6.29.2011

Semelhanças - LXXXVII

Shining (1980) de Stanley Kubrick

The Beaver (2011) de Jodie Foster

Talk to the hand ou melhor Talk through the hand

6.24.2011

O profeta vinha a cavalo num burro

Skolimowski  é um senhor do norte da Europa, lá onde faz frio todo o ano, e arrefece apenas por altura do Verão. Como era de esperar o senhor não se sente bem no deserto. Aquela areia só é boa para os que nela crescem. Assim sendo, toda a primeira parte de Essential Killing é um filme cheio de pressa. Há ali uma vontade de fugir, o mais depressa possível àquela região funesta. Skolimowski  não se sente bem com tão alta temperatura e por isso quer despachar o pedaço mais obviamente narrativo do filme. Por isto, mas não só, a nossa personagem principal é um homem sem contexto (porque estava calor demais para filmar). É neste (a/in)cidente que a essência deste filme cresce. 
Por outro lado a descontextualização da personagem faz-se também pela escolha (acertadíssima) de Gallo para protagonista. Um actor tão evidentemente americano a fazer um papel de árabe (terrorista?) é coisa que não se pode acreditar assim, por dá cá aquela palha.
O nosso homem é pois (propositadamente) um indivíduo sem meio. Ele não fala. Ele estava com mais medo dos homens que matou do que eles dele. Ele limita-se a ter medo das coisas. Ele é mesmo grotesco, apalhaçado, ridículo. Come formigas, casca de árvore, mama numa senhora gorda, chora baba e ranho, rouba uma sardinha, grita de dor, sangra. Gallo (na sua conhecida inabilidade como actor) dá-nos o menos humano dos seres humanos. Não há ali dignidade, nem fachadas sociais, nem gostos, nem preferências.
O que Skolimowski faz, de forma irrepreensível, é esvaziar por completo aquele homem, ao ponto de ele deixar de ser homem. Passa de homem a entidade. Liberta-se das amarras da carne e cavalga (num cavalo manchado de sangue) para o limbo do mito.
Claro que depois o retrato desfaz-se com os insistentes flashbacks que vêm esclarecer demais. Que dão contexto ao homem sem meio. Dão lhe um nome, uma mulher, uma origem e tudo deixa de ter a graça que tinha.

Dito isto, está bem de ver, que dificilmente haverá um filme que seja mais político, que espelhe de forma mais delicada, a inabilidade do exército americano de lidar com as 3 frentes de guerra no médio oriente.

6.17.2011

Na corda bamba

O dedo é coisa mole. Não dá o rendimento da caneta no papel. O rascunho que se guarda na memória do computador não é um papel que se amachuca e deita fora. A obrigação de escrever é sempre diferente quando o suporte permite outras coisas que não aquela que é essencial: suportar a escrita. Assim sendo, escrever sobre True Grit tem sido um tormento. Vem e vai, a vontade. Começa-se não se acaba. Reescreve-se. Desiste-se. Depois vem uma fúria, uma vontade imparável e sai um texto de uma só vez. Sai directo, porque as palavras se vinham alinhando na parte de dentro, e agora jorram por rebentamento da barragem.
Os Coen têm os dentes doces e neles devem chupar demoradamente. Pensando nos seus projectos, desenvolvendo as suas ideias, demoradamente, classicamente. Encarar uma readaptação é por isso trabalho duplicado: para além de conceberem um filme, têm que o fazer pondo de parte, conscientemente, a primeira versão de Hathaway. A questão está (ironicamente) em perceber, que apesar da independência, várias soluções narrativas e visuais coincidiram; nomeadamente na sequência da travessia do rio, a cavalo, que parece uma reprodução à la Gus Van Sant. Este ponto levanta aliás uma questão que se deve tomar em conta: de que forma é que um trabalho pode ser verdadeiramente original?
Ultrapassando este ponto que de sumarento tem pouco, passemos àquilo que me vem sendo repetido pela memória: uma cena de despedida. O bêbado está bêbado. O jovem é jovem. A moça pespinhenta está apaixonada. Isto mesmo, enquanto o dude dorme a piela, o ranger quebra o trio e despede-se da menina. Sequência magistral; um conjunto de planos-contra-planos que narram a despedida, todos enquadrando as faces no breu com uma corda grossa separando-os. Cada plano apanha a corda. Ela separa-os fisicamente. É o fio social que os afasta. Não é uma árvore ou um penhasco, é algo humano, estendido propositadamente pelos próprios. A auto-negação da felicidade, do amor e do desejo.
Toda esta acumulação tem que subir os bordos e (peço desculpa pelo pleonasmo) transbordar nesse desenlace final, numa caverna pejada de cobras. Uma criatura puríssima rodeada de animais fálicos que a tentam perfurar. Mas ao contrário de Hathaway, quem brinca com o fogo queima-se e existem consequências para quem ousa passar os limites da corda.

6.15.2011

Doc_Europa III - 27 países | 27 filmes


O Doc_Europa é um evento que enquadra a produção documental europeia em apenas 3 dias, decorrerá em Lisboa e no Porto entre 17 e 19, respetivamente na Casa das Histórias Paula Rego (em Cascais) e no Cinema Passos Manuel. A entrada é livre para todas as sessões, cinco delas terão a presença dos realizadores (e correspondente debate no final):

Susana de Sousa Dias48 - sexta-feira 17, às 19h30 (no Porto)
Sarah Moon HoweIn Case of Loss of Pressuresábado 18, às 22h (em Cascais)
Fateme GoshehOne Thousand and One Nights - domingo 19, às 15h (em Cascais)
Vasia MarkidesHidden in The Sand - domingo 19, às 19h (em Cascais)
Panagiotis KaragiorgasDecember Seeds domingo 19, às 22h (no Porto)

programa completo aqui

6.12.2011


MOVIES may be the only art form whose core audience is widely believed to be actively hostile to ambition, difficulty or anything that seems to demand too much work on their part. In other words, there is, at every level of the culture — among studio executives, entertainment reporters, fans and quite a few critics — a lingering bias against the notion that movies should aspire to the highest levels of artistic accomplishment.

6.11.2011

Semelhanças - LXXXVI

Det sjunde inseglet - O Sétimo Selo (1957) de Ingmar Bergman

Pina (2010) de Wim Wenders

Dancem, dancem, caso contrário estamos perdidos

6.08.2011

Não há pequenos assuntos, e a cultura não é um assunto pequeno

 Ocean's 13 (2007) de Steven Soderbergh
Soderbergh vem sendo um dos poucos realizadores que consegue balancear de forma única o comercial e o alternativo, sendo o pai da série oceans's (deliciosos) ou de filmes como Bubble (um filme que veio alterar o paradigma da distribuição de cinema, sendo o primeiro a ser editado em sala, dvd e em video-on-demand simultaneamente) e The Girlfriend Experience (que estreará em breve com quase dois anos de atraso), do épico Che e do cinéfilo The Good German (ambos maravilhosos), isto só para falar dos últimos anos.

Ganhas as eleições pelos sociais democratas e centristas, a pergunta impõe-se: manterá o novo governo um apoio evidente à produção criativa e aos artistas, ou iniciar-se-à uma senda (com certeza infrutífera) de delegar no mercado, nos privados e nos mecenas aquele que tem vindo a ser o papel do estado?
Não podemos olhar para os problemas da cultura de forma focal e esquecer-mo-nos da difícil situação pela qual o país está passando, no entanto, não há pequenos assuntos e a cultura não é, nem deve ser encarada, como um assunto pequeno.

Portugal dedica 0.4% da despesa do estado à cultura (previsão para o orçamento para 2011 - antes da queda do governo- e apenas 0.2% do orçamento do estado), isto é, cerca de 215 milhões de euros. No entanto o sector tem uma taxa de trabalhadores com formação superior de 47% quando a média nacional é de 26%. Emprega cerca de 2.3% da população (em 2004) e representa 1.4% do total do PIB nacional (segundo o director da SPA) cerca de três vezes mais que o Futebol. Por algum motivo, o desinteresse generalizado de grande parte das figuras políticas e do grosso dos órgãos de comunicação não é de desprezar. Seria mesmo curioso analisar a proporção de noticias dos telejornais (e a duração das mesmas) no que diz respeito às duas formas de cultura. [lembro só, a título de exemplo, este caso]

Durante esta campanha apenas se discutiu a preservação, ou não, do Ministério da Cultura, tendo ficado de lado aquelas que são sem dúvida as questões fundamentais: É, ou não, a cultura um veículo económico para o crescimento do país e o combate ao desemprego? É ou não obrigação (moral) do estado investir neste sector?

A nova lei do cinema não chegou a ser votada com a queda do governo e respectiva dissolução da assembleia. Interessante seria ver o novo governo apresentar à assembleia o projecto de lei do anterior governo, impedindo assim o perda de tempo na escrita de novos documentos e o protelar de uma legislação que se vem prometendo há muito [esta nova lei do cinema vinha quase triplicar os fundos do ICA, uma vez que transferiria o financiamento deste instituto de um imposto sobre a publicidade televisiva para um imposto sobre as telecomunicações]. Pelo caminho ficou também o projecto da rede de exibição digital de cinema [a ministra Canavilhas vinha desenvolvendo esta ideia de fornecer a diversos cine-teatros e cine-clubes do país projectores de cinema digitais de modo a criar uma rede para a circulação de cinema (nomeadamente nacional); de forma semelhante àquela que o realizador João Botelho vem promovendo com a digressão do seu Filme do Desassossego].Em adição, o estatuto do artista foi finalmente elaborado e aprovado na assembleia (não que o consenso lhe esteja vinculado), assim como a remodelação da direcção do FICA (que estava bloqueado quase há dois anos),[quanto a este fundo, muito haveria para discutir, desde a forma de financiamento, passando pela escolha pouco acertada dos apoios e chegando ao aproveitamento dos canais de televisão para o apoio das sua próprias produções].

Se nem tudo foi mau, o que virá poderá não ser melhor. Para além da proposta de privatizar a RTP1 e concessionar a RTP2; aquilo que parece vir por bem talvez nos venha deixar uma mossa. Refiro-me pois à intervenção mais alargada dos privados. Se a presença dos mecenas for mais evidente não se levanta grande problema. A questão está, pois claro, na lei do mecenato; que dando deduções fiscais àqueles que apoiem a cultura, dá-as em maior quantidade se o apoio for feito a entidades do estado (como o Teatro Nacional São Carlos ou o Teatro Nacional Dona Maria). Isto é, a actual lei apoia o esgotamento do interesse privado naquilo que é a obrigação do estado. Seca a possibilidade de financiamento de novos artistas com uma lei perversa e auto-desresponsabilizadora. E claro, o apoio dos privados será sempre dedicado (em maior quantidade) às instituições e artistas de maior reconhecimento público, impossibilitando o desenvolvimento dos mais jovens criativos nacionais.

Não creio que uma visão da cultura em que o subsídio do estado seja menos preponderante seja essencialmente má, mas é profundamente errado encarar os artistas como sanguessugas dos fundos do estado. A subsídio-dependência é uma realidade (que apesar de engordada por certos opinion-makers) que tem dado os seus frutos: quantos serão os artistas, que tendo recebido dinheiro dos contribuintes, criam obras que divulgaram e engrandeceram a imagem do país no estrangeiro? Aliás, mais do que um pensamento economicista ou estritamente virado para a imagem exterior do país, há que pensar na cultura como um aglutinador social (que será tão necessário nos próximos tempos) e um motor económico digno, produtivo e eficiente. 

6.04.2011


depois de ler isto lembrei-me disto.

6.03.2011

Vá com deus e eu vou-me à vida

A certa altura Isaac ouve, Vá com deus e eu vou-me à vida, só que o caminho para deus não é o mais fácil. O estranho caso de Angélica é um filme do outro mundo, entenda-mo-nos, é de facto um filme que vive fora, lá longe; mas apesar da distância vai dando umas espreitadelas para o lado de cá.
Tudo começa com um acidente e chovia, como é óbvio. O fotografo não estava e teve que se chamar Isacc, um outro fotografo. Como a morte, os clientes aparecem quando menos os esperamos e mudam-nos a vida. Aliás, a viagem que leva Isaac no sentido da angélica Angélica é uma coisa de arrepiar. Uma entrada nos confins do mundo. Um carro pega em Isaac e só muito raramente lhe vemos o rosto iluminado pela iluminação pública. É toda uma viagem na escuridão. Maria João Pires constrói a gondola sonora que nos transporta para o outro lado.
E chegamos.
Toda essa sequência é coisa do outro mundo. Excepto o marido, todos os que habitam aquela casa, estão mortos à muito; quando se entra 'na divisão' parece que os que lá estão, em vez de se despedirem da morta, estão dando-lhe as boas vindas. Isaac faz uma visita ao mundo dos mortos deixa-se seduzir pelos que por lá andam. Aquele sorriso é isso sim, um convite. Um, vem me fazer companhia. Um, vem dormir comigo eternamente.
Isaac foge, e regressa ao mundo, ao lado de cá. Só que quem lhe toma o gosto, dificilmente o esquece. Isaac bem tenta, faz por se agarrar à terra. Vai fotografar os homens do campo. Ouve-lhes as canções. Insiste em se alimentar com os outros hospedes (cena descomunal essa em que Luís Miguel Sintra e Ana Maria Magalhães divagam entre a crise financeira e o acelerador de partículas). Mas já não há volta a dar. Uma vez morto, morto toda a vida.
Depois há as assombrações: a túlipa que surge na mesa do pequeno-almoço. O pássaro que que se liberta da gaiola (e do gato que o rondava) e os sonhos. Viagens fora do espaço e do tempo, que se têm que fazer agarrados para não nos perdemos no limbo.

6.01.2011

O rigor da imobilidade ganha sentido pelo movimento

Porque já faz tempo desde que vi o último filme de Sofia Coppola o que tenho para escrever é reduzido.

O que mais espanta em Somewhere é, acima de tudo, o facto de ter, de quando em vez, uns toques de genialidade que não podem passar despercebidos de ninguém e que quero frisar aqui.
Note-se que todo o filme se nos aparece em plano fixo, câmara estática (não conto, os planos em que a câmara está montada num carro e por isso se move). Há no entanto dois travelings. Dois só. Em sentidos inversos.

Primeiro: Um movimento lentíssimo em frente. O nosso actor frívolo está a fazer um molde da sua cara para um trabalho de maquilhagem. Espera que pasta branca que lhe tapa o rosto seque. Só tem os orifícios dos olhos e das narinas. Respira com dificuldade. A câmara aproxima-se e o som da respiração intensifica-se, não fosse o ofegar e estaríamos em silêncio num qualquer estúdio de LA.

Segundo: Um movimento lentíssimo à retaguarda. O nosso actor frívolo está deitado numa espreguiçadeira juntamente com a sua filha. Está silêncio o o sol da manhã banha-lhes o corpo. Parece estar calor. Parecem estar sozinhos. A câmara afasta-se e começamos a perceber que afinal há mais pessoas nas redondezas. É a piscina do condomínio. Pais e filhos refrescam-se nas águas e há alegria no rosto de todos.

O rigor da imobilidade ganha sentido pelo movimento. Ou seja, a imobilidade de todo o filme serve para convocar a atenção do espectador para os casos em que as coisas se mexem. O plano à frente é pois um entrada no individuo e o que se nota é que, lá dentro, tudo é vazio e silencioso. Por oposição o movimento à retaguarda é o enquadramento do indivíduo no meio; o que notamos é que o que parecia ser igualmente vazio é sim preenchido pelas cores vibrantes. 
Fazer a descrição (profunda) da vacuidade de uma classe de profissionais de Hollywood com apenas dois planos é obra.