4.27.2010

Fila Indie-ana - III

Hoje foi Videocracy, documentário de um italiano (Erik Gandini) que foi viver para outras bandas (Dinamarca), mas que de lá, faz a sua crítica à pátria mãe, que aos seus olhos está a cair como as peças de fruta que não são apanhadas da árvore, isto é: de podre.
Gandini já tinha trabalhado sobre Che e sobre Guantanamo, agora o seu alvo é Berlusconi e o seu império dos media, se o filme sofre dos mesmos males de Michael Moore é apenas no facto de não aprofundar o personagem, fica-se pela ramagem das redes de interesses e das influências mediáticas, mas quanto ao homem, temos um retracto idílico (no que mais há de mau na palavra).
Há que de facto tomar noção de que o filme tem a extraordinária capacidade de ser simultâneamente particular e por outro lado dar um instantâneo das interpenetrações dos media com o poder político. Sente-se de facto nojo por percebermos que o primeiro ministro daquele país é controlador de 90% dos media, que a maioria da população gosta disso e pior, vê naquele estilo de lixo hertziano um modelo de vida, em que as meninas querem ser velinas, mostrar o rabinho e dançar 30 segundos sem nunca abrirem a boquinha para darem de sua graça.
Se algo fica do filme, é perceber que Portugal não está assim tão longe desta situação e que o caminho para lá chegar é rápido e silencioso.

4.26.2010

Fila Indie-ana - II

Neste indie só vou ver 6 filmes, até agora foram dois (Lourdes e City of Life and Death), os que faltam são o Videocracy, The Robber, Guerra Civil e Significado (B Fachada).

Ao que já passou posso dizer que Lourdes é um mimo, um filme de uma delicadeza de porcelana, que percorre (e morde sem nunca julgar cegamente) as questões religiosas e a comercialização da fé, com uma educação cristalina e de uma sentido de humor tão refinado que se entranha nos ossos; um primor.

No que diz respeito a City of Life and Death, é um filme que tem uma primeira meia hora de cinema em estado puro, uma força inaudita, adrenalina sólida a escorrer pela filigrana da película [apesar do uso do CGI ser inteligente] e uma noção de pátria, de povo unido, em que a câmara passa dos chineses para os japoneses com leveza, mostrando-os como pessoas e não como facções, sem personagens principais, mas sim com toda uma nação entrincheirada; mas depois o filme cai num moralismo peganhento, com pretensões de ser a Lista de Schindler asiática, e tudo começa a fazer comichão (claro que tem ainda duas ou três cenas de uma dureza asfixiante - o estupro das mulheres ou o resgate de um elemento por família) e o fim é de uma idiota crença na resiliência humana que é Spielberg chapadinho.

4.18.2010

Fila indie-ana

O Indie chegou, e sem desprezar os outros festivais do país, este é sem dúvida o mais importante (O Fantas também), no entanto este ano, ao que se vê pelo programa, temos aqui A grande compilação dos filmes dos grandes festivais do mundo (Cannes com Mother, Visage, Accident, Vengeance, os dois de Herzog, Napoli; de Veneza, Lenanon, Life during Wartime; de Berlin com The Robber, de Sundance com When you're a strange, Humpday, Panique au village, Greenberg [que também esteve em Berlin]). Para além disto, há uma grande fatia de filmes que vão passar no Indie unicamente como uma antestreia mais simpática, uma vez que alguns deles só estão no festival devido a parcerias com a Lusomundo (e outras distribuidoras) que esperam conseguir vir buscar ao Indie o protagonismo suficiente para lançarem os filmes em sala.
A salientar a presença portuguesa, com Fantasia Lusitana e Guerra Civil na competição nacional, e em sessão extra o novo de Green, Religiosa Portuguesa e o novo de Marco Martins - How to draw a Perfect Circle e também dele Traces of a Diary.
A secção de competição internacional é sempre um primor (apesar de a maioria dos filmes não ser do conhecimento geral, mas é mesmo esse o objectivo de uma secção para primeiras e segundas obras), de onde destacaria o único português da secção, assim como The Robber, La mujer sin Piano, La Pivellina e It's Already Summer. O observatório é constituído pelos filmes dos grandes festivais; o cinema emergente tem alguns títulos curiosos, como j'ai tue ma mére (o grande filme canadiano de 2009), ou Io sono l'amore [que também terá estreia em sala poucas semanas depois do indie] ou ainda Lourdes [passado em Veneza se não me engano]. O heroi independente é em parte a secção de filmes que passaram em Berlin sobre os seus últimos 20 anos e a outra parte é para Heddy Honigmann. No pulsar do mundo temos Videocracy, documentário polémico sobre a força da televisão em Itália. 9 e Panique ou Village são os dois filmes a tomar em atenção no Indie Junior, apesar de o primeiro vir a ter estreia em sala. Na música temos o já citado filme sobre os Doors (versão anti-stone) e os de Paulo Prazeres sobre os X-wife, Terrakota, Dealema e J.P. Somiões, ou de Tiago Pereira sobre B Fachada [já passado no Panorama]. No director's Cut temos o Black Dynamite e Radio On para tomar atenção.
Não esquecer City of Life and Death um dos grandes sucessos chineses de 2010, que teve alguns problemas com a censura, pois a sua imagem dos militares japoneses não é nada condenatória.
Como nos indica o artigo da Variety, o indie teve um aumento de orçamento na casa dos 50% e uma subida do valor do primeiro prémio (agora 91$00), assim como é de bom tom dizer que a presença de distribuidoras francesas em busca de títulos portugueses tem vindo a subir. Mostra-se portanto que a integração das Lisbon Screenings para distribuidoras estrangeiras está a dar resultados, e o prestigio internacional de um festival com apenas 7 anos de existência é já de uma magnitude rara na nossa pequenas nação onde o cinema nem sempre é tratado conforme devia

P.S.: É curioso ver que o Estoril Film festival tem 3.5 milhões de euros de orçamento e o Indie se fica pelos 1.15 e o Fantas teve uma redução de 25% na última edição.

4.04.2010

As 'Primeiras vezes' dos mestres


Parabéns! (Joao Pedro Rodrigues 1997 )
Enviado por esta2. - Veja outros filmes e emissoras de televisão em video

P.S.:João Pedro Rodrigues é um dos maiores cineastas mundiais no activo e no início de carreira (ao lado de um Jason Reitman ou um Arronofsky, para pensar americano), na cinematografia portuguesa é difícil haver estreias tão avassaladoras como o intemporal O Fantasma, ainda mais quando o segundo é o (fantasmagórico) Odete, pena minha não ter visto Morrer como um Homem. China, China era um bombom amargo e agora parece que vem um documentário sobre Macau; tudo o que vier é bem vindo. E claro esta curta é qualquer coisa de sublime, um regalo. [já aqui tinha falado]

4.02.2010

Cheiram e choram como Homens

The Messenger é.
É melhor que a generalidade dos dez filmes nomeados para melhor filme. É mais acutilante sobre a guerra que outras obras semelhantes (lembro-me de In the valley of Elah). É mais inteligente na escrita, inteligentíssima, de um argumento cru, directo e profundamente humano, sem estereótipos ou simplicismos. É mais concentrado, mais focado nos seus personagens, sem romantismo, nem dramatismos televisivos e histéricos.
The Messenger é um daqueles filme de ver e chorar por mais, só que, não nos dá o alívio de verter uma única lágrima que seja, por ser tão apertado, tão centrado, por nunca ser gratuito, por não estar ali para criticar ou julgar, por simplesmente querer existir como filme, narrativa única; filme que existe para guardar dentro de si os seus personagens, que expiam os males de uma América em stress pós-traumático.
Sempre me fez impressão que um país inteiro, através dos seus cineastas, conseguisse tão rapidamente reagir às maiores catástrofes humanas, conseguisse engolir-e-andar a morte e a mutilação de uma inteira geração de jovens, sem no entanto apontar dedos e sendo verdadeiro e nunca demagógico (neste país à beira mar plantado, ainda não conseguimos libertar-mo-nos da guerra de há mais de 35 anos).

Há momentos de extrema perfeição: a começar pela primeira vez que a parelha informa uma família, a câmara não mexa dos protagonistas, não perde um momento nos choros nem nos gritos das mulheres em fúria, porque o que lhe interessa são aqueles homens que têm de vestir as roupas da morte e anunciá-la. Essa concentração, não é obra do acaso, repete-se na sequência de Buscemi, ou mesmo quando eles chegam a um bairro e todas as donas de casa e os seus filhos, que brincam no parque, se aproximam já antecipando a morte que eles trazem. E depois temos um Harrelson e um Foster maiores; tão revoltosos, cada grama deles é chumbo emocional. Ah! e ainda uma romantismo tão seco, tão de pérola que cristaliza o espectador.
Cheiram e choram como Homens, que é isso que nós todos somos, e eles não são diferentes, mesmo que lhes caiba a inglória tarefa de fazer trazer a morte à Terra.