8.31.2010

Semelhanças - LXVIII

Kôkaku kidôtai - Ghost in the Shell - (1995) de Mamoru Oshii 
[o filme está em partes no youtube, aqui fica a primeira]

The Matrix (1999) de Andy e Lana Wachowski

8.29.2010

Pensando o Digital

Da esquerda para a direita: Blackmail (1929) de Alfred Hitchcock e L'Anglaise et le Duc (2001) de Eric Rhomer

Numa maravilhosa conversa entre Oliveira e Benard da Costa, transmitida pela italiana Rai Tre (e disponível no youtube em três episódios - 1,2,3), Oliveira diz a certa altura: "A imagem muda é onírica por natureza, o sonho não nem palavra, tem só imagem, portanto o cinema era onírico; quando veio o som e a palavra, tornou-se muito mais realista. Não há arte nenhuma que seja capaz de simular a vida como o cinema". Curiosamente, o desenvolvimento da técnica, nomeadamente o digital, quer do ponto de vista dos efeitos digitais, quer da própria maquinaria cinematográfica, tem permitido aos realizadores aproximarem-se mais do onírico e do real (respectivamente pelos efeitos e pela maquinaria), havendo portanto a capacidade de fazer um cinema mais directo, mais imediato (e por isso mais real, como o recente Go get me some rosemary ou o agora estreado Irene), e um cinema mais lento, mais pensado, desenvolvido ao milímetro em frente a um computador (são exemplo os filmes de animação digital, mas também Avatar e Benjamin Button).
Desta forma podemos encarar os avanços tecnológicos iniciados com o CGI quase à 20 atrás, e cujos resultados ostentam agora o seu pináculo produtivos com o renascer dos 3D, como um dos momentos marcantes da história do cinema. Da mesma forma que se passou do mudo para o sonoro, do preto e branco para as cores, passa-se agora da película para o digital (e repito-me, o digital não apenas da pos-produção, mas na captação com as novas câmaras e na projecção, com a renovação das salas).
É curioso pensar que Oliveira, que vai chegar aos 102 este ano, usa já o digital desde Cristovão Colombo - O Enigma, quando realizadores da vanguarda tecnológica como Steven Spielberg (que introduziu de forma brilhante os efeitos digitais com Jurassic Park) resistem ao digital, o último Indiana Jones ainda foi filmado em película apesar de todas a pirotecnia digital.
Outro aspecto que o digital levanta está relacionado directamente com a essência do cinema: a narrativa pelas imagens; isto é, desde os últimos capítulos do Star Wars, nomeadamente nas sequências de luta com o Yoda, a utilização do digital é progressivamente mais complexa e impenetrável. Quantas sequências (mais ou menos) digitais têm sido criadas nos últimos tempos em que a velocidade das acções é superior à capacidade humana de as perceber? Apesar de não ter visto The A-Team, o trailer e parte da crítica tem apontado este facto, o intrincado digital é um processo moroso e caro, por isso as cenas que dele fazem uso querem-se curtas, assim o resultado é o que se vê, uma manta de sons e imagens imperceptível.
Faz falta tempo para pensar as imagens que se vêm; hoje em dia vive-se uma hipervitaminose de imagens, elas vêm, surgem, e vão, mas não ficam, são descartáveis e isso é inaceitável.
Há que pensar a actualidade e reflectir sobre as potencialidades da tecnologia. A título de exemplo lembro-me do primeiro sonoro de Hitchcock - Blackmail. Numa época em que o som aparecia como prodígio técnico, todos os filmes que experimentavam o novo brinquedo, faziam com que as vozes dos seus actores fossem o mais nítido possível. Pois bem. Hitchcock vem e parte a loiça toda, usa o som de forma inventiva, retirando a nitidez dos palavras em detrimento da construção de uma atmosfera - podem ver a famosa cena da faca, em que a protagonista, que assassinou uma pessoa, quando fala com os seus vizinhos, só o ouve, de entre uma nuvem de barulhos, a palavra faca.
Ainda estou à espera de um realizador que pegue no digital e o perverta, da mesma forma que o Hitchock fez com o som. [A Inglesa e o Duque é um bom exemplo, mas Rohmer está noutro nível]

8.27.2010

Posters do Ano - III

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Life During Wartime (2009) de Todd Solondz

8.25.2010

Copo meio cheio


1. Há quinze anos estreava pelo mundo o primeiro filme feito inteiramente num computador, através da recente (à época) técnica da animação digital, que em parceria com a evolução dos computadores e dos softwares pode chegar à precisão narrativa e emocional de filme como Wall.E. No entanto, quando em 95 Lasseter se aventurou na realização daquela obra marcante, teve a consciência de que as possibilidades que a animação computorizada lhe dava eram reduzidas; não podia pegar nas figuras habituais de um filme de animação e fazê-las digitais, porque não se conseguiam desenhar nem humanos realistas (e ainda hoje há grandes dificuldades, vejam-se as tentativas de Zemeckis), nem animais realistas (o filme seguinte seria a Bug's Life sobre insectos, mas a prova de fogo foi com o Monsters, Inc.), que eram à data as figuras recorrentes das animações Disney. Assim sendo Lasseter, Docter, Stanton e Ranft tiveram a ideia perfeita: se temos computadores que só conseguem criar bonecos simples com pouca articulação, então vamos fazer um filme sobre brinquedos de plástico - Toy Story.
Nolan faz algo semelhante com este seu último filme, tomando consciência das limitações que um filme de acção tem, isto é: por norma são desmiolados, colam um monte de cenas, cada uma com mais explosões que a outra e constroem-se nos efeitos, sendo a narrativa um assessório. No entanto Nolan parece gostar de filmes de acção, então a solução que ele arranjou foi simples (ou não): criar uma narrativa que suporte a colagem de sequência de acção (uma história que justifique os efeitos especiais), sem no entanto tornar o filme estúpido, e a solução foi fazer a história saltar de sonho em sonho, de modo a que possamos passar por um templo oriental para um país do médio oriente indo à neve fazer ski para logo depois ser perseguido numa cidade cosmopolita, ou seja temos um Bond a passear pelo(s) mundo(s) [dos sonhos].
Verdade seja dita, se na primeira parte do filme, se sente que estão todos com pressa e que os cenas se sucedem com um ritmo atípico (dá a sensação que se quis encurtar a duração do filme), temos depois cerca de um hora de por os nervos em franja e para isso vale a pena o filme (as cenas sem gravidade são um primor e a construção em níveis de realidade a velocidades diferentes, dá um ligação forte à dita colagem, meio arbitrária, de cenas de acção).

2. Luís Miguel Oliveira escreveu uma crítica negativa ao filme (e Vasco Câmara ainda veio dizer pior), curioso é que eu concordo com quase tudo, Nolan funciona por ondas, quando Dark Knight saiu estava no IMDB como o 4º melhor filme de sempre, agora Inception é o 3º melhor, quando o seu próximo filme sair, tudo indica que a segunda posição será alcançada. Enfim, irrita-me bastante que as pessoas balam (como as ovelhas) quando aparece um filme de acção que convenhamos, é um pouco melhor que a vizinhança, mas que no entanto sofre de tantos problemas que se torna confrangedor, diz Miguel Oliveira com razão: " 'A Origem' tem que pôr as personagens permanentemente a explicar o que aconteceu na cena anterior e o que vai acontecer na cena a seguir, como se o filme tivesse integrado um PDF com o manual de instruções". Já não concordo é com dizer mal do Blade Runner, esse sim um exemplar maior da ficção científica.

P.S.:Revi recentemente o Collateral de Michael Mann e, esse sim, é a demonstração de um filme de acção tão jovem e inteligente e claro está o Minority Report era (e é) um assombro. Nem todos os filmes de acção têm que ser maus, e fazer um bonzinho não é assim tão raro. [Lembrei-me agora de Hot Fuzz esse também de uma manipulação brilhante dos clichés do género]

8.23.2010

Semelhanças - LXVII

The Shining (1980) de Stanley Kubrick

Kynodontas (2009) de Giorgos Lanthimos


P.S.: O Miguel Domingues do In a Lonley Place propôs esta imagem do Sleepy Hollow

8.21.2010

No Início era o Traveling


Assim poderia começar o bíblico texto se por motivos escabrosos (e contra-natura) a narrativa filmada tivesse surgido antes da escrita; no entanto a substituição de verbo por traveling não é totalmente aleatória, uma vez que na literatura o nome é a partícula mais primária e descritiva, vindo depois o verbo (mais complexo, cheio de conjugações, tempos e pessoas); também no cinema, veio primeiro o plano fixo (maioritariamente descritivo) para depois termos o traveling (este sim, mais complexo, técnica e narrativamente, basta lembrar a abertura de Touch of Evil).
Tanto falatório, para escrever sobre um filme que não só não começa com um plano-sequência, como para contrariar, (quase) acaba com um. O filme é The Ghost Writer, o novo de Polanski, o plano [a imagem em cima] é lá mesmo para o fim do filme; é uma sequência em que um bilhete é passado de mão em mão, de modo a chegar ao destinatário, é relativamente curto (uns 30 segundos no máximo), mas é o resumo de quase todo o filme.
Por um lado representa um aspecto recorrente ao longo das duas horas de película, a rede de interesses, as tramas de influências, representa o passar da informação por uma série de indivíduos, até chegar ao destinatário, mais que isso, representa a instrumentalização de certas pessoas em proveito de outras. O outro lado é mais superficial e no entanto mais importante pela sua actualidade: o facto de a informação nos passar pelas mãos sem de facto tomar-mos conta disso; é uma parábola para a Internet (que é utilizada por Polanski, no filme, como mecanismo visual de representar as ditas redes de interesses - através das hiperligações), local de toda a informação, onde, por oposição, nenhum informação se encontra.
Esta piscadela de olho, é mais uma mordidela de dente à imprensa (representada no filme (e bem, creio eu) como acéfala, que como um cão, persegue o osso que lhe lançam, sem tomar conta da sua manipulação), que apesar de ter toda a informação para resolver o caso, não o faz. Tem que ser um escritor a descobrir a 'Verdade'.
Voltando ao início, a referência religiosa não foi casual, pois o trabalho do realizador é, nesta obra, de um controlo massivo de todos os aspectos da narrativa, desde o ambiente crescentemente opressivo (leia-se ambiente atmosférico - chuva e vento - como ambiente emotivo), assim como o controlo minucioso da arquitectura (a casa de Lang é de uma ausência emocional gritante), não esquecendo o trabalho de relojoeiro dos actores.
Não posso no entanto terminar sem referir a subtilíssima ironia de todos os diálogos e situações (Lang fica nos EUA para não ser extraditado para o Reino Unido, quando Polanski fica no Reino Unido para não ser extraditado para os EUA).

8.19.2010

Semelhanças - LXVI

The Wild Bunch (1969) de Sam Peckinpah
[A sequência de abertura apresenta-nos um escorpião a ser atacado por formigas]

Redacted (2007) de Brian de Palma
[A sequência de abertura apresenta-nos um escorpião a ser atacado por formigas]

8.17.2010

Piloto (não) Automático


Estar em piloto automático é aquilo de que este filme nunca poderá ser acusado:

1. Sé há filme que rejeita a ideia de automatismo narrativo é este, que evita a todos os custos as formas normalizadas de filmar, que tem a consciência da morte e da guerra em cada frame; principalmente por ser o realizador um antigo combatente que conheceu os cheiros da guerra, ouviu os barulhos constantes de um tanque, sentiu o trepidar de uma explosão e conseguiu de uma forma rara (e talvez divina) projectar isso numa tela de cinema; fazer sentir ao europeu mais puro, e ao mais negro, aquilo que é ser responsável por uma arma tão 'morticida' como é um tanque; mas mais que isso, o que Samuel Maoz faz é obrigar-nos a ver o que não queremos, ele faz-nos olhar nos olhos de uma mulher ensanguentada, nos olhos de um burro morto, nos olhos de um jovem combatente - são os olhos que magoam, mais do que tudo, são os olhos que narram a dor.

2. Se há filme que rejeita a ideia de um piloto automático é este, que nos põem durante hora e meia ao lado dos pilotos, que os constrói com carne e osso, sem uma pinga de caricatura. Aqui os homens (e os miúdos) são gente viva, que treme de medo com uma arma nas mãos para a qual não foi treinado em situações que são o resultado encadeado de incompetências e é daqui que surge revolta durante a projecção; perceber que aquele sofrimento, todas as mortes, era tudo evitável, não só por ser a guerra estúpida, mas principalmente por ser gerida por incompetentes que não formam, não guiam, não informam; se fosse preciso resumir o filme eu diria que era sobre as consequências da maldade inconsciente.

3. Houve outro aspecto que me tocou profundamente neste filme, a forma como não é realista (no sentido estrito), apesar do tema e das situações retratadas; chega mesmo a ser expressionista na fotografia e surrealista nas circunstâncias, por um lado porque todo o filme vive de rostos vagamente iluminados por ranhuras e aparelhos eléctricos, segundo porque certas imagens (o tanque todo negro cravejado de pedacinhos de pão frito, faz lembrar os reflexos de uma bola de espelhos numa discoteca) estão embebidas de um certo humor visual muito retorcido. Se calhar é isso que o torna tão bom (o filme compreenda-se), a forma como se liberta do realismo, sem nunca perder uma verdade, dura e penetrante (que doí e não é pouco).

8.15.2010

Semelhanças - LXV

Lost in Translation (2003) de Sofia Coppola

Somewhere (2010) de Sofia Coppola


P.S.: Depois de Marie Antoinette (filme que muito aprecio), que lhe valeu um choque grave com a crítica americana, Coppola decidiu voltar àquilo que domina; do trailer deste novo filme fez-se o seguinte vídeo que justapõe cenas de ambos os filmes - pelo menos curioso!

8.13.2010

uma moça, um carro e um cão

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Pensem no melhor cinema que conhecem. Óptimo. Agora analisem a vossa escolha de modo a encontrar os pequenos defeitos que as vossas obras-primas possam ter (ou simplesmente as coisas que não gostam tanto). Muito bem. Agora tirem o segundo conjunto ao primeiro. O que fica? Cinema sem falhas, sem excessos, despojado de tudo o que é extra, filmes sem maneirismos, sem exibições de técnica, sem histerismo nem t(o/i)ques de autor. Ficam filmes como Wendy and Lucy - puros, limpos e simples.

Este último filme de Kelly Reichardt é aquilo que qualquer filme deve querer ser; feito com um orçamento perto do zero, é um filme de uma moça, um carro e um cão [e consegue-se que o carro tenha mais profundidade que qualquer das personagens de pessegadas como Nine e Lovely Bones]. Verdadeiro até mais não poder, humedecido pelas lágrimas do espectador, esta é a história de uma rapariga, Wendy, que viaja em direcção à terra prometida, Alasca, dormindo no seu carro e contando os trocos; tem uma cadela, Lucy, como companhia e quando (por falta de trocos) rouba umas latas de comida de cão e uma carcaça para si, é presa, obrigada a pagar uma multa com o dinheiro que não tem, fica sem carro porque o arranjo é pesado na carteira e a sua cadela desaparece - a sua família disfuncional (ela, a cadela e o automóvel) rompe-se [e convém frisar: isto é uma tragédia; e se a descrição não indica nesse sentido é porque o filme faz-se de nadas (melhor que a alquimia)]. Michelle Williams é de uma sobriedade e Reichardt funciona aqui como uma realizadora iluminada pelo divino (eu que não acredito, depois de filmes destes fico com sérias dúvidas). [esqueci-me de referir a crença na bondade intrínseca dos indivíduos (basta um telemóvel) e a tristeza da tomada de consciência (consciência de que a utopia da terra prometida é isso mesmo), mas o que disse já chega para chatear]

Wendy and Lucy é tudo o que os outros não são, ou seja, é simples(mente perfeito).

8.11.2010

Semelhanças - LXIV


Above and Beyond (2005) de vários [à esquerda] e Up (2009) de Peter Docter e Bob Peterson [à direita]

Esta colagem é feita por Peter Sciretta do famoso blog /Film, a propósito da polémica que envolve a origem da ideia de Up, filme de animação da Pixar que se aproxima muito de uma curta francesa de alunos de animação (Above and Beyond). Ler o artigo é compensatório, principalmente pela imparcialidade e pelo facto de tentar esclarecer os mais cépticos (como eu) que gritaram logo plágio, assim como permite o acesso à dita curta.

8.09.2010

Nasce como documentário, mas cresce pela ficção

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24 City é um portento.

Pode ser que seja o meu gosto a decidir a razão da minha lógica crítica (mas qual será a lógica crítica sem gosto pessoal?) que me leva a gostar tanto deste singularíssimo filme de Zhang Ke Jia (o realizador de Still Life, também esse filme de grande elegância social), pois vejamos: há em mim um gosto verdadeiro para com a ficção infectada de documentário (daí que Aquele querido mês de Agosto me tivesse tocado tanto), mas mais que gostar existe uma componente ética nestes projectos que me sacia, a considerar: O princípio alargado de Heisenberg da influência da observação no desenrolar dos acontecimentos; isto é, o problema de câmara alterar a 'verdade' que capta, sendo por isso impossível captar verdade. [certo jornalismo, nacional e estrangeiro, esquece-se disto e crê piamente na verdade dos testemunhos, no jornalismo-de-vão-de-escada, nos choros e tragédias, dos comentários de rua; como se por algum motivo estapafúrdio a 'verdade' de um transeunte é maior que aquele dada por um pivô ou repórter].
Assim sendo 24 City nasce como documentário, mas cresce pela ficção, não que se queira chegar a verdades manipuladas (que acontece) nem a caricaturas (isso nem de longe), pela ficção cria-se a verdade que a Verdade não consegue atingir (leia-se: os actores vem representar aquilo que as entrevistas a trabalhadores não conseguem fazer), tentando explicar-me melhor: para contrariar a impossibilidade de captar a verdade, capta-se a ficção mais aproximada, que vem tapar as fissuras do real.
Mas então o que é que 24 City é? Dizer que é um falso documentário é reduzir a sua amplitude, mas simplificando podemos dizer que sim (apesar de haver verdadeiros depoimentos no caldo emocional e nostálgico que é o filme). Esta obra versa sobre o encerramento de uma fábrica de armamento numa cidade periférica da China (construída no tempo de Mao e que havia tido o seu pico produtivo nas guerras com o Japão e Coreia), que é desmantelada para dar espaço à construção de um condomínio de luxo de nome 24 City sendo os dramas de cada um dos seus funcionários o mote da sua narrativa (que mais que recordar a fábrica, recordam a sua vida, e é disso que o filme se alimenta, das pequenas histórias que nos vão sendo apresentadas, desde uma mãe que perde o filho, à jovem trabalhadora solitária e deprimida, passando pela senhora de meia idade desempregada e o antigo trabalhador que visita o seu mestre, mas temos ainda os jovens com futuro, aqueles que não querem a vida dos pais, aqueles que vêem na fábrica o grilhão que castrou uma geração).

24 City é sobre um China convulsa e esperançosa, mas mais que isso é um objecto de um cuidado raro, de uma compreensão (quase infinita) dos temas que retrata.

8.04.2010

Cinema Português em Marcha: 23/23 - Conclusão

Os sítios de 3 produtoras nacionais (da esquerda para a direita, Ukbar, Clap e BlackMaria)

Chegados ao fim, o que tenho para acrescentar são mais comentários que ideias desenvolvidas:

1. Felicitar João Nicolau por ter conseguido a apuração para a secção Horizonti do Festival de Veneza (assim como Oliveira que leva ao mesmo festival a curta Painéis de São Vicente de Fora, visão poética)

2. Felicitar também Raoul Ruiz por ter chegado a Toronto

3. Houve uma série de filme que não entraram na lista, não por motivos de qualidade, mas sim por insuficiência de informação nos meios da Internet, fica aqui uma lista de não-presenças: Onde Está a Felicidade? de Alberto Seixas Santos, A Regra de Joaquim Sapinho, Inimigo Sem Rosto (este, que do nada, apareceu com data de estreia para amanhã) de José Farinha, Bazar de Patrícia Plattner, No Meu Lugar de Eduardo Valente, assim como co-produções, como O Voo do Flamingo (do qual já tinha falado no ano passado) ou A Republica de Mininus.

4. A propósito de falta de informação, tenho a dizer que embora haja raras excepções como a produtora Ukbar, BlackMaria e Clap (a Som e a Fúria assim como Persona Non Grata não são más de todo), a generalidade das produtoras nacionais, não fornece qualquer informação sobre os seus filmes, sendo mesmo a ausência de um sítio oficial uma triste vulgaridade. Por outro lado há que louvar o trabalho do ICA com o seu catálogo anual de filmes que é quase sempre muito completo.

5. Para terminar, só mesmo com mais filmes, aqueles que só podemos esperar a partir do ano que vem, eles são: Cisne de Teresa Villaverde, Red Cross de Hugo Vieira da Silva, O Naufrago de João Figueiras, Rosto de Victor Gonçalves, As Linhas de Torres de Luís Filipe Rocha, Em Segunda Mão de Catarina Ruivo, Aurora de Miguel Gomes, Margarida de Licínio Azevedo e Gelo de Luís Galvão Teles.

Para o ano há mais [que isto é trabalho para burro].

8.03.2010

Cinema Português em Marcha - 22/23 (Curtas e Docs)

Para começar há que explicar que se a informação sobre as longas já é escassa, para as curtas (e documentários) é absolutamente inexistente, daí que daqui sairá apenas uma lista de títulos a tomar em consideração.

Curtas:
Da esquerda para a direita: Vicky and Sam, Senhor X, Os Olhos do Farol, Pickpocket, Voodoo

Manhã de Santo António de João Pedro Rodrigues (o brilhante realizador de O Fantasma e de curtas como Parabéns! e China China)
Canção da Manhã de Cláudia Varejão (a realizadora das curtas, Um dia Frio e Fim-de-Semana)
Voodoo e Mercúrio de Sandro Aguliar (realizador da longa, A Zona e de curtas como Corpo e Meio; Voodoo esteve no Indie e Mercúrio em Vila do Conde)
Na Escola de Jorge Cramez (realizador da maravilhosa longa, O Capacete Dourado)
Senhor X de Gonçalo Galvão Teles (realizador de Antes de amanhã)
Vicky and Sam de Nuno Rocha (realizador da curta 3x3 que ganhou o prémio Zon que incluia um ano de estudos nos Estados Unidos de onde surgiu este trabalho)
Os Olhos do Farol de Pedro Serrazina (realizador de Estória do gato e da lua)
Pickpocket de João Figueiras (realizador de Paisagem Urbana com Rapariga e Avião, mas que é o produtor do mais recente trabalho de Pedro Caldas)
Nenhum Nome de Gonçalo Waddington (primeira obra para o conhecido actor)
[Rafa seria o próximo trabalho de João Salavisa, mas segundo o próprio, o seu seguinte projecto é já uma longa]

Docs:
Da esquerda para a direita: Cidade dos Mortos, Pelas Sombras, Sem Companhia, 48

48 de Susana de Sousa Dias (vencedor do Festival Cinéma du Réel)
A casa que eu quero de Joana Frazão e Raquel Marques (presente no segundo Doc_Europa)
A Cidade dos Mortos de Sérgio Trefaut (do realizador de Lisboetas)
100 Mil Cigarros de Pedro Costa (do consagrada realizador de Casa de Lava, No Quarto de Wanda, Juventude em Marcha e do documentário Ne Change Rien)
José & Pilar de Miguel Gonçalves Mendes (filme de abertura do DocLisboa deste ano)
Sem Companhia de João Trabulo (produtor de Fantasia Lusitana do Canijo e Tebas do Rodrigo Areias)
Pelas Sombras de Catarina Mourão (Vencedor do prémio do Público no último Indie)
A Última vez que vi Macau de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata (ambos os realizadores tinham rodado a curta China, China já sobre a comunidade asiática de Lisboa)
Lisboa Domiciliaria de Marta Pessoa (realizadora da curta Dia de Feira)
Guerra ou Paz de Rui Simões (realizador de documentários como os 'clássicos' Bom Povo Português e Deus Pátria Autoridade e o recente Ilha da Cova da Moura)
Singificado - A musica Portuguesa se gostasse dela própria de Tiago Pereira (o único que vi e sobre o qual escrevi aqui)

8.02.2010

Cinema português em Marcha - 21/23

1# Embargo. O filme português mais antecipado do ano está previsto para estrear a 30 de Setembro; no King Triplex já estão afixados posters e o trailer já passa nas salas. O filme foi apresentado em Janeiro no Fantas (faltava à data o trabalho do som) sendo que ficou pronto em Abril deste ano, passados mais de 6 meses não só a informação abunda (FaceBook, Twitter, IOL, JN, Diário de Coimbra, Rua de Baixo) como o mercado estrangeiro começa a olhar para o filme com curiosidade (o Twitch film fez um artigo sobre o filme, comparando-o aos filmes dos Coen); aconselho a visita ao sitio oficial, ao contrário da maioria dos projectos nacionais este é deveras completo, traduzido em várias línguas, com vídeos, galerias de fotos, biografias dos envolvidos, entre outros. [e já agora o sítio da produtora].
Este filme tem uma série de pontos positivos, a começar pelo facto de receber do estado um minúsculo apoio destinado a uma curta (43 mil euros, comparando com os 700 mil euros do último filme do Oliveira), tem um orçamento total de uns míseros 250 mil euros (o dinheiro vem em parte de Espanha pela Vaca Filmes e do Brasil pela Diler & Associados e claro está, Portugal pela Persona non grata Pictures e pela Zed Filmes) e a sua produtora não está nem em Lisboa nem no Porto, descentranlizando os centros de produção nacional para Coimbra (mais propriamente Cernache). Além disto, este é um filme realizado por António Ferreira que depois da longa (para televisão que acabou por passar positivamente nos cinemas) Esquece tudo o que te disse e da multi-premiada curta (que também passou em sala) Deus não quis - maravilhosa se me é permitido frisar, tem agora a sua segunda longa adaptada de um conto de Saramago, projecto que vem elaborando desde os tempos de estudante e que com a greve dos camionistas em 2008 lhe pareceu ser mais actual que nunca.
A história de Saramago é curtíssima, por isso a longa será algo mais complexo; a descrição oficial apresenta-nos um homem, Nuno (Filipe Costa) que inventa uma máquina que revolucionará a industria do calçado, só que fá-lo numa crise petrolífera quando por algum motivo estranho se sente incapacitado de sair do seu carro. [Podem ver o trailer e o teaser]
Podem ainda ver uma visita à rodagem feita pela equipa do Fotograma, ver uma extensa entrevista de meia hora (em três episódios, 1,2,3), ler uma entrevista com o realizador para o ípsilon, uma crítica da Visão e ainda ver o videocilp de uma música que J. P. Simões fez para para o filme.

8.01.2010

Cinema Português em Marcha - 20/23

2# A Espada e a Rosa, é um filme de família (no sentido sanguíneo e cinematográfico - Som e a Fúria, a produtora), realizado e escrito por João Nicolau, realizador de Rapace e Canção de Amor e Saúde (que tem um cameo de Miguel Gomes), curtas de vencedoras de Vila do Conde e presentes em Cannes, co-escrito pela sua irmã Mariana Ricardo (argumentista do Aquele querido mês de Agosto de Gomes), produzido por Sandro Aguilar, realizador de curtas como Corpo e Meio ou mais recentemente Voodoo e da longa A Zona onde Nicolau aparece como actor, assim como já tinha aparecido na primeira longa de Gomes, A cara que mereces. O filme conta com actores como Hugo Leitão e Manuel Mesquita ambos de Rapace e dois veteranos: Luis Miguel Sintra e José Mário Branco.
A presença de José Mário Branco não deve ser surpresa, uma vez que o filme aparece no IMDB como um musical de aventuras, conta a história de um rapaz da Lisboa moderna que um dia decide abandonar o seu trabalho de free-lancer e lançar-se à aventura pelos mares numa caravela pirata do século XV (Caravela Vera Cruz), onde no meio de umas desavenças se perderá algo muito importante e que dará o mote para uma busca ao longo do filme: "A partir daí é um desenrolar de aventuras, com reféns, com mapas, para recuperar essa substância. No fundo é uma interpretação autobiográfica do princípio do universo [risos]".
O filme contou com o apoio do ICA para primeiras obras no valor de 500 mil euros, subsídio que foi atribuído com os últimos filmes de Joaquim Leitão, Marco Martins que estrearam recentemente, deste modo espera-se para breve a estreia, uma vez que se sabe estar já pronto, uma vez que foi apresentado no Marché du Film em Cannes. Podem ainda consultar a página do filme no sítio da produtora ou ver estas imagens da rodagem.