animal e incontrolável. Enfim. Este é um comentário pessoal.
P.S.: Peço desculpa pela linguagem, mas uma vez, de vez em quando, lá tenho que dizer uma alarvidade.
12.13.2010
12.12.2010
Uma fatia de bolo
Parabéns em atraso são sempre coisas feias, mas são sempre a alternativa dos mandriões. Com a idade de Oliveira eu estaria com uma manta aos quadrados em cima das pernas, junto de uma lareira a ver filmes na minha televisão. Felizmente Oliveira é um senhor que tem o prazer de fazer cinema, sai-lhe natural. O trailer a cima é uma delícia, é como se fosse uma fatia do bolo de aniversário para todos os cinéfilos do mundo. Obrigado Mestre Oliveira.
12.11.2010
Imagem Escrita, Palavra Filmada - IV
Há cerca de um ano que ele fotografa coisas abandonadas. Há pelo menos dois trabalhos todos os dias, por vezes até seis ou sete, e, sempre que entram numa nova casa, ele e os seus colegas vêem-se confrontados com as coisas, as inúmeras coisas rejeitadas, tudo aquilo que as famílias deixaram. As pessoas ausentes, todas elas, fugiram precipitadamente , humilhadas, confusas, e é certo e seguro que, onde quer que vivam agora (se é que encontraram um sítio para viver e não estão acampadas nas ruas), os seus novos alojamentos são mais pequenos do que as casa que perderam. Cada casa é uma história de fracasso - de bancarrota e de falta de pagamento, de dívidas e execução de hipotecas - e ele tomou a seu cargo a tarefa de documentar os derradeiros resquícios dessas vidas dispersas, a fim de provar que as famílias desaparecidas estiveram em tempos ali, que os fantasmas das pessoas que ele nunca verá e nunca conhecerá ainda estão presentes nas coisas rejeitadas que ele e os seus colegas encontram espalhadas por todo o lado nas casa vazias.
In Sunset Park de Paul Auster, Asa, 2010, página 7
P.S.: Esta é a abertura do último livro de Paul Auster (escritor e também realizador de, entre outros - The Inner Life of Martin Frost), que quando li me recordou de forma precisa o filme de Manuel Mozos - Ruínas - estreado este ano em sala comercial juntamente com a curta - Canção de Amor de Saúde - de João Nicolau. Ruínas é sem dúvida um dos melhores filmes portugueses do ano.
12.08.2010
Semelhanças - LXXVII
Only Angels Have Wings (1939) de Howard Hawks
To Have and Have Not (1944) de Howard Hawks
P.S.: Hawks e as suas recorrências
12.04.2010
A mitologia amorosa de um casal, o cinema como a arte do contínuo, a importância dos ciprestes na arte, a influência do enquadramento na dinâmica conjugal, a utopia babélica e aquela coisa que por vezes se chama alma
A mitologia amorosa de um casal (1), o cinema como a arte do contínuo (2), a importância dos ciprestes na arte (3), a influência do enquadramento na dinâmica conjugal (4), a utopia babélica (5) e aquela coisa que por vezes se chama alma (6).
(1) Kiarostami constrói um casal do nada, como qualquer outro ficcionista, só que, ao contrário de qualquer outro ficcionista este admite a falsidade da sua criação, conferindo por isso uma certa coerência ao casal, tornando-o, por mais estranho que pareça, em algo mais natural. A forma como dois desconhecidos, em poucos segundos, passam a ter 15 anos de relacionamento é de tal forma inesperada que o resultado podia ser risível (e é-o em vários momentos, mas por outros motivos), mas Kiarostami monta a filigrana de uma relação com toques de relojoeiro, infectando o casal de passado, de memórias comuns, cria um mitologia relacional e isso é profundamente belo.
(2) Kiarostami faz um filme em tempo real (ou quase), as pessoas entram e saem de museus, cafés, hotéis e carros. Ele faz os seus habituais travelings de carro, escreve diálogos leves e pesados sobre as complicações do matrimónio e sobre a importância da cópia na produção artística. Tudo em cadeia, como se fosse fácil e óbvio brindar-nos com discussões tão dispares e cativantes. Mais do que uma viagem a Itália, este filme é um passeio com óptima companhia.
(3) Uma das teses do filme (só lembrar a cena inicial em que a mãe discute à distância com o filho em plena palestra, dando-nos a entender que a arte de que se está a falar neste filme é muito menos aquela das galerias e muito mais aquela de viver feliz e em harmonia com os outros) é que são as pessoas e as coisas mais simples que são as mais belas e tocantes. Mas que, por serem simples, ninguém lhes dá valor (e que pelo simples facto de lhes darmos valor e admitirmos a sua beleza, elas perdem valor e beleza). Como os ciprestes, que são antigos (como 'deve' ser a arte) e belos (como 'deve' ser a arte), mas não passam de árvores que nos dão a sombra do caminho.
(4) Existem dois aspectos importantes nesta secção. Primeiro; várias vezes ao longo do filme, espelhos são usados como forma de apimentar a mise en scène, mas na verdade existe um conteúdo fortíssimo nesses enquadramentos, sempre que isso acontece, a câmara mantêm o homem em primeiro plano e é a mulher que se afasta, vê-mo-la através de um espelho retrovisor de uma mota ou no reflexo de um vidro, nessas cenas a mulher afasta-se para conviver com outros (perguntar às pessoas a sua opinião sobre uma estátua, ou tirar uma fotografia a estranhos), enquanto que o homem fica para trás, sempre em primeiro plano; o homem como bicho-do-mato e a mulher como animal-social. Segundo (por sugestão de Luís Mendonça); a partir do plano do espelho na casa de banho, a dinâmica dos personagens muda, porque daí em diante são quase só contra-planos de 180º, como se criasse uma parede entre o casal, coisa que se desfaz com o regressar do mesmo plano no final do filme.
(5) De forma semelhante ao Inglourious Basterds, esta é uma Europa de várias línguas, em que se passa de francês para italiano e daí para o inglês como se não houvesse diferença. A Europa como utopia social, mais uma vez: a arte de viver em harmonia. Recordo a história bíblica de Babel: os homem queriam chegar ao céu construindo uma torre, para evitar isto, deus deu-lhes linguagens diferentes para que não pudessem trabalhar em conjunto, criando os conflitos entre os homens, que até então viviam em paz. O que Kiarostami idealiza é um mundo sem conflitos de civilização ou cultura. [um mundo só com conflitos conjugais]
(6) Binoche, e chega.
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